29 de Janeiro de 2019 ⋅ Ética

Mães-tigre, ou mães-elefante?

Daiane Martins Rocha
Ética no Mundo Real: 82 Breves Ensaios sobre Coisas Realmente Importantes
de Peter Singer
Tradução de Desidério Murcho
Lisboa e São Paulo: Edições 70, 2018, 390 pp.

Peter Singer reúne neste livro 82 ensaios previamente publicados em diversos jornais ao longo de alguns anos, abordando temas éticos cotidianos como a noção de progresso moral, a discussão acerca da existência de Deus e o sofrimento no mundo, a defesa do veganismo, a santidade da vida, a bioética e saúde pública, o sexo e o gênero, a felicidade, a política, a ciência e a tecnologia, entre outros. Viver eticamente não é um mero obedecer a regras do tipo “tu não deves...”, afinal, muitas coisas poderiam não estar inclusas na lista imaginária do “não deves”, como fazer o bem às pessoas menos afortunadas que nós e alargar o nosso cuidado para além de nossa espécie, abrangendo os animais não-humanos. A perspectiva da filosofia, ao menos no mundo anglófono, por muito tempo foi a de que ela dizia respeito à análise de palavras e conceitos, e, portanto, sendo neutra em relação às questões éticas. Certamente, não é essa concepção de filosofia de Singer quando se debruça sobre a filosofia moral e como ela tem sido praticada após os movimentos de estudantes no fim dos anos sessenta e início dos setenta, que exigiam que os cursos universitários fossem relevantes para as questões importantes para cada época, como eram então a guerra do Vietnã, as lutas contra o racismo e o sexismo e a degradação ambiental. Esse movimento causou uma mudança no modo de se fazer filosofia, e essa é a inspiração de Singer ao escrever os 82 breves ensaios publicados em diferentes jornais e datas, e agora compilados, a fim de tocar, sob a perspectiva filosófica, em questões importantes ao contexto ético, científico, político, social e ambiental. Nesses breves ensaios, Singer parte da perspectiva de que a ética vai além de expressões subjetivas de repugnância ou aprovação, e lembrando as reflexões de Derek Parfit em On What Matters, defende que há verdades éticas objetivas que podemos descobrir por meio do raciocínio e da reflexão cuidadosos. Ainda assim, salienta que os leitores que não aceitarem a ideia de verdades éticas objetivas podem ler os ensaios como tentativas de explicar as implicações de aceitar o compromisso ético a partir da perspectiva de diferentes filósofos.

No primeiro capítulo, intitulado “Grandes Questões”, o ensaio “O Valor de um Ponto Azul Claro”, inicia-se com uma famosa frase de Kant, que escreveu que “duas coisas enchem o coração com espanto e uma reverência tanto mais renovados quanto mais frequente e intensamente nelas meditamos: o firmamento estrelado acima de nós e a lei moral dentro de nós”. Esse espanto e reverência podem ser exemplificados pelo ocorrido em 1990, quando a sonda Voyager chegou aos limites exteriores do sistema solar e captou uma imagem da Terra, que ficou conhecida por sua descrição feita pelo astrônomo Carl Sagan como “um pálido ponto azul”. Perceber que tudo o que demos valor alguma vez em nossas vidas se concentra nesse pálido ponto azul gera reflexões acerca de nossa pequenez diante do universo, e de como precisamos cuidar desse lugar onde se dão todas as nossas experiências. Com essa inspiração, Russell fez do desarmamento nuclear o foco principal de sua atividade política, e fez Carl Sagan pensar que, ao vermos a Terra como um todo diminui-se a importância de fronteiras nacionais que nos dividem, e torna mais evidente a nossa responsabilidade de sermos mais bondosos uns com os outros e preservar esse planeta, que é o único lar que conhecemos. Essa perspectiva foi lembrada também por Al Gore, que usou a imagem do ponto azul claro no filme “Uma Verdade Inconveniente”, para mostrar que se destruirmos esse planeta, não teremos para onde ir, o que provavelmente é verdadeiro, visto que, por mais que os cientistas tenham buscado vida em outros planetas com esse intuito de ver se poderíamos habitar em algum outro, a melhor opção ainda seria cuidar desse planeta que temos. Singer encerra esse ensaio com um questionamento perante esse contexto de buscar outro planeta para vivermos dada a destruição iminente desse, que seria o seguinte: caso se encontre vida em outros planetas, e descobríssemos que há outras formas de vida inteligentes no universo além da humana, o que eles pensariam das nossas leis morais?

No ensaio “Há Alguma Coisa que Importe?” é trazida a reflexão de se a ética seria uma questão puramente subjetiva, relativa à cultura de cada sociedade; por outro lado, ela pode ter uma certa objetividade. Desde a década de trinta, quando os positivistas lógicos afirmaram que não podemos verificar a verdade dos juízos morais, entendeu-se que esses apenas expressam sentimentos de aprovação e desaprovação. Sendo assim, se dizemos “não devias bater na criança”, estamos apenas expressando nossa desaprovação ou encorajando a pessoa a parar de bater na criança, mas não haveria qualquer verdade quanto ao ser imoral ou não bater na criança. Objeções foram feitas a essa perspectiva da ética, sobretudo por pensadores religiosos, mas a objeção que mais interessa a Singer é a feita por Derek Parfit no livro On What Matters. Parfit defende o objetivismo na ética, tomando três teorias elencadas por ele como principais sobre como devemos agir: o contratualismo (de Hobbes, Locke, Rousseau, e até Rawls e Scanlon), a tradição kantiana e o utilitarismo de Bentham. Parfit defende que as teorias kantianas do contrato social precisam ser revistas para que sejam defensáveis, e essa revisão para ele seria uma leitura delas a partir de uma forma de consequencialismo. Dada uma revisão dessas teorias, feitas à luz do consequencialismo, Parfit chega à conclusão de que os defensores de cada uma dessas teorias estão subindo a mesma montanha por encostas diferentes. Sendo assim, o que importa para Parfit é mostrar que o objetivismo ético é verdadeiro e que os juízos morais não são meras expressões de sentimentos de aprovação e desaprovação, e que as razões para evitarmos sofrer no futuro ou para evitar que os outros sofram são verdades normativas autoevidentes que fornecem a base de defesa de Parfit da objetividade na ética, sendo tão verdadeiras quanto 2 + 2 = 4.

No ensaio “Será que Há Progresso Moral?”, Singer escreve que é difícil defender que haja um progresso moral na humanidade depois de um século que presenciou duas guerras mundiais, o holocausto nazista, o Gulag de Stálin, os campos de extermínio de Camboja e as atrocidades no Ruanda e no Darfur. Em resposta aos crimes cometidos na segunda guerra mundial, a Assembleia Geral das Nações Unidas criou a Declaração Universal dos Direitos Humanos, com o intuito de estabelecer o princípio de que toda a gente tem os mesmos direitos básicos, independentemente de raça, cor, sexo, linguagem ou religião. Tendo essa declaração em mente, podemos avaliar nosso progresso moral: fomos bem-sucedidos, por exemplo, no combate ao racismo e ao sexismo? Pesquisas feitas pelo site WorldPublicOpinion.org mostram que a maioria das pessoas de diferentes raças e etnias passaram a ser tratadas de forma mais igualitária. As pessoas nos Estados Unidos, Indonésia, China, Irã e Grã-Bretanha têm mais possibilidades de ver mais igualdade, enquanto a população da Palestina, Nigéria, Ucrânia, Rússia e Azerbaijão vêem menos igualdade para pessoas de diferentes grupos étnicos e raciais, e também para as mulheres. Quando indagados sobre a desigualdade com base em raça, etnia ou sexo, 90% dos entrevistados declarou que o tratamento igual é importante. Em relação aos direitos iguais para as mulheres, 86% das pessoas declararam ser importante. Assim, pode-se dizer que houve uma mudança significativa nas perspectivas das pessoas, se comparada com a década anterior à Declaração Universal dos Direitos Humanos, que reflete-se no direito das mulheres ao voto, ao trabalho fora de casa e a uma vida independente, e no fato de que, mesmo havendo ainda racismo, nenhum país aceita abertamente doutrinas racistas. Sabe-se que em países como a Arábia Saudita, a realidade das mulheres ainda é bem diferente; contudo, a mudança gradual no pensamento das novas gerações, na direcção de uma maior aceitação da igualdade entre os seres humanos, ainda nos permite pensar que a cada geração o discurso acerca da igualdade torna-se cada vez mais real.

No ensaio “Deus e o Sofrimento, de Novo”, Singer relata um pouco de sua contribuição ao debate proposto por Dinesh D’Souza sobre a existência de Deus, que ocorreu na Universidade de BIOLA (Instituto Bíblico de Los Angeles) para o qual foi convidado. Para Singer, podemos ter a certeza de que não vivemos em um mundo criado por um Deus todo-poderoso, onisciente e sumamente bom por conta da vasta quantidade de dor e sofrimento que encontramos no mundo. Para ele, se houvesse um Deus com esses atributos, ele poderia ter criado um mundo sem tanto sofrimento. Singer não aceita o argumento cristão de que Deus criou o mundo sem sofrimento, mas que por ter dado ao ser humano o livre-arbítrio, o sofrimento veio ao mundo como resultado das más escolhas da humanidade (que tiveram, inclusive, consequências sobre toda a natureza). Ele rebate essa resposta dizendo que essa explicação não enfrenta o sofrimento de quem morre afogado em cheias, é queimado vivo em fogos florestais causados por relâmpagos, ou morre de fome ou numa seca. Singer critica também a ideia de castigo considerada por alguns crentes, como se os cristãos considerassem que um bebê que morre em uma catástrofe natural fosse porque Deus o quis, ou porque são culpados pela desobediência de Adão e Eva. Essa visão um tanto “medieval” que Singer tem do cristianismo não é compartilhada pela maioria dos cristãos de hoje. A maioria dos cristãos hoje veria a morte desse bebê como consequência de um mundo de pecado onde todos sofrem as consequências, no qual uma árvore pode cair sobre bons ou maus, a enchente pode matar bebês ou assassinos, pois as catástrofes naturais cada vez mais presentes são fruto de muitas decisões livres dos seres humanos, como a exploração capitalista da natureza que a degrada e traz impactos por todos os lados do globo. Creio que nem um cristão nem um ateu como Singer deveriam atribuir as catástrofes naturais a Deus. Ele também critica a ideia de pecado baseada na desobediência de Adão e Eva ao comerem do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, e assim trazerem as consequências do pecado sobre toda a descendência da humanidade. Ele considera triplamente repugnante a doutrina cristã tradicional pois parece implicar que o conhecimento é uma coisa má, que desobedecer à vontade de Deus seria o maior pecado de todos, e que as crianças herdam os pecados dos seus antepassados, podendo por isso ser justamente castigados devido a eles. Embora se esteja aqui descrevendo um pouco da discussão levantada por Singer, entende-se que essa ideia de castigo é bastante arcaica e embora possa ser baseada em algumas passagens do antigo testamento, tem pouca aceitação entre os cristãos hoje. Singer segue com o seguinte questionamento: se o pecado fosse a explicação para o sofrimento humano, como aceitar que os animais também sofram com cheias, fogos e secas, se não descendem de Adão e Eva? Descartes responderia que na verdade os animais não sofrem, e que o fato de animais emitirem gritos e sons não prova que eles sofrem, assim como o tic-tac de um relógio não prova sua senciência. Singer relata ainda a sua indagação a D’Souza acerca do sofrimento de quem nasce sem um membro, ao que ele responde que não podemos compreender as razões de Deus para criar o mundo tal como é, pois seria como uma formiga buscando compreender as nossas decisões. Singer obviamente não satisfeito com a resposta, declara que quando abdicamos de nossos próprios poderes racionais podemos acreditar seja no que for. Para o autor, os indícios mais plausíveis aos olhos humanos são de que o mundo não foi criado por um Deus, ou que ele não é sumamente bom e todo-poderoso.

No ensaio “Moralidade sem Deus”, Singer aponta alguns problemas na perspectiva de que a moralidade vem de Deus. O primeiro deles seria o de que dizer simultaneamente que Deus é bom e que nos deu o sentido do bem e do mal seria simplesmente dizer que Deus está de acordo com os padrões de Deus, o que seria tautológico. Em segundo lugar, o problema é que os princípios morais não são exclusividade de pessoas religiosas, e são partilhados por ateus e agnósticos que não agem menos moralmente do que crentes religiosos, ainda que por diferentes princípios. Além disso, a religião levou pessoas a cometerem crimes horríveis, como as ordens de Deus para que Moisés matasse os midianitas, até às cruzadas, inquisição e conflitos entre muçulmanos sunitas e xiitas, e homens-bomba crendo que seu ato “heróico” os levará ao paraíso. O terceiro problema que poderia ser apontado em relação a atribuir à moralidade uma origem divina é que mesmo entre religiões de bases bem diferentes, alguns elementos da moralidade parecem universais, o que pode nos levar a pensar ou que um criador nos tenha dado esses elementos universais no momento da criação, ou que ao longo de milhões de anos a nossa faculdade moral evoluiu de modo a gerar intuições acerca do bem e do mal. Segundo Singer, a investigação nas ciências cognitivas, baseando-se em argumentos teóricos que surgiram na filosofia moral, resolvem essa disputa sobre a origem da moralidade. O autor descreve três exemplos de decisões morais, ressaltando que segundo o resultado do teste proposto, tanto ateus quanto religiosos responderam da mesma forma ao teste, mas se a moralidade é a palavra de Deus, Singer entende que os ateus deveriam pensar essas situações morais de forma diferente. Assim, o autor conclui que nossas intuições morais seriam resultado de milhões de anos nos quais “os nossos antepassados viveram como mamíferos sociais, e fazem parte de nossa herança comum” (claro, sempre considerando que seja bem mais fácil para Singer crer nisso que em um Deus criador…). Desse modo, o que era bom para nossos antepassados pode não ser bom hoje, e uma compreensão profunda das mudanças no ambiente moral não surgiram da religião, mas da reflexão cuidadosa da humanidade e do que consideramos uma vida bem vivida. Portanto, para Singer, é uma questão resolvida: a fonte da nossa moralidade é a própria natureza e não Deus. Porém, considerando que o próprio Singer coloca como uma das formas de se pensar a origem da moralidade “um criador que nos tenha dado esses elementos universais no momento da criação”, não mudaria nada o fato de a pessoa ter-se tornado ateia ao longo de sua vida, pois o criador dela continuaria sendo Deus, e os elementos universais da moralidade dados à pessoa no momento da criação não deixariam de existir pelo fato de ela decidir não crer na criação divina. Não parece tão fácil assim resolver essa disputa sobre a origem da moralidade.

O ensaio “Estamos Preparados para a Pílula da Moralidade?” parte do exemplo de caso da menina de Foshan, na China, que foi atropelada duas vezes por ter sido ignorada pelos transeuntes após o primeiro atropelamento. Singer questiona se, caso a investigação cerebral em curso mostrar que há de fato diferenças bioquímicas entre os cérebros de quem ajuda terceiros e os dos outros, isso poderá levar a uma pílula da moralidade. Ele questiona também se as pessoas tomariam pílulas que as tornassem mais suscetíveis a ajudar os outros. Agata Sagan e Singer, ao levantar alguns pontos sobre as investigações recentes que buscam compreender o que se passa no cérebro quando as pessoas tomam decisões morais, ressaltam ainda que, mesmo que essa pílula da moralidade existisse, ainda enfrentaríamos o tema do livre-arbítrio. Pois se uma pílula mudasse o nosso comportamento moral, provavelmente não poderíamos nos considerar livres. Ao mesmo tempo, caso sejam as nossas composições bioquímicas que determinam algumas de nossas reações éticas, nenhum de nós pode dizer que tem livre-arbítrio. De qualquer modo, a pergunta é se estaríamos dispostos a influenciar o nosso comportamento para melhor.

Em “A Qualidade da Clemência”, Singer escreve a respeito de alguns casos: de um condenado por explodir um voo e matar 270 pessoas sem qualquer arrependimento; de um jogador de futebol americano condenado por torturar e matar animais malsucedidos em lutas de cães, mas arrependido; e de um comandante que massacrou centenas de vietnamitas em 1968, mas que agora confessou e pediu desculpas por suas ações. Quando devemos perdoar ou mostrar clemência? Singer mostra alguns exemplos que ocorreram de clemência que são uma linha tênue com a impunidade, e para os quais não há uma resposta clara acerca do perdão, e principalmente, quanto à sua obrigatoriedade, visto que, citando Shakespeare, Singer escreve que “a qualidade da clemência não é forçosa”, isto é, imposta ou obrigatória, mas algo que cai livremente como a chuva.

No ensaio “Pensar Acerca dos Mortos”, Singer cita um escrito de seu avô, de ascendência judia, morto por subalimentação a que foi submetido após ser deportado para um gueto sobrepovoado durante o regime nazista. O escrito citado lança a questão: o que é uma vida boa? E cita Sólon, para quem a vida boa é uma vida memorável mesmo após a morte do indivíduo. A boa memória e as honras concedidas em homenagens à pessoa que partiu podem ser vistas como o coroamento dessa vida feliz, boa, e que, independentemente de crenças na vida após a morte, essas memórias boas deixadas por quem partiu são desejáveis e respeitadas como uma espécie de prova de uma vida bem vivida. Singer publicou um livro sobre seu avô como uma homenagem, crendo ser importante a memória de seu avô, ainda que sem nenhuma pretensão metafísica.

O artigo “Deveria esta ser a Última Geração?” começa com alguns questionamentos: já pensou em ter filhos? Quais razões levou em conta? Singer sugere que se considere imoral trazer uma criança ao mundo cujas perspectivas de uma vida feliz e saudável sejam escassas; mas será o fato de ser provável que uma criança vá ter uma vida feliz e saudável um motivo para fazê-la existir? Dado o sofrimento no mundo e a preocupação com as gerações futuras, seria imoral sugerir que fôssemos a última geração, para acabar com o sofrimento? Tanto animais humanos quanto não-humanos sencientes sendo esterilizados para não mais procriarem — haveria algo de errado nesse cenário? Será que as pessoas que não existem têm o direito de existir?

Em “Filosofia no Pódio”, Singer escreve que segundo um relatório da universidade de Harvard, o número de estudantes que acabam os cursos de humanidades caiu de quatorze para sete porcento. As causas disso podem ser a baixa perspectiva de carreiras compensadoras, ou mesmo, de obter uma carreira, ou ainda, porque algumas disciplinas não conseguem explicar por que fazem o que fazem. Ainda assim, segundo um relatório do Instituto Gottlieb Duttweiler (IGD), que elencou os cem maiores líderes globais do pensamento no ano de 2013, três dos cinco mais importantes pensadores são filósofos, entre elas o próprio Singer, Žižek, Daniel Dennett e ainda, em quarto, Habermas, que embora seja considerado filósofo, foi considerado como sociólogo. Parece que, mesmo que o interesse dos jovens estudantes pelos cursos de humanidades, tenha caído, sua relevância para nossa sociedade continua em alta, sobretudo a da filosofia, visto que pode transformar a vida de pessoas, ao que Singer exemplifica com estudantes que se tornam vegetarianos, que doam um rim a um desconhecido, ou que doam metade de seus bens a instituições de caridade, motivados pelos estudos de filosofia. Quantas das outras disciplinas poderiam fazer o mesmo?

Além dos temas apresentados acima, contidos na primeira seção do livro, que o autor intitula de “Grandes Questões”, Singer também apresenta nessa obra mais dez seções sobre temas específicos como animais, ética da santidade da vida, bioética e saúde pública, sexo e gênero, fazer o bem, felicidade, política, governação global, ciência e tecnologia, e vida, desporto e trabalho. No capítulo intitulado “Animais”, Singer discute, entre outros temas, a questão ética no uso de “ovos éticos”, se a caça às baleias seria “preconceito cultural”, o veganismo e o alargamento do conceito de “pessoa” aos chimpanzés. No ensaio “Ovos Éticos”, Singer expõe a importância da conscientização sobre como os ovos são “produzidos”, visto que na verdade a maioria dos consumidores de ovos não concordaria com os maus-tratos e com as galinhas mantidas presas em minúsculas gaiolas para produzirem ovos. O problema é que a maioria dos consumidores não tinha, e em alguns lugares ainda não têm, consciência dessa condição. Quando ocorreu na Grã-Bretanha que os consumidores se negaram a consumir esses produtos, algumas redes de supermercados começaram a comercializar exclusivamente ovos de galinhas caipira, isto é, de galinhas soltas e que viviam com seus hábitos naturais como o de ciscar. Singer chama atenção para o fato de nos EUA não haver leis federais acerca de como os produtores de ovos tratam as galinhas, embora em pesquisa feita com os eleitores da Califórnia em 2008 tenha-se visto que a maioria exige que os animais tenham espaço para se esticar e se movimentar sem esbarrar em outros animais. Parece então que o trabalho de pequenos grupos de pessoas comprometidas com a conscientização dos cidadãos quanto à situação dos animais na indústria alimentícia pode trazer muitas conquistas no âmbito da consideração ética dos animais

No capítulo “Para lá da Ética da Santidade da Vida”, Singer traz à tona temas bastante difíceis e polêmicos como o aborto, a concepção de morte misericordiosa, eutanásia e o próprio questionamento de se podemos escolher a morte. No ensaio “A Verdadeira Tragédia do Aborto”, são trazidos alguns dados sobre o aborto no mundo: que em países onde ele é permitido, como na Europa Ocidental, há em média doze abortos para cada mil mulheres. Na África e na América Latina, onde o aborto é proibido, são, respectivamente, 29 e 31 abortos para cada mil mulheres. Segundo relatório da Organização Mundial da Saúde, os abortos mal feitos provocam a morte de 47 mil mulheres todos os anos, sendo quase todas essas mortes em países em desenvolvimento, onde o aborto é ilegal. Singer chama atenção para a argumentação utilizada para defender a criminalização do aborto: da afirmação de que o feto é um indivíduo vivo da família Homo sapiens se passa para a tese ética de que o feto tem consequentemente o mesmo direito à vida que qualquer outro ser humano, o que seria um equívoco. Um ser humano em potencial, como é o caso do feto, não tem os mesmos interesses em estar vivo, e até certo estágio da gestação, não tem, inclusive, a capacidade de sentir dor. Por isso, para Singer, pertencer à espécie Homo sapiens não é suficiente para dar a um ser direito à vida. Ele argumenta que podemos defender que não se deva matar, contra a sua vontade, seres autoconscientes que queiram continuar a viver. Porém, Singer questiona por que deveríamos considerar imoral interromper uma gestação antes de o feto ter efetivamente capacidade de racionalidade ou de autoconsciência. Ou seja, para o autor é claro que, quando precisarmos escolher entre os interesses de um ser potencialmente racional, mas que ainda não tem consciência, e os interesses de mulheres racionais, deve-se priorizar o interesse dessas mulheres.

Já no capítulo “Bioética e Saúde Pública” Singer questiona, entre outras coisas, o mercado em torno da manipulação genética, venda de órgãos, as situações em que a saúde pública se sobrepõe à liberdade privada, e o desejo humano de viver mil anos (ou mais). O ensaio “O Genoma Humano e o Supermercado Genético” tem como tema o festejado mapeamento do genoma humano, que traz consigo grandes possibilidades de manipulação genética para prevenção de doenças e características indesejadas, e até mesmo para efetiva escolha dessas características para os filhos que nascerem a partir do momento em que a aplicação desses conhecimentos estiver disponível. Questiona-se quanto as pessoas estariam dispostas a pagar para eliminar a loteria genética e garantir características desejáveis como altura, inteligência, capacidades atléticas etc., e, além disso, o que aconteceria com aqueles que não pudessem pagar por esses serviços. Seria uma eugenia que ocorreria por escolha dos consumidores, no “supermercado genético”, como lhe chama Singer, porém, disponível apenas aos que pudessem pagar por isso, o que possivelmente acabaria com o mito norte americano da igualdade de oportunidades.

Singer apresenta ainda um capítulo com ensaios sobre “Sexo e Gênero”, debate questões como se o incesto entre irmãos adultos deveria ser crime, defende que a homossexualidade não é imoral, discute os vícios virtuais, a importância do sexo, e a situação das mulheres no Irã. No ensaio “A Homossexualidade não é Imoral”, Singer cita Stuart Mill, que defende que

o único propósito em nome do qual o poder pode ser legitimamente exercido sobre qualquer membro de uma comunidade civilizada contra a sua vontade é o de impedir o dano a terceiros. O seu próprio bem, seja ele físico ou moral, não é razão suficiente. [...] Sobre si próprio, sobre o seu corpo e o espírito, o indivíduo é soberano.

No entanto, Hart, assim como muitos outros pensadores, não concorda com Mill, e defende que o bem físico do indivíduo é suficiente para o estado ter poder sobre o indivíduo, caso seja provável que o indivíduo negligenciará os seus melhores interesses. Um exemplo disso é a obrigatoriedade do uso do cinto de segurança nos carros ou dos capacetes nas motocicletas. Esse seria, segundo Hart, um exemplo de paternalismo jurídico, que se diferencia do moralismo legal. No entanto, no caso da homossexualidade, que em muitos países é ilegal e pode gerar até pena de morte em algumas nações islâmicas, percebe-se um caso de moralismo legal, visto que a intervenção do estado não é no sentido de assegurar o bem físico do indivíduo, mas sim de assegurar que ele corresponda a uma concepção de moralidade, sobretudo, religiosa. Isso é bastante problemático, sobretudo em sociedades que se declaram democráticas. Singer salienta que o problema maior nesse caso nem seria o fato de o estado utilizar a lei para determinar a moralidade privada, mas o fato de esse posicionamento partir da perspectiva de que a homossexualidade é imoral. O autor considera essa perspectiva equivocada, pois se a homossexualidade for considerada imoral por não ser natural e não conduzir à reprodução, o uso de contraceptivos ou mesmo de adoçantes seria imoral, pois também não são naturais.

No capítulo “Fazer o Bem”, Singer reflete sobre a caridade, mostrando que deve ser feita utilizando a razão e não partindo apenas de apelos emocionais. Fala da benevolência ostensiva, da prestação de contas das instituições de caridade, do custo ético da arte e do fazer o bem como forma de evitar a extinção humana. No ensaio “O Custo Ético da Arte”, Singer cita algumas obras de arte vendidas por valores astronômicos, mesmo não sendo bonitas nem exibindo uma grande perícia artística, e que muitas pessoas compram não por entenderem de arte, mas porque encaram a arte como um investimento, assim como as ações, imóveis etc. Singer salienta a importância da arte no pós-guerra, por sua capacidade de pôr nossas ideias em questão, como o exemplo da obra “Luxo e Degradação”, de Jeff Koons, que consistia em um comboio de brincar gigante em aço inoxidável cheio de uísque. Ao ser entrevistado, o artista explicou que sua obra era uma crítica ao luxo e ao excesso, por conta da diminuição da mobilidade social no governo de Reagan, em que a disparidade entre aqueles que são muito ricos e os que são muito pobres aumentou. Ainda assim, Singer salienta que essa obra sobre o abismo entre ricos e pobres, sobre o luxo e a degradação, foi vendida por 33 milhões de dólares. Para o autor, se os artistas, críticos de arte e compradores de arte tivessem realmente algum interesse em reduzir o abismo cada vez maior entre os pobres e os ricos, focar-se-iam nos países em desenvolvimento, onde gastar uns poucos milhares de dólares para comprar obras de artistas locais poderia fazer diferença real para o bem-estar de comunidades inteiras. Singer reflete também sobre o motivo de os compradores pagarem fortunas por algumas obras, e ele aposta que essas pessoas creem que ter obras originais de artistas conhecidos lhes dará status. Ele termina o ensaio dizendo que, em um mundo ético, gastar milhões de dólares em obras de arte tiraria o status ao invés de dar, pois levaria as pessoas a se perguntarem se em um mundo com mais de seis milhões de crianças morrendo sem água potável ou saneamento básico, ou porque não foram vacinadas contra o sarampo, essas pessoas não teriam algo melhor para fazer com o dinheiro delas.

O capítulo intitulado “Felicidade”, inclui reflexões acerca da relação entre dinheiro e felicidade, dar dinheiro aos mais pobres, se podemos aumentar a felicidade interna bruta, em tempos em que a preocupação com a economia é maior do que com a felicidade das pessoas. No ensaio “Podemos Aumentar a Felicidade Interna Bruta?”, é analisada a interessante política do pequeno reino himalaico de Butão, que ao invés de se focar em PIB, o governo mantém sua política de promover a “felicidade interna bruta”. Apesar de nesse país o fluxo de turistas ser pequeno, dado que os vistos são muito caros, observa-se que essa é uma estratégia pensando na felicidade dos cidadãos do país, pois embora pudesse ajudar a economia, o grande fluxo de turistas poderia prejudicar a cultura e o meio ambiente de Butão, reduzindo, mesmo que a longo prazo, a felicidade de seus habitantes. Umas das perguntas que se pode fazer nesse caso é como definir a felicidade, para que se possa medi-la, então Singer propõe duas formas: a primeira seria pensar a felicidade como superávit do prazer sobre a dor, e nessa concepção, países como Brasil, México e Porto Rico saem-se bem. A segunda forma de pensar a felicidade seria por grau de satisfação com nossas vidas, o que inclui indicadores objetivos como saúde, educação e padrões de vida. Quando se pensa a felicidade nesses termos de satisfação, países mais ricos como Dinamarca e Suíça se destacam. Para captar o que seus habitantes entendem por felicidade e assim atuar no sentido de promovê-la, o Centro de Estudos de Butão tem processado os resultados de pesquisas feitas com mais de oito mil butaneses, que incluíam questões subjetivas acerca do grau de satisfação das pessoas com as suas vidas, fatores objetivos como padrão de vida, saúde e educação, e também a participação cultural, a vitalidade comunitária, a saúde ecológica e o equilíbrio entre trabalho e as outras atividades. Tendo o Butão como exemplo, em 2011 a Assembleia Geral da ONU adotou uma resolução que reconhece a felicidade como um “objetivo humano fundamental” e passou a encorajar que outros países adotem essas concepções para guiarem suas políticas.

No capítulo “Política”, Singer traz reflexões acerca das falácias denunciadas por Bentham, do porquê de votar, da liberdade de expressão, do uso e abuso da liberdade religiosa, e se deveríamos homenagear racistas, entre outros temas. No ensaio intitulado “Uma Estátua para Estaline”, o autor questiona se seria aceitável que um ditador implacável e que cometeu um número gigantesco de homicídios, como Hitler, fosse homenageado com uma estátua. Singer se refere a uma estátua de Stálin que estava sendo erigida em Moscou, e um busto nos EUA, que se encontra no Memorial do dia D. Por que Stálin seria mais aceitável que Hitler? Talvez porque, como escreve Singer, “o comunismo faz vibrar alguns dos nossos impulsos mais nobres, a procura da igualdade para todos e o fim da pobreza”, inspiração essa que não era encontrada no nazismo, que nem fingia uma preocupação com todos, mas apenas com um determinado grupo racial. Porém, o comunismo de Stálin era o oposto do igualitarismo, já que deu poder absoluto a poucos e negou todos os direitos à multidão. Quem o defende acaba alegando que ele tirou milhões da pobreza. Mas isso não foi feito sem a morte de outros tantos milhões. Enfim, a estátua de Stálin em Moscou causa tanta perplexidade quanto causaria uma estátua de Hittler em Berlim.

No capítulo “Governação Global”, Singer traz ensaios sobre a crise de refugiados, sobre diplomacia, ética da comida, equidade e mudança climática, entre outros. O ensaio “Fugir da Crise de Refugiados” traz alguns números alarmantes acerca do número de refugiados que têm chegado às fronteiras da união europeia partindo sobretudo da Síria, do Afeganistão, Somália, Líbia, e também da Ásia, por conta da perseguição da minoria muçulmana Rohingya, no Myanmar. Apesar de o grande número de refugiados trazer grandes preocupações aos países que os abrigam, como salienta Singer, “Não podemos culpar as pessoas por quererem abandonar países empobrecidos em conflito e por procurarem uma vida melhor”. A questão seria como atender às suas necessidades da melhor forma. Alguns pensadores defendem as fronteiras abertas, embora Singer não acredite que essa seria uma solução viável, tendo em vista a xenofobia. Contudo, o autor defende que a responsabilidade dos países mais abastados é acolher refugiados, visto que muitos podem e devem aceitar mais.

No capítulo “Ciência e Tecnologia”, são apresentados artigos sobre o uso de organismos geneticamente modificados (OGM), a produção de bactérias sintéticas e suas implicações para as concepções sobre a origem da vida, e o acesso à Internet como forma de promover a igualdade, entre outros. Um dos ensaios, intitulado “Razões Inequívocas a Favor do Arroz Dourado”, retrata um manifestante que acusa o Greenpeace de ser cúmplice na morte de dois milhões de crianças por deficiência de vitamina A, em locais onde o arroz é o principal alimento. Embora já tenha sido desenvolvido um arroz geneticamente modificado que é enriquecido com vitamina A, o Greenpeace, juntamente com outras organizações, se opôs veementemente ao uso desse ou de qualquer outro OGM. O ponto a ser pensado é que nem todos o OGM são uma ameaça ao ambiente ou à humanidade e cada caso deve ser estudado. Uma coisa seria o uso de sementes resistentes ao herbicida glifosato, pelos impactos que isso pode ter, outra coisa seria utilizar OGMs que possam resistir à seca e sejam adequados a regiões propensas à seca em países de baixos rendimentos. Singer chama atenção para o fato de que alguns OGMs podem ser úteis para a saúde pública e para o desafio de produzir em locais afetados pelas mudanças climáticas, por isso deveria ser analisado caso a caso.

E por fim, o capítulo “Vida, Desporto e Trabalho”, traz temas como o fracasso de nossas resoluções de ano novo por conta da incapacidade da nossa razão de dominar outros aspectos da nossa natureza que não são racionais, a necessidade dos ricos de encontrarem maneiras de gastar o dinheiro sem outro objetivo senão exibir sua própria riqueza (por exemplo, um relógio caro que faz a mesma função que um relógio mais barato), a permissividade das mães norte-americanas comparadas ao alto nível de exigência para com os filhos das mães chinesas, honestidade e ética empresarial, e algumas reflexões sobre ética, prazer e competitividade nos esportes. No ensaio “Mães-tigre ou Mães-elefante?”, Singer traz à tona a discussão acerca da educação dos filhos pelos pais e seus níveis de exigência, mostrando por um lado a permissividade dos pais norte-americanos e por outro, o alto nível de exigência das mães chinesas, que fazem com que seus filhos tendam a ser bem-sucedidos. A reflexão parte do comentário ao livro O Grito de Guerra da Mãe Tigre, em que a autora Chua fala do exemplo de suas filhas, que nunca jogaram videogame, nem ficaram assistindo TV ou dormindo na casa de amigas. O tempo vago delas era dedicado aos estudos de piano ou violino, e sempre foram acostumadas a ouvir quando não atendiam aos elevados padrões que os pais esperavam delas. Por outro lado, Chua, que leciona em Yale, descreve que tem vivido em uma cultura onde a autoestima é considerada tão frágil, que a equipe de esportes da escola premeia todas as crianças com o prêmio de “melhor jogador”, para que nenhuma se sinta desvalorizada. Contudo, ainda que criar os filhos ao estilo tigre possa visar fazer as crianças aproveitarem ao máximo as capacidades que têm, tem os seus pontos negativos, como o alto índice de jovens que fazem terapia ou mesmo que cometem suicídio quando não conseguem atender às altas expectativas impostas. Singer reflete que devemos pretender que nossos filhos sejam boas pessoas, que tenham vidas éticas e manifestem preocupação com os outros, o que não parece ser contemplado pela forma de criação das mães-tigre. Por isso, ele finaliza dizendo que deveríamos nos espelhar mais nos elefantes, em que as mães não se centram apenas no bem de seus próprios filhotes, mas protegem e cuidam de todos os jovens da manada, o que parece condizer mais com nossas necessidades enquanto animais sociais.

Sempre buscando perceber a ética em situações cotidianas ou mesmo questões mais teóricas da ética apresentadas de forma bastante didática e com muitos exemplos da vida prática, esta obra revela-se uma boa introdução para quem gostaria de se aventurar um pouco em grandes questões da ética contemporânea.

Daiane Martins Rocha
Revisão do texto de José Oliveira