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7 de Janeiro de 2018 | Filosofia da ciência

Ciência e pseudociência

Sven Ove Hansson
Tradução de Israel Vilas Bôas

A demarcação entre ciência e pseudociência faz parte da tarefa mais abrangente de determinar quais são as crenças epistemicamente justificadas. Este verbete esclarece a natureza específica da pseudociência em relação a outras categorias de doutrinas e de práticas não-científicas, inclusive a recusa da ciência e a resistência aos fatos. Os critérios de demarcação mais importantes são discutidos e algumas das suas fraquezas são expostas. Por último, enfatiza-se que há muito mais consenso sobre questões particulares de demarcação do que sobre os critérios gerais em que esses juízos devem se basear. Isso é um indício de que há muito trabalho filosófico importante por fazer sobre a demarcação entre ciência e pseudociência.

1. O propósito das demarcações

Pode-se separar a ciência da pseudociência por razões teóricas e por razões práticas (Mahner 2007, 516). De um ponto de vista teórico, a questão da demarcação é uma perspectiva esclarecedora que contribui para a filosofia da ciência da mesma maneira que o estudo das falácias contribui para o estudo da lógica informal e da argumentação racional. De um ponto de vista prático, a distinção é importante para orientar decisões, tanto na vida privada quanto na pública. Uma vez que a ciência é a nossa fonte de conhecimento mais confiável em variadíssimas áreas, precisamos distinguir o conhecimento científico das suas imitações. Dado o estatuto elevado da ciência na sociedade contemporânea, tentativas de exagerar o estatuto científico de várias afirmações, ensinamentos e produtos são suficientemente comuns para tornar o problema da demarcação premente em muitas áreas. O problema da demarcação é, assim, importante em muitas aplicações práticas como as seguintes:

Os esforços para lidar com o problema da demarcação diminuíram depois da célebre certidão de óbito que lhe foi passada por Laudan (1983), segundo a qual não há esperança de encontrar um critério necessário e suficiente para algo tão heterogêneo quanto a metodologia científica. Nos últimos anos o problema foi revitalizado. Os filósofos que atestam a sua validade sustentam que o conceito pode ser esclarecido por outros meios além da definição necessária e suficiente (Pigliucci 2013; Mahner 2013) ou que esse tipo de definição é certamente possível embora tenha de ser complementada com critérios específicos de cada disciplina para se tornar plenamente operativa (Hansson 2013).

2. A “ciência” da pseudociência

O uso mais antigo da palavra “pseudociência” data de 1796, quando o historiador James Pettit Andrew se referiu à alquimia como uma “pseudociência fantástica” (Dicionário Oxford de Inglês). Essa palavra tem sido usada com frequência desde a década de 1880 (Thurs e Numbers 2013). Durante toda a sua história, a palavra teve um significado claramente difamatório (Laudan 1983, 119; Dolby 1987, 204). Seria tão estranho alguém descrever orgulhosamente as suas próprias atividades como pseudociência como se vangloriar de serem má ciência. Uma vez que a conotação pejorativa é uma característica essencial da palavra “pseudociência”, qualquer tentativa de deslindar uma definição da palavra de uma maneira valorativamente isenta não teria qualquer significado. Um termo essencialmente valorativo tem de ser definido em termos valorativos. Isso é não raro difícil, pois a especificação do componente valorativo tende a ser controversa.

Este problema não é específico da pseudociência, antes se segue diretamente de um problema análogo, embora menos óbvio, com o conceito de ciência. O uso comum do termo “ciência” pode ser descrito como em parte descritivo e em parte normativo. Quando uma atividade é identificada como ciência, isso geralmente envolve um reconhecimento de que tem um papel positivo no nosso esforço para obter conhecimento. Por outro lado, o conceito de ciência se formou por um processo histórico e muitas contingências influenciam o que denominamos ou não “ciência”.

Em razão desse contexto, a fim de não ser complexa demais, uma definição de ciência precisa numa de duas direções. Pode se focar nos conteúdos descritivos e especificar como o termo é efetivamente usado, ou pode se focar no elemento normativo e esclarecer o significado mais fundamental do termo. O segundo enfoque tem sido a escolha da maioria dos filósofos que escrevem sobre o assunto e será o foco aqui. Envolve, necessariamente, algum grau de idealização em relação ao uso comum do termo “ciência”.

A palavra inglesa “ciência” é usada principalmente para designar as ciências naturais e outros campos de pesquisa considerados semelhantes. Destarte, a economia política e a sociologia são consideradas ciências, ao passo que os estudos de literatura e de história geralmente não o são. A palavra alemã correspondente, “Wissenschaft”, tem um significado muito mais amplo e inclui todas as especialidades acadêmicas, incluindo as humanidades. O termo alemão tem a vantagem de delimitar mais adequadamente o tipo de conhecimento sistemático que está em jogo no conflito entre ciência e pseudociência. As representações incorretas da história apresentadas por quem nega o Holocausto e por outros pseudo-historiadores são muito similares em essência às representações incorretas das ciências naturais promovidas por criacionistas e homeopatas.

Mais importante, as ciências naturais e as sociais e as humanidades são todas parte da mesma atividade humana, a saber, as investigações sistemáticas e críticas que visam adquirir o melhor entendimento possível do funcionamento da natureza, das pessoas e da sociedade humana. As disciplinas que formam essa comunidade de disciplinas do conhecimento são cada vez mais interdependentes (Hansson 2007). Desde a segunda metade do século XX, disciplinas integradas como a astrofísica, a biologia evolutiva, a bioquímica, a ecologia, a química quântica, as neurociências e a teoria dos jogos se desenvolveram a uma velocidade dramática e contribuíram para unir disciplinas previamente separadas. Essas interconexões crescentes também aproximaram as ciências das humanidades, como se pode ver no modo como o conhecimento histórico se apoia cada vez mais na análise científica avançada das descobertas arqueológicas.

O conflito entre ciência e pseudociência compreende-se melhor tendo em mente esse sentido alargado de ciência. De um lado do conflito encontramos a comunidade de disciplinas do conhecimento que inclui as ciências naturais, as sociais e as humanidades. Do outro, encontramos uma ampla diversidade de movimentos e de doutrinas, a saber, o criacionismo, a astrologia, a homeopatia e a negação do Holocausto, que estão em conflito com os resultados e os métodos geralmente aceitos na comunidade de disciplinas do conhecimento.

Outra maneira de expressar esta ideia é que o problema da demarcação tem uma preocupação mais profunda do que demarcar a seleção de atividades humanas que, por várias razões, escolhemos denominar “ciências”. O problema último é “como determinar quais as crenças que estão epistemicamente justificadas” (Fuller 1985, 331).

3. O “pseudo” de pseudociência

3.1 Não-, anti- e pseudociência

As expressões “demarcar a ciência” e “demarcar a ciência da pseudociência” são frequentemente usadas de maneira intersubstituível, e muitos autores parecem ter considerado que têm o mesmo significado. Do seu ponto de vista, a tarefa de traçar os limites externos da ciência é essencialmente o mesmo que traçar os limites entre a ciência e a pseudociência.

Esta imagem é simplista. Nem toda a não-ciência é pseudociência e a ciência tem fronteiras não-triviais que a separam de outros fenômenos não-científicos, como a metafísica, a religião e os vários tipos de conhecimento sistematizado não-científico. (Mahner (2007, 548) propôs o termo “paraciência” para abranger as práticas não-científicas que não são pseudocientíficas.) A ciência também tem o problema de demarcação interna de distinguir entre boa e má ciência.

Uma comparação dos prefixos de negação relacionados com a ciência pode contribuir para esclarecer as distinções conceituais. “Anticientífico” é um conceito mais restrito do que “não-científico“, pois o primeiro termo, mas não o segundo, implica alguma forma de contradição da ciência ou de conflito com ela. “Pseudocientífico” é, por sua vez, mais restrito do que “não-científico”. O primeiro difere do segundo porque abrange medidas incorretas inadvertidas, cálculos incorretos e outras formas de má ciência protagonizadas por cientistas que se reconhece que tentaram mas não conseguiram fazer boa ciência.

A etimologia nos dá um óbvio ponto de partida para esclarecer que características a pseudociência tem além de ser meramente não-científica ou anticientífica. “Pseudo-” (ψευδο-) significa “falso”. Em conformidade, o Dicionário Oxford de Inglês define pseudociência desta maneira:

“Uma ciência pretensa ou espúria; uma coleção de crenças inter-relacionadas sobre o mundo que equivocadamente se considera que tem base no método científico ou que tem o estatuto das verdades científicas têm”.

3.2 Não-ciência se fazendo passar por ciência

Muitos autores que escrevem sobre a pseudociência enfatizaram que a pseudociência é não-ciência se fazendo passar por ciência. O principal clássico moderno sobre o assunto (Gardner 1957) exibe o título de Modismos e Falácias em Nome da Ciência. Segundo Brian Baigrie (1988, 428), “o que é questionável nessas crenças é que se mascaram de crenças genuinamente científicas”. Esses e muitos outros autores supõem que, para ser pseudocientífica, uma atividade ou doutrina precisa de satisfazer os seguintes dois critérios (Hansson 1996):

  1. Não é científico, e
  2. Os seus principais proponentes tentam criar a impressão de que é científico.

O primeiro critério é crucial na filosofia da ciência. Foi objeto de controvérsias importantes entre os filósofos, e será discutido na Seção 4. O segundo é menos importante filosoficamente, mas não carece de um tratamento menos cuidado, pois muitas discussões sobre pseudociência (dentro e fora da filosofia) se tornaram confusas devido à insuficiente atenção que lhe foi dispensada.

3.3 O componente doutrinário

Um problema imediato com a definição baseada em 1 e 2 é ser ampla demais. Há fenômenos que satisfazem os dois critérios, mas não são normalmente denominados “pseudocientíficos”. Um dos exemplos mais claros disso é a fraude na ciência. É uma prática que tem um alto grau de pretensão científica mas que não corresponde à ciência, satisfazendo, assim, os dois critérios. Contudo, a fraude em ramos legítimos da ciência raramente, ou nunca, é denominada “pseudociência”. A razão disso pode ser esclarecida com estes exemplos hipotéticos (Hansson 1996).

Caso 1: Uma bioquímica realiza um experimento que considera que mostra que determinada proteína tem um papel essencial na contração muscular. Há um consenso entre os seus colegas de que o resultado é um mero engano que resultou de erro experimental.

Caso 2: Uma bioquímica realiza um experimento desleixado atrás do outro. Interpreta-os sistematicamente como se mostrassem que determinada proteína tem um papel na contração muscular que os outros cientistas não aceitam.

Caso 3: Uma bioquímica realiza vários experimentos desleixados em áreas diferentes. Um deles é o referido no caso 1. Muito do seu trabalho é da mesma qualidade. Não propaga nenhuma teoria não-ortodoxa.

Segundo o uso comum, considera-se 1 e 3 casos de má ciência e somente 2 um caso de pseudociência. O que está presente no caso 2, mas não nos outros, é uma doutrina desviante. Violações isoladas dos requisitos da ciência não são comumente consideradas pseudocientíficas. A pseudociência, tal como é normalmente concebida, envolve um esforço contínuo para promover doutrinas diferentes das que têm legitimidade científica no momento.

Isto explica por que razão a fraude em ciência não é normalmente considerada pseudocientífica. Essas práticas não estão em geral associadas a uma doutrina desviante ou não-ortodoxa. Pelo contrário, o cientista fraudulento está ansioso para que seus resultados estejam em conformidade com as previsões das teorias científicas estabelecidas. Desviar-se das teorias científicas estabelecidas levaria a um risco muito maior de ser descoberto.

O termo “ciência” tem simultaneamente um sentido individual e outro não-individual. No sentido individual, a bioquímica e a astronomia são ciências diferentes: a primeira estuda a contração dos músculos e a segunda estuda supernovas. O Dicionário Oxford de Inglês define esse sentido de “ciência” como “um ramo determinado de conhecimento ou de estudo; um departamento reconhecido de conhecimento”. No sentido não-individual, o estudo das proteínas dos músculos e o das supernovas são partes da “mesma” ciência. Nas palavras do Dicionário Oxford de Inglês, a ciência não-individual é “o tipo do conhecimento ou de atividade intelectual de que as várias “ciências” são exemplos”.

A pseudociência é uma antítese da ciência no sentido individual mas não no outro. Não há um corpo de pseudociência que corresponda ao da ciência. Para ser pseudocientífico, um fenômeno tem de pertencer a uma ou outra das pseudociências particulares. Para acomodar esta característica, a definição acima pode ser modificada para substituir 2 pelo seguinte (Hansson 1996):

2'. Faz parte de uma doutrina não-científica cujos principais proponentes tentam criar a impressão de que é científica.

A maioria dos filósofos da ciência e dos cientistas prefere considerar que a ciência é constituída pelos métodos de investigação e não por doutrinas particulares. Há uma tensão óbvia entre 2' e essa concepção convencional de ciência. Isto, no entanto, talvez seja assim porque a pseudociência às vezes envolve uma representação da ciência como uma doutrina fechada e acabada ao invés de uma metodologia para uma investigação em aberto.

3.4 Um sentido mais amplo de pseudociência

Por vezes, o termo “pseudociência” é usado de maneira mais ampla do que a captada pela definição constituída por 1 e 2'. Ao contrário de 2', as doutrinas que entram em conflito com a ciência são denominadas “pseudocientíficas” ainda que não sejam propostas como científicas. Destarte, Grove (1985, 219) incluiu entre as doutrinas pseudocientíficas as que “afirmam oferecer explicações alternativas às da ciência ou afirmam explicar o que a ciência não pode explicar”. Do modo semelhante, Lugg (1987, 227–228) sustentou que “as predições do clarividente são pseudocientíficas, estejam elas corretas ou não”, apesar de a maioria dos clarividentes não se declarem praticantes de ciência. Nesse sentido, supõe-se que a pseudociência inclui não somente doutrinas contrárias à ciência que se proclamam científicas, mas também doutrinas contrárias à ciência tout court, independentemente de serem apresentadas em nome da ciência. Para abranger este sentido ainda mais amplo de pseudociência, 2' pode ser modificado como se segue (Hansson 1996, 2013):

2''. Faz parte de uma doutrina cujos principais proponentes tentam criar a impressão de que representa o conhecimento mais confiável no assunto.

O uso comum parece vacilar entre as definições 1+2' e 1+2''; e de uma maneira interessante: em seus comentários sobre o significado do termo, os críticos da pseudociência tendem a endossar uma definição próxima de 1+2', mas o seu uso efetivo da palavra é frequentemente mais próximo de 1+2''.

Os seguintes exemplos servem para ilustrar a diferença entre as duas definições e também para esclarecer por que a cláusula 1 é necessária:

A. Um livro criacionista dá uma explicação correta da estrutura do ADN.

B. Um livro de química, que sob outros aspectos é confiável, dá uma explicação incorreta da estrutura do ADN.

C. Um livro criacionista nega que a espécie humana tenha ancestrais comuns com outros primatas.

D. Um pregador nega que se pode confiar na ciência nega também que a espécie humana tem ancestrais comuns com outros primatas.

A não satisfaz 1, e portanto não é pseudocientífico em nenhuma das explicações; B não satisfaz 1 nem 2' ou 2'', e portanto não é pseudocientífico em nenhuma das explicações; C satisfaz os três critérios, 1, 2' e 2'' e é, portanto, pseudocientífico em ambas as explicações. Por fim, D satisfaz 1 e 2'', sendo, portanto, pseudocientífico segundo 1+2'', mas não de segundo 1+2'. Como os dois últimos exemplos ilustram, a pseudociência e a anticiência são por vezes difíceis de distinguir. Os promotores de algumas pseudociências, notadamente a homeopatia, tendem a ser ambíguos entre a oposição à ciência e a alegação de que eles mesmos representam a melhor ciência.

3.5 Objetos de demarcação

Foram apresentadas várias propostas sobre a que elementos da ciência ou da pseudociência se deve aplicar o critério de demarcação. Entre as propostas se incluem a ideia de que o problema de demarcação deve se referir a um programa de pesquisa (Lakatos 1974a, 248–249), a um campo epistemológico ou a uma disciplina cognitiva, isto é, um grupo de pessoas com metas comuns de conhecimento, e às suas práticas (Bunge 1982, 2001; Mahner 2007), a uma teoria (Popper 1962, 1974), a uma prática (Lugg 1992; Morris 1987), a uma questão ou problema científico (Siitonen 1984), e a uma investigação particular (Kuhn 1974; Mayo 1996). É provavelmente razoável dizer que o critério de demarcação pode ser relevantemente aplicado a cada um desses níveis de descrição. Um problema muito mais difícil é se um deles será o fundamental ao qual os juízos dos outros níveis se reduzem.

Derksen (1993) difere da maioria dos outros autores que escrevem sobre o assunto porque põe a ênfase da demarcação no pseudocientista, isto é, a pessoa individual que faz pseudociência. O principal argumento a seu favor é que a pseudociência tem pretensões científicas, e que essas pretensões estão associadas a uma pessoa, e não a uma teoria nem a uma prática nem a um campo inteiro. Contudo, como Settle fez notar (1971), é a racionalidade e a atitude crítica integrada nas instituições, e não os traços intelectuais dos indivíduos, que distingue a ciência de práticas não-científicas como a magia. O praticante individual de magia numa sociedade pré-alfabetizada não é necessariamente menos racional do que o cientista individual na sociedade ocidental moderna. O que lhe falta é um ambiente intelectual de racionalidade coletiva e de crítica mútua. “É quase uma falácia da divisão insistir que cada cientista individual tem pensamento crítico” (Settle 1971, 174).

3.6 Uma demarcação temporalmente indexada

Alguns autores sustentaram que a demarcação entre a ciência e a pseudociência tem de ser atemporal. Se isto fosse verdadeiro, seria contraditório classificar uma coisa como pseudociência numa época, mas não noutra. Portanto, depois de mostrar que o criacionismo é, em alguns aspectos, similar a outras doutrinas do começo do século XVIII, um autor sustentou que “se se podia descrever essa atividade como ciência naquela época, há razão para descrevê-la como ciência agora” (Dolby 1987, 207). Este argumento baseia-se numa incompreensão básica da ciência. É uma característica essencial da ciência que se esforce pelo aprimoramento, por via dos testes empíricos, das críticas intelectuais e da exploração de novos terrenos. Uma perspectiva ou teoria não pode ser científica a menos que se relacione adequadamente com esse processo de aprimoramento, o que significa que pelo menos se aceitaram as rejeições bem fundamentadas de pontos de vista científicos anteriores. A demarcação da ciência não pode ser atemporal, pela simples razão de que a ciência não é atemporal.

Mas a mutabilidade da ciência é um dos fatores que torna difícil a demarcação entre a ciência e a pseudociência. Derkson (1993, 19) indicou corretamente três razões principais por que a demarcação é por vezes difícil: a ciência muda com o tempo, a ciência é heterogênea e a própria ciência estabelecida não está livre dos defeitos característicos da pseudociência.

4. Critérios alternativos de demarcação

As tentativas de definir o que se denomina hoje ciência têm uma história longa, e se faz por vezes remontar as raízes do problema da demarcação aos Segundos Analíticos de Aristóteles (Laudan 1983). Porém foi só no século XX que algumas definições influentes de ciência a contrastaram com a pseudociência.

4.1 Os positivistas lógicos

Por volta de 1930, os positivistas lógicos do Círculo de Viena desenvolveram várias abordagens verificacionistas da ciência. A ideia básica era que se pode distinguir entre um enunciado científico e um metafísico sendo o primeiro, pelo menos em princípio, possível de ser verificado. Esse ponto de vista estava associado à concepção de que o significado de uma proposição é o seu método de verificação (ver a seção sobre o verificacionismo no verbete Círculo de Viena). Essa proposta foi frequentemente incluída em explicações da demarcação entre ciência e pseudociência. No entanto, isto não é muito preciso historicamente, pois as propostas verificacionistas tinham o objetivo de resolver um problema da demarcação distintamente diferente, a saber, o da demarcação entre ciência e metafísica.

4.2 Falsificacionismo

Popper descreveu o problema da demarcação como a “chave para a maioria dos problemas fundamentais de filosofia da ciência” (Popper 1962, 42). Rejeitou a verificabilidade como critério para que uma teoria ou uma hipótese seja científica, em vez de pseudocientífica ou metafísica. Em vez disso, propôs como critério que a teoria seja falsificável, ou mais precisamente, que “os enunciados ou sistemas de enunciados, a fim de serem classificados como científicos, têm de ser ser suscetíveis de entrar em conflito com observações possíveis ou concebíveis” (Popper 1962, 39).

Popper apresentou esta proposta como uma maneira de traçar a linha divisória entre enunciados que pertencem às ciências empíricas e “todos os outros enunciados — sejam eles religiosos, metafísicos, sejam simplesmente pseudocientíficos” (Popper 1962, 39; cf. Popper 1974, 981). Tratava-se tanto de uma alternativa ao critério de verificação dos positivistas lógicos quanto de um critério para distinguir entre a ciência e a pseudociência. Embora Popper não tenha enfatizado a distinção, estas são, é claro, questões diferentes (Bartley 1968). Popper concedeu que os enunciados metafísicos podem estar “bem longe de serem destituídos de significado” (1974, 978–979) mas não evidenciou o mesmo acolhimento pelos enunciados pseudocientíficos.

O critério de demarcação de Popper foi criticado por excluir tanto a ciência legítima (Hansson 2006) quanto por dar a algumas pseudociências o estatuto de científicas (Agassi 1991; Mahner 2007, 518–519). Em bom rigor, o seu critério exclui a possibilidade de que possa haver uma afirmação pseudocientífica refutável. Segundo Larry Laudan (1983, 121), aquele critério “tem a consequência inadequada de aceitar como “científica” toda a afirmação estapafúrdia que contenha asserções comprovadamente falsas”. A astrologia, corretamente considerada por Popper um exemplo estranhamente claro de pseudociência, foi efetivamente testada e minuciosamente refutada (Culver and Ianna 1988; Carlson 1985). Do mesmo modo, as maiores ameaças ao estatuto científico da psicanálise, outro dos seus alvos principais, não vêm da alegação de que não é testável, mas antes de que foi testada e não passou nos testes.

Os defensores de Popper afirmaram que essa crítica se apoia numa interpretação pouco caridosa das suas ideias. Afirmam que não se deve interpretar Popper como alguém que afirma que a falsificabilidade é uma condição suficiente para demarcar a ciência. Alguns excertos parecem sugerir que ele a toma somente como condição necessária (Feleppa 1990, 142). Outros sugerem que para uma teoria ser científica Popper exige (além da falsificabilidade) que se façam tentativas vigorosas de pôr a teoria à prova e que os resultados negativos dos testes sejam aceitos (Cioffi 1985, 14–16). Um critério de demarcação baseado na falsificação que inclua esses elementos evitará os contra-argumentos mais óbvios a um critério baseado apenas em falsificabilidade.

Contudo, no que parece constituir a última formulação de sua posição, Popper declarou que a falsificabilidade é um critério simultaneamente necessário e suficiente. “Uma frase (ou teoria) é empírico-científica se, e somente se, for falsificável". Ademais, enfatizou que a falsificabilidade referida aqui “somente tem que ver com a estrutura lógica das frases e classes de frases” (Popper [1989] 1994, 82). Uma frase (teórica), diz, é falsificável se, e somente se, contradisser logicamente alguma frase (empírica) que descreve um evento logicamente possível que seria logicamente possível observar (Popper [1989] 1994, 83). Um enunciado pode ser falsificável nesse sentido, embora não seja possível falsificá-lo na prática. Pareceria seguir-se dessa interpretação que o estatuto de um enunciado como científico ou não-científico não muda com o tempo. Em ocasiões anteriores, ele parece ter interpretado a falsificabilidade de maneira diferente, sustentando que “o que era uma ideia metafísica ontem, pode se tornar uma teoria científica testável hoje; e isso ocorre com frequência” (Popper 1974, 981, cf. 984).

A falsificabilidade lógica é um critério muito mais fraco do que a falsificabilidade prática. Porém, mesmo a falsificabilidade lógica pode criar problemas em demarcações práticas. Popper a dado ponto adotou a concepção de que a seleção natural não é uma teoria científica propriamente dita, argumentando que quase se limita a dizer que os “sobreviventes sobrevivem", o que é tautológico. “O darwinismo não é uma teoria científica testável, mas antes um programa de pesquisa metafísico” (Popper 1976, 168). Esse enunciado foi criticado por cientistas da evolução, que fizeram notar que ele representa incorretamente a evolução. A teoria da seleção natural deu origem a muitas previsões que resistiram aos testes, tanto em estudos de campo quanto em laboratório (Russe 1977; 2000).

Numa palestra na Universidade de Darwin em 1977, Popper rejeitou a sua concepção prévia de que a teoria da seleção natural é tautológica. Admitiu então que é uma teoria testável, embora “difícil de testar” (Popper 1978, 344). No entanto, apesar da rejeição bem defendida, o seu ponto de vista anterior continua a ser propagado, a despeito das provas que se acumulam oriundas dos testes empíricos da seleção natural.

4.3 O critério da solução de quebra-cabeças

Thomas Kuhn é um dos muitos filósofos para quem a visão popperiana do problema da demarcação foi um ponto de partida para as suas próprias ideias. Kuhn criticava Popper por caracterizar “todo a atividade científica em termos que somente se aplicam às suas ocasionais partes revolucionárias” (Kuhn 1974, 802). O enfoque de Popper na falsificação de teorias levou a uma concentração nas raras ocasiões em que uma teoria inteira está em jogo. Segundo Kuhn, a maneira como a ciência funciona nessas ocasiões não pode ser usada para caracterizar toda a atividade científica. Em vez disso é na “ciência normal", na ciência que ocorre entre os momentos raros das revoluções científicas, que se encontram as características com as quais se pode distinguir entre a ciência e outras atividades (Kuhn 1974, 801).

Na ciência normal, a atividade do cientista consiste em resolver quebra-cabeças e não em testar teorias fundamentais. Na solução de quebra-cabeças, a teoria atual é aceita, e o quebra-cabeça é definido nos seus termos. Na perspetiva de Kuhn, “é a ciência normal, em que não ocorre o tipo de teste de Sir Karl, e não a ciência extraordinária, que quase sempre distingue a ciência de outras atividades”, e, portanto, um critério de demarcação tem de se referir ao funcionamento da ciência normal (Kuhn 1974, 802). O critério de demarcação do próprio Kuhn é a capacidade para resolver quebra-cabeças, que ele vê como a característica essencial da ciência normal.

A perspetiva de Kuhn acerca da demarcação exprime-se mais claramente na sua comparação da astronomia com a astrologia. Desde a antiguidade, a astronomia resolveu quebra-cabeças e era, portanto, uma ciência. Se a previsão de um astrônomo malograsse, então esse era um quebra-cabeças que ele poderia esperar resolver, por exemplo, com mais medições ou com ajustes da teoria. Em contraste, o astrólogo não tinha esses quebra-cabeças, pois nessa disciplina “os malogros particulares não deram origem a quebra-cabeças de pesquisa, pois ninguém, por mais habilidoso que fosse, poderia usá-los na tentativa construtiva de revisar a tradição astrológica” (Kuhn 1974, 804). Portanto, segundo Kuhn, a astrologia nunca foi uma ciência.

Popper desaprovou completamente o critério de demarcação de Kuhn. Segundo Popper, os astrólogos estão empenhados na solução de quebra-cabeças e, consequentemente, o critério de Kuhn o compromete a reconhecer a astrologia como uma ciência. (Ao contrário de Kuhn, Popper definiu quebra-cabeças como “problemas menores que não afetam a rotina”.) A seu ver, a proposta de Kuhn leva ao “grande desastre” da “substituição do critério racional pelo critério sociológico” (Popper 1974, 1146–1147).

4.4 Critérios baseados no progresso científico

O critério de demarcação de Popper diz respeito à estrutura lógica das teorias. Imre Lakatos descreveu esse critério como “bastante espantoso. Uma teoria pode ser científica mesmo que não haja qualquer prova em seu favor, e pode ser pseudocientífica ainda que todas as provas estejam em seu favor. Isto é, o caráter científico ou não-científico de uma teoria pode ser determinado independentemente dos fatos” (Lakatos 1981, 117).

Como alternativa, Lakatos (1970; 1974a; 1974b; 1981) propôs uma modificação do critério de Popper, a que chamou “falsificacionismo (metodológico) sofisticado". Nesta concepção, o critério de demarcação não deve ser aplicado a uma hipótese ou a uma teoria isoladas, mas, em vez disso, a um programa de pesquisa completo, caracterizado por uma série de teorias que sucessivamente se substituem entre si. A seu ver, um programa de pesquisa é progressivo se as novas teorias fizerem previsões surpreendentes que são confirmadas. Ao contrário, um programa de pesquisa degenerativo é caracterizado por teorias que são fabricadas apenas para acomodar fatos conhecidos. O progresso na ciência somente é possível se um programa de pesquisa satisfaz o requisito mínimo de cada nova teoria desenvolvida no programa ter um conteúdo empírico maior do que tinha a sua predecessora. Se um programa de pesquisa não satisfaz esse requisito, é pseudocientífico.

Segundo Paul Thagard, uma teoria ou uma disciplina é pseudocientífica se satisfizer dois critérios. Um é que a teoria não progrida e o outro é que “a comunidade de praticantes não se esforce por desenvolver a teoria rumo à solução dos problemas, que não mostre qualquer preocupação com tentativas de avaliar a teoria relativamente a outras e ser seletiva ao considerar as confirmações e as desconfirmações” (Thagard 1978, 228). Uma grande diferença entre o seu método e o de Lakatos é que o último classificaria uma disciplina não-progressiva como pseudocientífica ainda que os seus praticantes trabalhassem duramente para melhorá-la e para transformá-la numa disciplina progressiva.

Numa tendência algo semelhante, Daniel Rothbart (1990) sublinha a distinção entre padrões usados quando se testa uma teoria e os que são usados ao determinar quando uma teoria deve de todo ser testada. O último, o critério de elegibilidade, inclui que a teoria deve integrar o sucesso explicativo da sua rival e produzir implicações testáveis inconsistentes com as da rival. Segundo Rothbart, uma teoria não é científica se não for digna de teste nesse sentido.

George Reisch propôs que a demarcação poderia se basear na exigência de que uma disciplina científica seja adequadamente integrada nas outras ciências. As várias disciplinas científicas têm interconexões fortes que são baseadas na metodologia, na teoria, na semelhança entre modelos etc. O criacionismo, por exemplo, não é científico porque os seus princípios básicos são incompatíveis com os que conectam e unificam as ciências. Falando mais em geral, diz Reisch, um campo epistêmico é pseudocientífico se não pode ser incorporado na rede de ciências estabelecidas já existentes (Reisch 1998; cf. Bunge 1982, 379).

4.5 Normas epistêmicas

Uma perspectiva diferente, a saber, basear o critério de demarcação na base valorativa da ciência, foi proposta pelo sociólogo Robert K. Merton ([1942] 1973). Segundo ele, a ciência é caracterizada por um “ethos”, isto é, um espírito, que pode ser resumido por quatro conjuntos de imperativos institucionais. O primeiro, universalismo, assere que independentemente das suas origens, as asserções devem ser submetidas a critérios impessoais preestabelecidos. Isso implica que a aceitação ou a rejeição de afirmações não deve depender das qualidades pessoais ou sociais de seus protagonistas.

O segundo imperativo, comunismo, diz que as descobertas substanciais da ciência são produtos da colaboração social, e pertencem, destarte, à comunidade e não a grupos ou indivíduos. Isso é incompatível, como Merton fez notar, com patentes que reservam direitos exclusivos de uso aos inventores e descobridores. O termo “comunismo” é um pouco infeliz; “comunalidade” provavelmente capta melhor o que Merton tinha em vista.

Seu terceiro imperativo, imparcialidade, impõe um padrão de controlo institucional que visa a refrear os efeitos dos motivos pessoais ou ideológicos que os cientistas individuais possam ter. O quarto imperativo, ceticismo organizado, sugere que a ciência permite o escrutínio imparcial de crenças caras a outras instituições e por estas sustentadas. É isso que por vezes faz a ciência se envolver em conflitos com religiões e com outras ideologias.

Merton considerou que esses critérios pertencem à sociologia da ciência, e que são, portanto, enunciados empíricos sobre normas na ciência efetiva em vez de enunciados normativos sobre como a ciência deve ser conduzida (Merton [1942] 1973, 268). Os seus critérios foram frequentemente rejeitados por serem simplistas por alguns sociólogos, e foram pouco influentes em discussões filosóficas sobre o problema da demarcação (Dolby 1987; Ruse 2000). O seu potencial no contexto filosófico não parece ter sido suficientemente explorado.

4.6 Perspectivas com múltiplos critérios

O método de demarcação de Popper consiste essencialmente no critério único de falsificabilidade (embora alguns autores o quisessem combinar com os critérios adicionais de que sejam efetivamente realizados testes e os seus resultados respeitados; cf. seção 4.2). A maioria dos outros critérios discutidos acima são, analogamente, de critério único, sendo a proposta de Merton a principal exceção.

A maioria dos autores que propuseram critérios de demarcação apresentaram, em vez disso, uma lista de critérios. Foi publicado um grande número de listas de critérios (geralmente 5–10) que podem ser usados conjuntamente para identificar uma pseudociência ou uma prática pseudocientífica. Esse número inclui listas de Langmuir ([1953] 1989), Gruenberger (1964), Dutch (1982), Bunge (1982), Radner e Radner (1982), Kitcher (1982, 30–54), Hansson (1983), Grove (1985), Thagard (1988), Glymour e Stalker (1990), Derkson (1993, 2001), Vollmer (1993), Ruse (1996, 300–306) e Mahner (2007). Muitos dos critérios que aparecem nessas listas se relacionam estreitamente aos critérios discutidos acima nas seções 4.2 e 4.4. Uma dessas listas é a seguinte:

  1. Crença na autoridade: Sustenta-se que uma pessoa ou algumas pessoas têm uma habilidade especial para determinar o que é verdadeiro e o que é falso. Os outros devem aceitar os seus juízos.
  2. Experimentos irrepetíveis: Dá-se crédito a experimentos que não podem ser repetidos por outros com o mesmo resultado.
  3. Exemplos escolhidos a dedo: usa-se exemplos escolhidos a dedo embora não sejam representativos da categoria geral a que a investigação se refere.
  4. Resistência ao teste: uma teoria não é testada embora seja possível testá-la.
  5. Desconsideração de informação refutadora: Observações ou experimentos que entram em conflito com uma teoria são ignorados.
  6. Subterfúgios inerentes: o teste de uma teoria é organizado de modo a que a teoria só possa ser confirmada, mas nunca desconfirmada, pelo resultado.
  7. Abandona-se explicações sem que sejam substituídas: desiste-se de explicações defensáveis, de modo que a teoria nova deixa muito mais por explicar do que a anterior (Hansson 1983).

Alguns dos autores que propuseram demarcações de critério múltiplo defenderam que essa perspectiva é superior a toda a demarcação de critério único. Destarte, Bunge (1982, 372) asseriu que muitos filósofos não forneceram uma definição adequada de ciência porque pressupuseram que um atributo único seria suficiente; a seu ver, a combinação de diversos critérios é necessária. Dupré (1993, 242) propôs que se entende melhor a ciência como um conceito wittgensteiniano de semelhança de família. Isso significaria que há um conjunto de características da ciência, mas, embora cada parte da ciência tenha algumas, não podemos esperar de nenhuma parte que as tenha todas.

Contudo, uma definição de critério múltiplo de ciência não é necessária para justificar uma explicação de critério múltiplo do modo como a pseudociência se afasta da ciência. Ainda que a ciência possa ser caracterizada por uma única característica definidora, diferentes práticas pseudocientíficas podem se afastar da ciência de maneiras amplamente divergentes. Assim, a supracitada caracterização de pseudociência em sete itens foi proposta como representação de sete maneiras comuns de se afastar de um critério mínimo de ciência (necessário, mas não suficiente), a saber: a ciência é uma busca sistemática pelo conhecimento cuja validade não depende do indivíduo particular, antes estando aberta a que pessoa verifique ou redescubra.

5. Alguns termos relacionados

Deu-se muitos nomes às pseudociências, com conotações que variam do desprezo ao louvor. Há três termos usados com frequência hoje, a saber, “negação da ciência”, “ceticismo” e “resistência aos fatos”.

5.1 Negação da ciência

Algumas formas de pseudociência têm como objetivo a promoção de uma teoria própria, enquanto outras são impulsionadas pelo desejo de combater alguma teoria científica ou ramo da ciência. A primeira pode ser chamada promoção de pseudoteoria e a segunda negação da ciência. A promoção de pseudoteoria pode ser exemplificada pela homeopatia, pela astrologia e pelas teorias sobre astronautas antigos. O termo “negação” foi usado pela primeira vez acerca da afirmação pseudocientífica de que o Holocausto nazista nunca ocorreu. A expressão “negação do Holocausto” foi usada logo no início da década de 1980 (Gleberzon 1983). O termo “negação das mudanças climáticas” se tornou comum por volta de 2005 (por exemplo, Williams 2005). Outras formas de negação da ciência são a negação da teoria da relatividade, a negação das doenças provocadas pelo tabaco, a negação do HIV e a negação da vacinação.

Muitas formas de pseudociência combinam a promoção de pseudoteoria com a negação da ciência. Por exemplo, o criacionismo e a sua versão atenuada, o “desígnio inteligente", são construídas para sustentar uma interpretação fundamentalista do Gênesis. Contudo, da maneira como é praticado hoje, o criacionismo centra-se fortemente no repúdio da teoria da evolução e é, portanto, predominantemente uma forma de negação da ciência.

A negação da ciência geralmente procede pela invenção de falsas controvérsias, isto é, afirmações de que há uma controvérsia científica quando, na verdade, não há. Essa é uma estratégia antiga, usada já na década de 1930 por quem negava a teoria da relatividade (Wazeck 2009, 268–269). Foi muito usada por quem negava as doenças provocadas pelo tabaco, patrocinados pela indústria tabagista (Oreskes e Conway 2010; Dunlap e Jacques 2013), e hoje é usada com sucesso considerável por quem nega as mudanças climáticas (Boykoff e Boykoff 2004; Boykoff 2008). Contudo, ao passo que a invenção de controvérsias falsas é um instrumento comum na negação da ciência, nunca ou quase nunca é usada na promoção de pseudoteoria. Pelo contrário, os defensores de pseudociências como a astrologia e a homeopatia tendem a dizer que as suas teorias estão em conformidade com a ciência atual.

5.2 Ceticismo

O termo “ceticismo” tem pelo menos três usos distintos que são relevantes para a discussão sobre pseudociência. Primeiro, o ceticismo é um método filosófico cujo procedimento é pôr em dúvida afirmações consideradas trivialmente verdadeiras, como a existência do mundo exterior. Esse foi e ainda é um método muito útil para investigar a justificação de crenças supostamente corretas. Segundo, as críticas da pseudociência são amiúde denominadas “ceticismo”. Esse termo é mais comumente usado por organizações dedicadas a desmascarar a pseudociência. Terceiro, a oposição ao consenso científico em áreas específicas é por vezes denominada “ceticismo”. Por exemplo, quem nega a ciência climática é amiúde denominado “cético climático".

Para evitar a confusão, a primeira dessas noções pode ser especificada como “ceticismo filosófico“, a segunda, como “defesa da ciência” e a terceira, como “negação da ciência”. Adeptos das duas primeiras formas de ceticismo podem ser denominados “céticos filosóficos” e “defensores da ciência“, respectivamente. Adeptos da terceira podem ser denominados “negadores da ciência”. Torcello (2016) propôs o termo “pseudoceticismo” para o chamado ceticismo climático.

5.3 Resistência aos fatos

A relutância em aceitar afirmações factuais fortemente sustentadas é um critério tradicional da pseudociência. (Ver, por exemplo, o item 5 na lista de sete critérios citada na seção 4.6). A expressão “resistência aos fatos” já era usada na década de 1990, por exemplo, por Arthur Krystal (1999, p. 8), que reclamou de uma “resistência crescente aos fatos", a qual consiste nas pessoas serem “simplesmente impenitentes sobre não saberem o que não reflete os seus interesses”. A expressão “resistência aos fatos” pode se referir à relutância em aceitar afirmações fatuais bem sustentadas, independentemente de a sustentação vir da ciência.

6. Unidade na diversidade

Kuhn observou que embora o seu próprio critério de demarcação e o de Popper sejam profundamente diferentes, conduzem essencialmente às mesmas conclusões sobre o que deve contar respectivamente como ciência e pseudociência (Kuhn 1974, 803). Essa convergência entre critérios de demarcação distintos é um fenômeno muito geral. Os filósofos e outros teóricos da ciência diferem amplamente em suas concepções acerca do que é a ciência. No entanto, há uma unanimidade virtual na comunidade de disciplinas do conhecimento quanto à maioria das questões particulares da demarcação. Há concordância generalizada, por exemplo, de que o criacionismo, a astrologia, a homeopatia, bioeletrografia, rabdomancia, ufologia, teoria dos astronautas antigos, negação do Holocausto, catastrofismo velikovskiano e negação do aquecimento global são pseudociências. Há alguns aspectos controversos, por exemplo, a respeito do estatuto da psicanálise freudiana, mas o quadro geral é de consenso, e não de controvérsia, nas questões particulares da demarcação.

Num certo sentido, é paradoxal que tanto consenso tenha sido alcançado nas questões particulares apesar do dissenso quase completo acerca do critério geral em que esses juízos se deveriam presumidamente basear. Esse enigma é um sinal inequívoco de que ainda há muito trabalho filosófico a ser feito na demarcação entre ciência e pseudociência.

A reflexão filosófica sobre a pseudociência fez sobressair outras áreas problemáticas interessantes além da demarcação entre ciência e pseudociência. Os exemplos incluem demarcações relacionadas, como a demarcação entre ciência e religião, a relação entre ciência e conhecimento não-científico confiável (por exemplo, conhecimento quotidiano), o escopo de simplificações justificáveis na educação científica e na ciência popular, a natureza e a justificação do naturalismo metodológico na ciência (Boudry et al 2010), e o sentido ou a falta de sentido no conceito de fenômeno sobrenatural. Muitas dessas áreas problemáticas não receberam ainda muita atenção filosófica.

Sven Ove Hansson
Publicado originalmente na Stanford Encyclopedia of Philosophy (versão de 11 de Abril de 2017). Revisão de Vítor Guerreiro e Desidério Murcho.

Bibliografia

Obras citadas

Bibliografia filosoficamente informada sobre as pseudociências e doutrinas contestadas

Antroposofia

Astrologia

Ciência climática e negacionismo

Criacionismo

Parapsicologia

Psicanálise

Charlatanismo e medicina não-científica

Reincarnação