24 de Fevereiro de 2026   Filosofia da ciência

Francis Bacon

J. R. Milton
Tradução de Desidério Murcho

Juntamente com Descartes, Bacon (1561–1626) foi o mais original e profundo dos reformadores intelectuais dos séculos XVI e XVII. Não tinha grande respeito pela obra dos seus predecessores, que considerava ter sido viciada por uma reverência deslocada pela autoridade, e uma consequente negligência da experiência. O sonho de Bacon era o poder sobre a natureza, baseado na experimentação, ao qual instituições apropriadas dariam corpo, e que seria usado para melhorar a vida humana; isto só poderia conseguir-se se as especulações racionais dos filósofos se aliassem às competências operativas das artes práticas.

A via para o sucesso estava num novo método, baseado não na lógica dedutiva, nem na matemática, mas na indução eliminativista. Este método apoiar-se-ia em dados extraídos de histórias naturais abrangentes e elaboradamente construídas. Ao contrário da velha indução por simples enumeração dos manuais de lógica, seria capaz de usar casos negativos e não apenas positivos, permitindo estabelecer conclusões com certeza, dando assim origem à construção de uma estrutura de conhecimento firme e duradoura.

Bacon nunca completou o seu projecto, e mesmo a apresentação do novo método em Novum Organum (1620) ficou por concluir. Contudo, os seus escritos tiveram uma influência imensa em pensadores posteriores do século XVII, estimulando acima de tudo a crença de que a filosofia natural devia fundar-se num programa sistemático de experimentação. Contudo, talvez o seu legado mais duradouro tenha sido a concepção moderna de tecnologia — a união entre teoria racional e prática empírica — e a sua aplicação ao bem-estar humano.

1. Vida

Francis Bacon nasceu na elite política da Inglaterra isabelina. O pai, Nicholas, era Lorde Guardião do Grande Selo; a mãe, Anne, era cunhada do Lorde Burghley, o Tesoureiro-Mor da Coroa. Grande parte da carreira de Bacon, e até de alguns aspectos da sua filosofia, compreendem-se melhor se nos dermos conta de que resultaram de uma educação que lhe deu familiaridade com o exercício do poder, e com a riqueza associada. A sua perspectiva foi sempre a de alguém que pertence ao círculo íntimo do poder, mas que teve bastante dificuldade em estabelecer a sua própria posição.

Em 1573, Bacon foi admitido no Trinity College de Cambridge. Pelo menos nas suas memórias posteriores, pouco encontrou de admirável na filosofia aristotélica que lhe apresentaram, e ainda menos nos escritos de autores como Pedro Ramos, que estavam a tornar-se as alternativas da moda. Como era habitual com os alunos de graduação da sua classe social, não obteve um grau académico. Em 1576, regressou a Londres para se formar como advogado de contencioso em Gray’s Inn, uma instituição com a qual haveria de manter uma ligação muito mais persistente. O pai morreu-lhe em 1579, deixando uma herança que não era mais que modesta. Ao longo da vida, Bacon gastou dinheiro à vontade e viveu para lá do que ganhava; grande parte da sua tentativa de obter cargos oficiais, além de resultar da sua considerável ambição pessoal, pode ser vista como uma tentativa de responder às suas dívidas crónicas.

Apesar de ter sido eleito para parlamentos sucessivos, a partir de 1581, a carreira de Bacon não floresceu com a rainha Isabel, que reconhecia as suas capacidades, mas parece ter considerado que a sua personalidade não era atraente. Burghley preocupava-se mais em fazer avançar a carreira do filho, Robert, mais tarde Conde de Salisbury, e Bacon ligou-se ao menos favorito de Isabel, o brilhante mas superficial Conde de Essex. A tentativa de Essex em 1601 para restaurar a sua fortuna promovendo uma insurreição revelou-se um completo fiasco, e permitiu que fosse acusado de traição. Bacon mudou astuciosamente de partido, e acusou o ex-patrono com uma habilidade e vigor que confirmaram mais que suficientemente tanto os seus talentos notáveis como a sua frieza fundamental de carácter.

A ascensão de Jaime I em 1603 trouxe a perspectiva de avanço profissional — que inicialmente não se realizou. Bacon foi ordenado cavaleiro pouco depois de o rei chegar a Londres, mas teve de esperar até 1607 até lhe ser dado o primeiro cargo importante: procurador-geral adjunto. Foi só depois da morte de Salisbury em 1612 que a promoção se tornou verdadeiramente rápida: em 1613 foi nomeado procurador-geral, em 1617 Lorde Guardião do Grande Selo, e em 1618 Lorde Chanceler. Este último cargo deu-lhe entrada na nobreza, primeiro como Barão de Verulam (1618) e depois como Visconde de St. Albans (1621).

A queda de Bacon foi precipitada e catastrófica, mas não inteiramente imprevisível. Complementava o rendimento que recebia pelo cargo aceitando pagamento daqueles em cujos casos trabalhava, e apesar de isto estar longe de não ter precedentes, deixou-o aberto a ataques. Era também suficientemente importante para constituir um sacrifício substancial para uma irada Câmara dos Comuns, sem que fosse tão próximo de Jaime que não pudesse ser dispensado. No início de Maio de 1621, Bacon foi privado do seu cargo, preso na Torre de Londres — ainda que só por alguns dias —, multado em 40 mil libras, banido dos tribunais e impedido de assumir o seu lugar na Câmara dos Lordes.

Apesar dos seus melhores esforços, Bacon nunca voltou a cair nas boas graças. Passou os últimos cinco anos afastado, escrevendo incessantemente — de início, com a esperança de conseguir reaver o seu cargo, ou pelo menos alguma influência, e depois apenas para deixar um testamento à posteridade. Segundo John Aubrey (que obteve a história de Hobbes), morreu no Domingo de Páscoa de 1626, de uma constipação que apanhou depois de fazer uma experiência que consistia em encher um frango com neve. Como se observou amiúde, foi um fim apropriado a um defensor tão fervoroso da ciência experimental.

2. Obras

Durante as primeiras duas décadas da sua vida de adulto, Bacon pouco escreveu, ou pelo menos poucas obras chegaram até nós; contudo, foi neste período que o seu ponto de vista e as suas ideias básicas se formaram — em inícios da década de 1590, certamente, e provavelmente antes disso. Em 1625, Bacon mencionou a um correspondente que há quarenta anos advogara a reforma do conhecimento numa obra (agora perdida) intitulada Temporis Partus Maximus (O maior parto do tempo). A direcção dos interesses de Bacon é visível numa carta de 1592, endereçada ao Lorde Burghley, na qual (algo dissimuladamente) rejeitava qualquer ambição política, ao mesmo tempo que indicava o âmbito dos seus projectos intelectuais:

Confesso que tenho propósitos contemplativos tão vastos como moderados são os meus propósitos civis: pois fiz de todo o conhecimento o meu domínio; e se conseguir expurgá-lo de dois tipos de salteadores que tanto o devastaram — um deles formado pelas discussões frívolas, refutações e verbosidades, e o outro pelas experiências cegas e pelas tradições e imposturas que correm de boca em boca — espero poder nele fazer entrar observações laboriosas, conclusões fundadas e invenções e descobertas proveitosas; sendo esse o melhor estado desse domínio. (1857–1874 VIII: 109)

Estes temas, desenvolvidos e articulados, dominaram o espírito de Bacon durante toda a vida. Contudo, nenhum eco deles surgiu em forma impressa durante vários anos. À parte alguns tratados políticos, o único dos escritos de Bacon publicado durante o reinado de Isabel foi a primeira edição de Ensaios (1597); a única parte deste volume com alguma importância filosófica é um pequeno tratado sobre “As Cores do Bem e do Mal”, que oferece algumas dos primeiros sinais do interesse que Bacon teve ao longo de toda a vida nas falácias e patologias do intelecto.

A ascensão de Jaime I estimulou uma nova explosão de actividade literária, cujo resultado mais visível foi O Progresso do Conhecimento (1605), obra dedicada ao rei e evidentemente redigida na esperança (que não foi realizada) de conseguir um apoio real generoso. Este não foi o único projecto a ocupar a atenção de Bacon durante os primeiros anos do novo reinado. Chegou-nos um grande número de tratados fragmentários, alguns em inglês, outros em latim. Muitos têm títulos estranhos e enigmáticos: Temporis Partus Masculus (O nascimento masculino do tempo), Valerius Terminus da Interpretação da Natureza, com as Anotações de Hermes Stella, Filum Labyrinthi (O fio do labirinto). Outros são mais prosaicos: Redargutio Philosophiarum (A refutação de filosofias), Cogitata et Visa de Interpretatione Naturae (Ideias e conclusões sobre a interpretação da natureza). A diversidade da forma literária que estas obras exibem é tão notável como a unidade da sua mensagem: Bacon sabia, pelo menos nos seus contornos gerais, o que queria dizer, mas não se tinha decidido ainda quanto à forma mais apropriada de dizê-lo.

O último destes fragmentos data provavelmente de cerca de 1608. Nos doze anos seguintes, Bacon ocupou-se cada vez mais das suas tarefas oficiais, e grande parte do tempo que sobrava era passado a esboçar uma vez e outra o Novum Organum. Conseguiu ter tempo, contudo, para publicar uma segunda edição alargada dos Ensaios (1612) e uma nova obra, De Sapientia Veterum (Da sapiência dos antigos) (1609), uma interpretação de mitos antigos como alegorias de doutrinas políticas e físicas. O mesmo padrão mental encontra-se no inédito De Principiis atque Originibus (Sobre princípios e origens) (c. 1610–1612?), que revela também a influência considerável de Bernardino Telésio nas doutrinas físicas de Bacon, como acontece com duas outras obras redigidas por volta de 1612, Descriptio Globi Intellectualis (Descrição do globo intelectual) e Thema Coeli (Teoria dos céus), ambas incompletas e inéditas.

A primeira parte da obra principal de Bacon, a A Grande Instauração, foi finalmente publicada com a magnificência apropriada em 1620, quando Bacon estava no pináculo do sucesso. A obra completa deveria incluir seis partes, mas tudo o que viu a luz do dia foi um prefácio geral, um esboço do projecto como um todo (a Distributio Operis), uma secção incompleta da segunda parte (o Novum Organum), e um breve Parasceve ad Historiam Naturalem et Experimentalem (Preparação para uma história natural e experimental).

Nos anos seguintes, Bacon deu alguns passos para colmatar as lacunas do seu plano original. A primeira parte em falta foi fornecida em 1623 com De Dignitate et Augmentis Scientarum, uma tradução revista e muito aumentada de O Progresso do Conhecimento. Apesar da sua óbvia incompletude, nada acrescentou ao Novum Organum; a maior parte dos esforços de Bacon concentraram-se nas histórias naturais que pretendiam completar a Parte III, que com bastante optimismo Bacon planeara produzir ao ritmo de uma por mês. Acabou afinal por publicar apenas duas antes de morrer: sobre os ventos (Historia Ventorum, 1622) e sobre a vida e a morte (Historia Vitae et Mortis, 1623), apesar de uma obra sobre a condensação e a rarefacção dos materiais (Historia Densi et Rari) ter ficado também completa em 1623. Os executores de Bacon ignoraram-na — acabou por aparecer em 1658 — mas publicaram Sylva Sylvarum (1627), uma história natural em inglês repleta de materiais muito dúbios, que se revelou popular até ao fim desse século, o que deu boas munições aos detractores de Bacon do século XIX.

As três últimas partes de Instauratio Magna nunca foram redigidas, para lá de breves prefácios às partes IV e V (Obras II: 687–692). Destas, a primeira, Escada do Intelecto, deveria incluir exemplos reais do novo método em acção — algo mais próximo do ideal do que os parcos esboços fornecidos no Novum Organum. A Parte V, Antecedentes, ou Antecipações da Filosofia Segunda, exibiria, em contraste, as descobertas feitas independentemente do método, pelo funcionamento comum do entendimento. Quanto ao conteúdo da última parte, Filosofia Segunda, ou Ciência Activa, não se pode senão conjecturar; é de suspeitar que o próprio Bacon não teria uma ideia muito precisa do que iria incluir.

Talvez a melhor imagem da visão final de Bacon se encontre numa obra de um tipo muito diferente, publicada no volume que inclui Sylva Sylvarum, mas cuja data é incerta. A Nova Atlântida é um relato de uma viagem imaginária a uma ilha do Oceano Pacífico, e da instituição científica, a Casa de Salomão, que aí se encontrava. Como a maior parte das narrativas utópicas, é profundamente reveladora do seu autor e oferece a imagem mais completa que temos da visão de Bacon de uma ciência reformada e activa, e do tipo de instituição que considerava necessária para o seu florescimento. Teve também uma profunda influência tanto no baconianismo milenarista de finais da década de 1640, como nos fundadores e nas primeiras práticas da Royal Society.

A divisão do conhecimento

O Progresso do Conhecimento inclui dois livros, o primeiro sobre a dignidade do conhecimento e as razões do descrédito com que é frequentemente encarado, e o segundo, muito mais longo, sobre a classificação dos seus vários ramos; na tradução de 1623, este último foi ainda mais expandido, e dividido em oito livros.

A divisão principal dos ramos do conhecimento reflecte as faculdades do espírito humano: a história corresponde à memória, a poesia à imaginação, a filosofia à razão. A própria filosofia tem três subdivisões: filosofia divina ou teologia natural, filosofia natural, e filosofia humana (incluindo esta última a doutrina da alma, lógica, retórica, ética e política). A metafísica é um ramo da filosofia natural, ocupando-se das causas formais e finais, em contraste com a física, que estuda as causas materiais e eficientes. A metafísica é uma disciplina mais geral e abstracta do que a física, e assenta nela, tal como a física por seu lado assenta numa base de história natural. A imagem é a de uma pirâmide cujo vértice é a lei primeira da natureza, conhecida por Deus, mas talvez para lá dos limites da investigação humana.

Na contramão, Bacon distinguiu a metafísica da philosophia prima — a filosofia primeira. As três subdivisões principais da filosofia não são como linhas que se encontram num dado ponto, mas antes como ramos de uma árvore que se juntam a um tronco comum. Talvez as metáforas arbóreas deste género façam lembrar a imagem cartesiana da ciência, na qual o tronco da física emerge e é sustentado pelas raízes de um sistema metafísico a priori, mas a realidade é muitíssimo diferente. A philosophia prima de Bacon é um mero receptáculo de seja qual for a miscelânea de princípios que tiverem aplicação em várias disciplinas diferentes — por exemplo, que a força de um agente aumenta com a reacção de um contrário, regra com aplicação tanto na física como na política.

A inovação mais importante de Bacon, contudo, foi propor uma ligação íntima entre disciplinas teóricas e as práticas. Na tradição aristotélica, estas mantinham-se bastante apartadas, mas agora (pelo menos no seio da filosofia natural), cada disciplina especulativa tinha a sua homóloga operativa: à física corresponderia a mecânica; à metafísica, a magia natural. Bacon não tinha dúvidas quanto à fraude constante da tradição da magia, mas — como no caso paralelo da astrologia — procurava introduzir reformas, e não a abolição.

Esta associação íntima da teoria com a prática era da maior importância: Bacon considerava que a terrível falta de resultados da filosofia natural anterior resultava em grande parte do seu divórcio. O progresso conseguido por quem praticava as artes aplicadas tinha sido obtido de maneira puramente empírica, sem qualquer método, ao passo que os filósofos — em especial, ainda que não em exclusivo, os escolásticos das universidades — tinham desprezado a experiência e, como aranhas, teceram teias metafísicas das suas entranhas. A única esperança de progresso estava na união das duas abordagens.

4. A nova lógica

O Novum Organum tem tido muito menos leitores do que tanto os Ensaios como O Progresso do Conhecimento, em parte devido ao tema mais difícil, e em parte porque foi escrito em latim; contudo, é o feito mais notável de Bacon, e aquele que ele próprio tinha em maior consideração. Deu-lhe muito trabalho — William Rawley, o seu capelão, afirmou ter visto não menos de uma dúzia de rascunhos revistos ano após ano, na década anterior à publicação. A forma escolhida de Bacon é o aforismo: de início, são aforismos breves e muito sintéticos, mas à medida que a obra avança ficam mais longos. No segundo livro, que é claro ter sido menos cuidadosamente revisto, o domínio de Bacon esmorece e depois perde-se por completo, sendo a forma aforística abandonada, excepto superficialmente.

Como o título evidencia, o Novum Organum pretendia ser a apresentação de uma nova lógica, concebida para substituir a silogística aristotélica, que Bacon considerava que tinha dificultado e, na verdade, corrompido, a investigação da natureza. A completa exposição deste aspecto encontra-se no Livro II; o Livro I inclui um levantamento dessa tarefa e das suas dificuldades.

Os temas básicos do Novum Organum são estabelecidos nos primeiros três aforismos:

Sendo o homem servo e intérprete da natureza, só pode fazer e compreender […] o que observou, de facto ou na imaginação, da ordem da natureza: para lá disto, nem sabe nem pode fazer seja o que for.

Nem a mão só por si nem o entendimento entregue a si próprio podem fazer grande coisa. É com instrumentos e auxílios que o trabalho se faz, que são tão necessários para o entendimento como para a mão. E tal como os instrumentos da mão imprimem movimento ou guiam, também os instrumentos do espírito fornecem sugestões ou advertências ao entendimento.

O conhecimento e o poder humanos convergem num mesmo ponto, pois onde a causa não é conhecida, não se consegue provocar o efeito. Para dominar a natureza é preciso obedecer-lhe; e aquilo que em contemplação é como se fosse a causa, é em operação como se fosse a regra. (Bacon 1620: I.1-3)

A filosofia natural precisa de começar com a observação. Apesar de Bacon se distanciar fortemente daqueles que classifica como “empíricos”, aquilo a que neles objecta é a sua falta de método e o consequente recurso à experimentação assistemática, e não propriamente o facto de se apoiarem na experiência. O método é absolutamente essencial: a experimentação que não seja metódica não é senão andar às apalpadelas na escuridão, e não é mais provável que produza resultados do que cavar à procura de tesouros escondidos numa base puramente aleatória.

É uma característica essencial do novo método que possa ser abertamente descrito, explicado e ensinado. A nova ciência reformada é vista como uma actividade essencialmente colectiva; apesar de pressupor indubitavelmente um certo mínimo de inteligência nos seus executantes, essa actividade não exige o aparecimento do génio individual, e consequentemente não depende dele:

Porém, o percurso que proponho para a descoberta das ciências é tal que pouco deixa à subtileza e à força do engenho, pondo ao invés todo o engenho e entendimento quase ao mesmo nível. Pois tal como ao desenhar uma linha recta ou um círculo perfeito, muito depende de mão firme e com prática, se isso se fizer só à mão, mas pouco ou nada disso depende com a ajuda de uma régua ou compasso, o mesmo exactamente acontece no meu plano. (Bacon 1620: I.61)

Consequentemente, nada há de intuicionista na abordagem de Bacon, nada que se pareça à dependência cartesiana das ideias claras e distintas. Bacon desconfiava de qualquer apelo ao supostamente auto-evidente no início de qualquer investigação. A validação só podia ser retrospectiva: era a capacidade de uma teoria para dar a quem a sustentava domínio sobre a natureza que fornecia a melhor prova da sua verdade — a única prova que era afinal genuinamente satisfatória.

As tentativas anteriores de descoberta tinham fracassado porque os homens tinham pressuposto com complacência que o espírito já estava adequadamente equipado para essa tarefa, ou então tinham desistido por completo. A natureza é compreensível, mas a sua subtileza excede em muito o espírito humano. Para se conseguir seja o que for, é preciso passar a usar uma nova lógica, baseada não na antecipação, mas na interpretação da natureza.

Este contraste entre antecipação e interpretação é central na concepção que Bacon tinha do seu projecto. As antecipações não são hipóteses, mas antes “as compilações voluntárias que o espírito faz do conhecimento; que são reflexos de cada qual” (c. 1603; 1857–1874, III: 244). A ideia principal é a superficialidade: estas são as noções da “física popular” — conceitos populares da linguagem comum, tal como surgem na conduta comum da vida, que por vezes os labores dos filósofos burilam e tornam mais abstractos, mas que não alteram fundamentalmente. “Não há razão mais forte ou verdadeira que explica por que a filosofia que temos é um deserto de efeitos, senão esta: agarrou-se à subtileza das palavras e noções vulgares [vulgarium], e não tentou seguir nem investigar a subtileza da natureza” (c. 1607; 1857–1874 V: 421).

Foi a muito disseminada ausência de solidez dos conceitos usados que tornaram a velha lógica inútil como instrumento para a investigação da natureza. Os silogismos que incluem termos confusos e mal abstraídos limitam-se a propagar o erro sem fornecer qualquer meio de corrigi-lo; mais em geral, o ensino da lógica dedutiva encoraja a tendência natural do espírito para ascender apressadamente e sem exame apropriado a proposições de grande generalidade, considerando depois que foram estabelecidas com segurança ao continuar investigando. O método de Bacon exige não a libertação mas a regulamentação do intelecto, que “tem não […] de ser fornecido com asas, mas antes de ser carregado com pesos, para o impedir de dar saltos e voar” (1620: I.104).

Tal como os silogismos são inúteis para qualquer investigação da natureza, também a indução por simples enumeração descrita nos manuais de lógica o é. Bacon encarava-a constantemente com desprezo — “infantil” é o seu insulto preferido. Operava na superfície das coisas, usando noções “populares”, sendo por isso incapaz de fornecer qualquer certeza. Bacon não era falibilista: não estava disposto a contentar-se com uma filosofia natural de conjecturas e de conclusões meramente provisórias. A certeza era tão importante para Bacon como o seria para Descartes, mas o que procurava era uma certeza de um tipo muito diferente — não a imunidade perante a dúvida céptica, mas a completa confiança. Isto poderia ser fornecido pela indução, mas teria de ser indução de um tipo novo e muito mais elaborado, que pudesse usar casos negativos e não apenas positivos.

5. Os ídolos da mente

Antes de a nova lógica poder ser posta em prática, era preciso analisar as limitações do espírito humano que essa lógica tinha como propósito corrigir ou iludir. A secção central do Livro I é um homólogo das análises do raciocínio sofístico fornecidas nos manuais de lógica. O que emergiu, contudo, não foi apenas uma lista de falácias indutivas, mas antes uma das mais memoráveis e originais partes do sistema de Bacon.

Bacon distinguia quatro classes de ídolos. Os “Ídolos da Tribo” surgem das limitações da natureza humana; podemos tê-las em conta e ficar atentos a elas, mas não conseguimos eliminá-las por completo. Bacon tinha em mente limitações como a tendência para supor que há mais regularidade do que aquela que há na realidade, a tendência para ser excessivamente influenciado pela imaginação, e ainda mais pelas esperanças e desejos. Um tipo muito diferente de limitação surge da obtusidade dos sentidos. Bacon não tinha simpatia alguma pelas dúvidas cépticas radicais do tipo que iriam preocupar Descartes, mas tinha profunda consciência da fragilidade dos sentidos humanos, e da sua completa incapacidade para discernir o funcionamento íntimo da natureza. O problema não devia ser abandonado ao desespero céptico, nem resolvido por meio de validação metafísica. Conseguia-se alguma ajuda do uso de instrumentos, mas a verdadeira solução repousava na concepção de experiências. Os processos ocultos seriam ligados a consequências observáveis, e a determinação experimental dos últimos revelaria a natureza dos primeiros.

Os “Ídolos da Caverna” surgem das idiossincrasias dos indivíduos, sejam elas naturais ou implantadas pela educação. Alguns espíritos são bons a encontrar semelhanças vagas, outros a traçar distinções subtis; alguns sentem-se atraídos pela sabedoria antiga, ou o que se supõe que é a sabedoria antiga, ao passo que outros só se sentem atraídos pela novidade; quase todas as pessoas são influenciadas pelas disciplinas que conhecem bem, e ainda mais por aquelas para as quais deram contributos.

Os “Ídolos do Fórum” (ou “Ídolos do Mercado”) surgem das deficiências do discurso humano. Bacon não tinha qualquer respeito pelas categorias da linguagem comum, nem pelos padrões mentais habituais de quem não tinha formação; no seu léxico, “popular” é quase invariavelmente um termo de descrédito. As palavras concebidas para os propósitos comuns da vida não podem fornecer um vocabulário satisfatório à filosofia natural, e a tentativa de remediar a situação fazendo definições nada consegue alcançar: as palavras são definidas com outras palavras, que têm os mesmos defeitos.

Podemos evitar e em certa medida acomodar estas três classes de ídolos, mas nunca conseguimos eliminá-los por completo. A quarta classe é neste aspecto diferente. Consiste nos “Ídolos do Teatro” — a razão de ser do nome era que as filosofias rivais eram como peças de teatro, com diferentes personagens e diferentes enredos, mas todas igualmente fictícias. A diversidade potencial desses sistemas é claramente ilimitada, mas Bacon distinguia três tipos principais. A filosofia natural de Aristóteles e dos seus seguidores estava corrompida em parte pela lógica e em parte por se apoiar em noções comuns — concepções populares muitíssimo inadequadas para a tarefa em mãos. A escola empírica (exemplificada pelos alquimistas, mas que incluía também William Gilbert, que investigava o magnetismo) despistava-se por ter uma linha de investigação experimental demasiado restritiva: domínios restritos de dados alimentam a imaginação e levam a explicações tendenciosas do mundo em termos químicos ou magnéticos. O platonismo (Bacon tinha em mente não tanto as doutrinas do próprio Platão — que trata em geral com respeito — mas o platonismo do seu tempo) era a doutrina mais presunçosa, sendo corrompida pela teologia e pela superstição. As perspectivas religiosas do próprio Bacon não são de modo algum fáceis de discernir, e têm sido interpretadas de muitíssimas maneiras, mas uma coisa que é perfeitamente clara é que se opunha terminantemente à interferência de doutrinas religiosas, cristãs ou outras, na filosofia natural; o resultado de deixar isto acontecer era a corrupção das duas coisas, gerando uma filosofia supersticiosa e uma religião herética.

6. Indução

As propostas metodológicas de Bacon perfazem o Livro II de Novum Organum. A primeira fase de qualquer investigação é a recolha de uma história natural e experimental. Isto poderá ter um grande âmbito — por exemplo, a história do calor nos aforismos 11–18 — mas pode também ser muito mais restrito: os exemplos do próprio Bacon incluem histórias do arco-íris, do mel e da cera. A ideia de história natural era antiga, remontando ao longo de inúmeras enciclopédias renascentistas e medievais a Plínio, e em última análise à Historia Animalium de Aristóteles. Contudo, Bacon introduziu uma inovação de importância crucial. As suas histórias registariam não apenas materiais reunidos do funcionamento comum da natureza, mas também fenómenos novos gerados pela actividade humana. Na tradição aristotélica, esses artefactos seriam desconsiderados por serem materiais inapropriados de investigação; Bacon, contudo, não só os considerava temas legítimos de investigação, como os considerava especialmente valiosos: “com a ajuda e ministério do homem torna-se visível um novo perfil de corpos, outro universo ou teatro de coisas” (1857–1874, IV: 253). A natureza devia ser posta em questão — um eufemismo contemporâneo usado para falar da tortura.

As histórias deste tipo não poderiam ser reunidas rapidamente, e o projecto absorveria claramente uma grande quantidade de trabalho e dinheiro. Bacon tinha plena consciência deste ponto, mas não conseguia ver alternativa. O entendimento humano precisava de ser purgado e limpo, e isto teria de ser feito não por qualquer afastamento platónico (ou cartesiano) dos dados dos sentidos, mas por uma imersão no mundo da experiência em toda a sua individualidade e diversidade. Bacon era um bom nominalista da tradição inglesa: para ele, só os indivíduos são reais e a nossa cognição mais fidedigna é a nossa consciência sensorial directa de indivíduos. A fuga para um mundo de objectos abstractos supostamente acessíveis à razão não conduz senão à ilusão e à enunciação de generalidades vazias; para Bacon, a palavra “abstracto” — como “popular” — carrega quase invariavelmente conotações negativas.

Temos de começar, pois, com particulares; temos também de começar com um domínio tão completo de particulares quanto possível. Bacon não exigia que todos estes dados estivessem correctos, ainda que materiais manifestamente falsos devessem ser excluídos sempre que possível, tal como os relatos dúbios deviam ser assinalados como tal. Algumas falsidades misturar-se-iam inevitavelmente, mas poder-se-ia lidar com elas; mas não se poderia lidar com distorções que afectassem toda a história. As tentativas iniciais para impor critérios de relevância tinham portanto de ser completamente excluídas.

A maior parte das histórias incluem uma quantidade imensa de dados — muito além do que qualquer espírito humano consegue apreender como um todo; era essencial alguma organização deste material num tipo qualquer de estrutura. Bacon propôs o uso de três tabelas: primeiro, uma “Tabela da Essência e da Presença”, fazendo a lista de todas as situações em que a natureza sob investigação está presente; depois, uma “Tabela do Desvio ou Ausência na Proximidade”, que descreve todas as situações que são tão próximas quanto possível das da primeira tabela, mas onde a natureza sob investigação não está presente; e por último uma “Tabela de Graus de Comparação”, uma lista daquelas situações em que a natureza em questão varia em intensidade, juntamente com detalhes das circunstâncias que acompanham essa variação.

Quando são elaboradas pela primeira vez, a segunda e terceira tabelas seriam, em geral, incompletas, no sentido de terem lacunas que correspondem às entradas da primeira tabela. Uma das principais funções da experimentação era remediar estes defeitos: por exemplo, dado que os raios do Sol podem ser concentrados com uma lente convexa, dever-se-ia fazer uma experiência para ver se essas lentes poderiam produzir calor concentrando os raios da Lua, ou quaisquer raios provenientes de pedras aquecidas ou de recipientes com água a ferver.

Depois de redigidas as tabelas, seria possível começar o próprio processo indutivo:

A primeira tarefa, pois, da verdadeira indução […] é a rejeição ou exclusão das várias naturezas que não se encontram em algum caso quando a natureza dada está presente, ou que se encontram em alguns casos em que a natureza dada está ausente, ou que se descobre que aumentam em algum caso em que a natureza dada diminui, ou que diminuem onde a natureza dada aumenta. (1620: II.16)

Só é possível apreender a verdadeira essência da natureza em questão (ou forma, para usar o próprio termo de Bacon) quando este processo de exclusão chega ao fim.

Este método apoia-se claramente em vários pressupostos, dos quais o mais fundamental é um princípio de diversidade limitada. Apesar de o mundo revelado pelos sentidos parecer infinitamente diversificado, toda esta complexidade resulta da combinação de um número finito, e na verdade bastante pequeno, de naturezas simples. Há um alfabeto da natureza, que não pode ser adivinhado ou descoberto por especulação, mas que irá começar a revelar-se quando se aplica os processos de investigação correctos. O tempo necessário é na verdade não apenas finito, mas bastante curto: depois de completar as histórias naturais, a descoberta de todos os segredos da natureza exigirá apenas alguns anos.

Bacon pressupunha também que há uma correlação biunívoca directa entre as naturezas e as formas das quais estas resultam. Estava ciente de que os críticos poderiam negá-lo e sustentar (por exemplo) que o calor dos corpos celestes e o calor do fogo, ou que o vermelho de uma rosa e o vermelho do arco-íris, só aparentemente são semelhantes, tendo na realidade causas muito diferentes. Bacon negava-o firmemente — por mais aparentemente heterogéneas, estas coisas concordam nas formas ou leis que regem o calor e a vermelhidão; na verdade, mesmo modos tão diferentes de morrer como o afogamento, o enforcamento e o esfaqueamento concordam na forma ou lei que rege a morte.

Esta maneira de pensar reforça a tendência já presente na tradição alquimista de considerar que os corpos são conjuntos de naturezas simples, cada qual explicável em isolamento (e portanto reprodutível). Bacon pensava certamente desta maneira: o ouro é amarelo, pesado, maleável, estável (ou seja, não é quimicamente afectado pelo fogo) e assim por diante. Quem conhecer as formas destas naturezas poderá tentar juntá-las num único corpo, transformando assim esse corpo em ouro. Noutros casos, contudo, Bacon parece ter reconhecido que as formas raramente são independentes: “dado que todo o corpo contém em si muitas formas de naturezas unidas num estado concreto, o resultado é que ora se esmagam entre si, ora se pressionam, quebram ou influenciam, e por isso as formas individuais ficam obscurecidas” (1620: II.24). Contudo, não se ocultam por completo: dado que a expansão faz parte da forma do calor, todos os corpos aquecidos têm de se expandir; mas ao passo que a expansão do ar facilmente se vê, a expansão do ferro é menos óbvia aos sentidos.

A justificação dos princípios da diversidade limitada e da correlação directa das formas e naturezas poderia ser sempre adiada; outro problema havia, contudo, que teria de ser enfrentado desde logo. A exclusão acarreta a rejeição de naturezas simples, “e se não temos ainda noções sólidas e verdadeiras das naturezas simples, como se poderá tornar preciso o processo de Exclusão?” (1620: II.9). A velha lógica revelara-se inadequada devido a esta limitação; que bases há para supor que a nova lógica irá sair-se melhor?

Bacon estava bem ciente deste problema e da dificuldade que representava para o seu projecto. A sua solução foi propor uma série de apoios da indução, cuja explicação ocupa a última parte do Livro II de Novum Organum e é (como de costume) longa, elaborada e incompleta; na verdade, tudo o que conseguiu descrever foi o primeiro dos seus nove tipos de apoio, as “Prerrogativas das Instâncias”, das quais distinguiu qualquer coisa como vinte e sete tipos diferentes. A abordagem de Bacon revela aqui, talvez mais claramente que qualquer outra passagem dos seus escritos, a força distintiva do seu espírito, mas também as suas limitações. A discussão é amiúde arguta e por vezes muito mais que isso — a instancia crusis foi incorporada na ciência moderna, sob a designação de “experiência crucial” — mas o apego de Bacon a elaborados sistemas de classificação e esquemas portentosos de nomenclatura é com frequência evidente, sobretudo nas dezanove espécies de movimento descritas no aforismo 48. A imensidão da sua distância intelectual de contemporâneos como Galileu é aqui mais evidente do que em qualquer outro ponto.

7. Filosofia natural

Os dons intelectuais de Bacon eram notáveis, mas não eram os dons de um cientista. Era jurista e era aqui, tal como nas questões humanas em geral, que se encontrava a sua verdadeira área de especialidade. As suas leituras de filosofia natural eram imensas, mas a sua abordagem continuava a ser própria de alguém que, apesar de perspicaz e muitíssimo inteligente, não pertence a essa área. Estas limitações tornam-se especialmente evidentes quando Bacon se voltou para a astronomia, a mais desenvolvida de todas as disciplinas científicas do seu tempo. Rejeitou o copernicianismo e, apesar de ter visto muitos dos pontos fracos da tradição astronómica que herdara, não tinha senão ideias vagas e nada proveitosas — ao contrário de Kepler — quanto à maneira como se poderia reformá-la.

A física do próprio Bacon era fundamentalmente não-mecanicista. Os corpos tinham dois tipos de matéria — tangível e espiritual — e a operação desta última, ainda que nunca explicada claramente, não era certamente concebida em termos mecanicistas. Contudo, Bacon usou várias ideias que foram retomadas pelos filósofos mecanicistas que se lhe seguiram, em particular que as qualidades observáveis dos corpos se explicam pela constituição das suas partes internas. O vidro fica branco quando o esmagamos em pequeníssimos fragmentos, e a água fica branca quando a batemos até fazer espuma; o calor não é uma qualidade escolástica real, mas antes um tipo de movimento. Mais tarde, baconianos como Boyle e Hooke conseguiram apoderar-se destas ideias e exprimi-las em termos mais claramente mecanicistas.

8. A influência de Bacon

Na Inglaterra, os escritos filosóficos de Bacon não foram muito apreciados nas décadas de 1620 e 1630. Na sua maior parte, quem admirava o velho saber, a começar por Jaime I, não o compreendeu, e o único grande cientista praticante do seu tempo, William Harvey, fui brutalmente desdenhoso. Bacon teve mais impacto em França, onde foi cuidadosamente lido por Mersenne, Gassendi e Descartes, mas mesmo estes limitaram-se a responder a partes seleccionadas do sistema, nomeadamente aos “Ídolos” e ao apelo à experimentação.

O tumulto político britânico da década de 1640 estimulou um novo interesse no pensamento de Bacon, tanto entre os defensores da reforma universal, como Samuel Hartlib, como entre os filósofos naturais, como Robert Boyle e Robert Hooke. O baconianismo tornou-se na verdade a filosofia oficial da Royal Society, aclamada na semi-oficial História (1667) de Thomas Sprat. As esperanças a que deu origem, contudo, revelaram-se difíceis de satisfazer. Newton pouca atenção deu a Bacon, e os Principia constituíram um feito completamente diferente de tudo o que se projectara no Novum Organum. A dívida de Locke foi bastante mais pronunciada, especialmente na obra A Condução do Entendimento, mas em inícios do século XVIII o interesse no baconianismo começou a declinar.

Seguindo o exemplo de Voltaire, os enciclopedistas franceses trataram Bacon com muito respeito como um pensador empírico e essencialmente secular, favoravelmente contrastado com Descartes, que se considerava agora ter sido cientificamente desacreditado, além de ser demasiado deferente para com a igreja. No Reino Unido, Bacon foi ignorado por Hume, mas admirado por Reid, que ajudou a criar uma síntese metodológica muitíssimo influente das ideias baconianas e newtonianas.

O renascimento baconiano atingiu o clímax no segundo quartel do século XIX. A obra Preliminary Discourse on the Study of Natural Philosophy (1830), de Sir John Herschel, foi uma tentativa exaustiva de reformular o baconianismo numa forma compatível com a ciência do seu tempo. John Stuart Mill e William Whewell, apesar de discordarem acerca de quase tudo, reconheciam uma dívida profunda para com Bacon e o método indutivo da ciência. A apresentação mais acessível das primeiras atitudes vitorianas para com Bacon foi fornecida, contudo, pelo ensaio de Macaulay, “Lorde Bacon” (1837). Apesar de ser respeitoso quanto ao pensamento de Bacon, Macaulay era menos simpático em relação ao seu carácter, e foi em resposta à sua exposição que James Spedding se entregou aos labores que levaram à sua Life and Letters (1857–1874: vols. VIII–XIV), e à edição crítica das obras de Bacon, conjuntamente produzida com R. L. Ellis e D. D. Heath.

Em finais do século XIX, a reputação de Bacon como metodólogo começou a enfraquecer. A tendência continuou depois de 1900, atingindo a reputação de Bacon o seu Nadir em meados do século, quando Sir Karl Popper propôs um método para a ciência que eliminava por completo a indução, e historiadores como Alexandre Koyré ofereceram abordagens da revolução científica que fizeram do contributo de Bacon um aspecto marginal. Daí em diante, tem ocorrido um renascimento modesto, mas Bacon ainda não reconquistou um lugar seguro no cânone filosófico.

J. R. Milton
Routledge Encyclopedia of Philosophy (Londres: Routledge, 1998).

Lista de obras

Referências e leitura complementar

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