3 de Agosto de 2019   Filosofia

Analiticidade, necessidade e conhecimento a priori

Scott Soames
Tradução de Desidério Murcho

1. O empirismo lógico e a sua concepção linguística da filosofia e das modalidades

1.1. Em que sentido é a filosofia supostamente linguística, mas não empírica?

Segundo o Tractatus, todas as frases com sentido pertencem a uma de três classes: tautologias, que são verdadeiras em virtude do significado; contradições, que são falsas em virtude do significado; e frases sintéticas, cuja verdade ou falsidade depende do que significam e de como é o mundo. Os empiristas lógicos faziam a mesma distinção, usando a designação “analítico” para frases que são verdadeiras em virtude do significado e “empírico” para frases cuja verdade ou falsidade depende simultaneamente do que significam e de como é o mundo. Identificavam também as verdades analíticas com as que são necessárias e conhecíveis a priori (se forem conhecíveis), identificando as verdades empíricas com as que são contingentes e conhecíveis apenas a posteriori.

No Tractatus, as verdades empíricas eram o domínio da ciência e as analíticas o domínio da lógica e da matemática. Reconhecendo francamente que isto não deixava lugar às verdades filosóficas, Wittgenstein negou paradoxalmente que existissem. Porque não reconheciam a enganadora categoria de sem sentido importante, os empiristas lógicos, como Rudolf Carnap e A. J. Ayer, não queriam caracterizar as suas volumosas produções como um tipo qualquer de sem sentido. Mas evitar essa conclusão sem repudiar as doutrinas centrais do empirismo lógico não era fácil.

As respostas a esta dificuldade envolviam tipicamente uma ou outra de três perspectivas, ou uma combinação delas. Por vezes as doutrinas do empirismo lógico eram vistas como verdades analíticas que envolviam conceitos e proposições de importância lógica ou científica. Por vezes eram tratadas como relatos empíricos das convenções linguísticas que regem o uso das palavras e frases em contextos científicos e/ou quotidianos. Por vezes eram consideradas explicações parcialmente descritivas e parcialmente normativas de conceitos comuns como significado, concebidas para responder melhor aos propósitos científicos dados a esses conceitos. As dificuldades envolvidas em dar uma resposta coerente a esta questão serão ilustradas vendo o que Ayer e Carnap tinham a dizer acerca dela.

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1.1.1. Segundo Ayer

Ayer discute a sua concepção linguística da filosofia nos capítulos 2 e 3 de Linguagem, Verdade e Lógica (1936). A sua posição geral é formulada pela primeira vez como se segue:

[A]s proposições da filosofia não são factuais, antes têm um carácter linguístico — isto é, não descrevem o comportamento de objectos físicos ou até mentais; antes expressam definições ou consequências formais de definições.1

Apesar de a intenção geral de Ayer ser clara, não é fácil captar o conteúdo exacto da sua observação. Apesar de ele falar de proposições, não quer dizer objectos não-linguísticos de atitudes e portadores de valor de verdade; quer dizer frases, ou usos de frases, sem indicar qual dessas alternativas tem em mente. Irei chamar-lhes proposições linguísticas, deixando em aberto por agora qual é a melhor interpretação. Ao dizer que as proposições filosóficas não são factuais, Ayer parece estar a dizer que não são verdades (ou falsidades) empíricas, a posteriori, o que faz pensar que terão de ser verdades (ou falsidades) analíticas. Isso harmoniza-se com a sua descrição, segundo a qual as proposições exprimem definições ou são consequências de definições. Apesar disso, é preocupante que Ayer explique ter um carácter linguístico em termos de não descrever objectos físicos ou mentais. Isto é questionável. Para começar, pode-se dizer que mesmo as verdades obviamente analíticas, como Para todo o x, se x for um homem não-casado, então x não é um homem casado, descrevem todos os objectos — dizendo que têm uma propriedade que nada pode deixar de ter. Mesmo que Ayer tenha em mente um tipo especial de descrição, limitar-se a excluir descrições de objectos físicos ou mentais deixa em aberto que as afirmações filosóficas possam descrever outros tipos de objectos — por exemplo, objectos linguísticos. Se as afirmações filosóficas podem descrevê-los, poderão as descrições ser empíricas? É de crer que ele diria “Não”, mas as coisas não são assim tão simples.

Ayer dá continuidade ao seu comentário geral com a seguinte afirmação:

Segue-se que a filosofia não compete de modo algum com a ciência. A diferença de tipo entre as proposições filosóficas e as científicas é tal que não podem concebivelmente contradizer-se entre si. E isto torna claro que a possibilidade da análise filosófica é independente de quaisquer pressupostos empíricos.2

Pressupondo que a ciência pode, em princípio, pronunciar-se sobre qualquer questão de facto contingente, poderia parecer que estes comentários excluem qualquer afirmação empírica de contar como afirmação filosófica — i.e., qualquer afirmação contingente capaz de se saber que é verdadeira ou falsa com base em indícios.

Apesar de isto se harmonizar com a intenção aparente de Ayer, a passagem seguinte revela a dificuldade desta posição que resulta do seu pressuposto de que as “proposições” são de algum modo linguísticas:

O que contribuiu […] para o desentendimento prevalecente da natureza da análise filosófica é o facto de as proposições e questões que são realmente linguísticas se exprimirem muitas vezes de tal maneira que parecem factuais. [Ayer cita aqui Carnap (1934b).] Um exemplo notável é fornecido pela proposição de que uma coisa material nao pode estar em dois lugares ao mesmo tempo. Isto parece uma proposição empírica, e é constantemente invocada por quem deseja provar que é possível que uma proposição empírica seja logicamente certa.3

Ao longo do livro, Ayer considera que uma “proposição” é logicamente certa sse, pela sua própria natureza, tem de ser verdadeira e, consequentemente, pode-se saber que o é sem recorrer a factos empíricos como justificação. Mas que género de entidade linguística tem essas propriedades? Continua Ayer:

Mas uma inspecção mais crítica mostra que não é de modo algum empírica, mas apenas linguística. Regista apenas o facto de, em resultado de certas convenções verbais, a proposição de que dois conteúdos sensíveis ocorrem no mesmo campo visual ou táctil é incompatível com a proposição de que pertencem à mesma coisa material. E isto é realmente um facto necessário.4

A análise da proposição sobre objectos materiais pressuposta na passagem resulta da perspectiva problemática de Ayer de que os objectos materiais são construções lógicas a partir de dados dos sentidos.5 Felizmente, o conteúdo dessa análise é irrelevante para os pontos aqui em questão. O que nos interessa é a sua afirmação de que certos factos acerca de proposições linguísticas são necessários.

A passagem continua:

Mas não tem qualquer tendência, por menor que seja, para mostrar que temos conhecimento certo [i.e., a priori] acerca das propriedades empíricas dos objectos. Pois ela [a proposição em questão] é necessária apenas porque por acaso usamos as palavras relevantes de uma dada maneira. Não há qualquer razão lógica para não alterar as nossas definições de modo a que a frase “Uma coisa não pode estar em dois lugares ao mesmo tempo” venha a exprimir uma autocontradição, em vez de uma verdade necessária.6

Diz-se aqui que uma certa proposição linguística — que uma coisa material não pode estar em dois lugares ao mesmo tempo — tem a propriedade de ser necessariamente verdadeira. Mas é certamente de supor que só tem esta propriedade se tiver necessariamente a propriedade de ser verdadeira. Mas então por que não concluir — visto que a necessidade e a aprioridade andam de mãos dadas para Ayer — que temos aqui conhecimento a priori de que um objecto tem uma propriedade empírica? Visto que a verdade é uma propriedade que algumas proposições têm apenas contingentemente, e que não podemos saber a priori que a têm, não deveria contar como uma propriedade empírica? Ora, acontece que Ayer é também um defensor da teoria da redundância, e por isso poderia responder que a verdade não é uma propriedade de todo em todo. À parte ser falsa, essa resposta não está aqui em questão, nem Ayer a invoca. Ao invés, ele faz notar que uma frase ser verdadeira ou não depende do que significa, o que por sua vez é determinado pelas convenções linguísticas que a regem. Visto que as convenções que regem uma frase é uma questão contingente, não é necessário que uma frase signifique o que significa. Assim, não pode ser necessário ou a priori que qualquer frase seja verdadeira.

Estes pontos, apesar de correctos, deixam-nos com um mistério. Quais são os portadores de verdade (necessária ou contingente), ou de falsidade? Esta é uma versão do problema levantado no capítulo 2 quanto à concepção de Wittgenstein das proposições no Tractatus. A solução aqui é a mesma. Podemos aproximar-nos do que ambos os filósofos procuravam considerando que as proposições são usos de frases de acordo com certas convenções. Nesta concepção, será tanto necessário como conhecível a priori que qualquer uso de uma frase de acordo com certas convenções será verdadeiro.

Mas agora há dificuldades noutra frente. Será contingente e conhecível apenas a posteriori que qualquer frase que possamos identificar foi usada para exprimir a verdade necessária de que um objecto material não pode estar em dois lugares ao mesmo tempo. Isto é significativo porque Ayer reconhece que identificar verdades necessárias e a priori significativas usadas na ciência e na vida quotidiana é uma tarefa central da filosofia. Apesar de nada haver de inerentemente errado com a ideia de que tais identificações são empíricas, ameaça certamente a tese geral de Ayer de que as proposições filosóficas nunca são empíricas.

Ayer ilustra esta concepção de análise filosófica usando a teoria das descrições de Russell como um exemplo paradigmático. Ele considera que essa teoria diz-nos que

toda a frase que contém uma expressão simbólica desta forma [“o tal-e-tal”] pode ser traduzida numa frase que não contém tal expressão, mas contém uma subfrase afirmando que um e um só objecto tem uma certa propriedade, ou então que nenhum objecto tem uma certa propriedade. Assim, a frase “O quadrado redondo não existe” é equivalente a “Nenhuma coisa pode ser simultaneamente quadrada e redonda”; e a frase “O autor de Waverley era escocês” é equivalente a “Uma pessoa, e uma apenas, escreveu Waverley, e essa pessoa era escocesa”. […] O efeito desta definição de expressões descritivas, como o de todas as boas definições, é aumentar a nossa compreensão de certas frases.

E isto é um benefício que o autor de tal definição confere não apenas aos outros, mas também a si próprio. […] Em geral, podemos dizer que o propósito de uma definição filosófica é afastar as confusões que emergem da nossa compreensão imperfeita de certos tipos de frases da nossa linguagem.7

Uma maneira de compreender estas observações é considerar que são relatos de afirmações contingentes, a posteriori, acerca de propriedades semânticas de uma certa classe de frases da língua portuguesa que mesmo quem fala português sofisticadamente poderá confundir. Outra maneira de encarar algumas delas é considerá-las elipses de afirmações acerca das consequências necessárias e a priori de certos usos destas frases. Poder-se-ia defender que é uma verdade necessária, a priori, que qualquer uso de “O autor de Waverley é escocês” de acordo com tais-e-tais convenções, e os usos correspondentes de “Alguém é simultaneamente escocês e idêntico com quem quer que escreveu Waverley”, são consequências necessárias e a priori uma da outra. Ayer é claramente mais simpático a esta segunda maneira de pôr as coisas. Contudo, quando fala dos benefícios de análises filosóficas como a de Russell, pressupõe que todos nós empiricamente identificamos tais usos rotineiramente — no seu texto, no nosso próprio discurso, e no discurso alheio. Haverá alguma razão para banir da filosofia afirmações explícitas deste género porque são contingentes e a posteriori?

Aparentemente, Ayer pensa que sim.

É também enganador dizer, como há quem faça, que a filosofia nos diz como certos símbolos são efectivamente usados. Pois isto sugere que as proposições da filosofia são factuais, dizendo respeito ao comportamento de um certo grupo de pessoas, e isto não é assim. O filósofo que afirma que, na língua portuguesa, a frase “O autor de Waverley é escocês” é equivalente a “Uma pessoa, e só uma pessoa, escreveu Waverley, e essa pessoa era escocesa” não está a afirmar que todas as pessoas que falam português, ou a maior parte, usam estas frases indiferentemente.8

Nesta passagem, Ayer elimina um espantalho. Como sabemos com base na prática alargada dos linguistas teóricos actuais, a tese empírica de que duas frases da linguagem natural têm o mesmo conteúdo semântico nunca é identificada com a tese de que toda as pessoas que falam essa linguagem, ou a sua maior parte, as usam indiferentemente. Ao invés, a tese relaciona-se com as observações que verificam uma teoria linguística da maneira indirecta que é habitual nas teses empíricas das teorias empíricas em geral.

De seguida, Ayer tenta identificar a tese não-empírica que ele pensa que o filósofo defende:

O que ele [o filósofo] está a afirmar é que, em virtude de certas regras de implicação que são características do português “correcto”, toda a frase que seja implicada por “O autor de Waverley é escocês”, em conjunção com um dado grupo de frases, é também implicada por esse grupo, em conjunção com “Uma pessoa, e uma só pessoa, escreveu Waverley, e essa pessoa era escocesa”.9

Ponha-se de lado o que Ayer poderá querer dizer com “certas regras de implicação”. Consideremo-las convenções semânticas, sejam elas quais forem, que regem o uso de frases em português. Ele identifica então duas frases portuguesas e faz uma afirmação acerca das relações lógicas entre elas e outras. Entendo as coisas assim, a sua afirmação é factual — i.e., contingente e conhecível apenas a posteriori. E continua a sê-lo mesmo que a reformulemos, considerando que é acerca de usos reais e identificáveis das duas frases, de acordo com convenções a elas associadas por quem fala português, por algum grupo de pessoas que falam português, ou até pelo próprio Ayer. Supondo que Ayer poderia articular todas as convenções relevantes, as suas afirmações seriam ainda assim empíricas, desde que os usos efectivos da linguagem estejam de acordo com essas convenções, e sejam como tal identificados.

Apesar de Ayer parecer reconhecer isto, o seu reconhecimento não salva a sua tese de que as afirmações filosóficas sobre a linguagem nunca são empíricas.

Que quem fala português usa as convenções verbais que usa é, realmente, um facto empírico. Mas a dedução de relações de equivalência a partir das regras de implicação que caracterizam a língua portuguesa, ou qualquer outra, é uma actividade puramente lógica. E é nesta actividade lógica, e não em qualquer estudo empírico dos hábitos linguísticos de qualquer grupo de pessoas, que consiste a análise filosófica.10

Ayer não fala aqui de proposições propostas como verdades filosóficas, mas passa a falar da análise filosófica como uma actividade de deduzir algumas coisas de outras. Isto é um desapontamento. Para começar, não é suficientemente específico. Os investigadores de todos os campos deduzem muitas coisas de outras, sem fazer por isso filosofia. Assinala também uma retirada para a posição tractariana paradoxal de que, porque não há verdades filosóficas, a filosofia tem de ser uma actividade que visa outra coisa que não a descoberta de verdades. Apesar de os empiristas lógicos dizerem por vezes tais coisas, o pressuposto comum era que a posição tractariana poderia ser evitada.

1.1.2. Segundo Carnap

Curiosamente, Ayer insere uma nota no final da passagem acabada de citar. Diz o seguinte:

Há razões para dizer que o filósofo se ocupa sempre de uma linguagem artificial. Pois as convenções que seguimos no nosso uso efectivo das palavras não são completamente sistemáticas e precisas.11

Este comentário reflecte com rigor a prática de Carnap em A Sintaxe Lógica da Linguagem (1934a) (traduzido e expandido em 1937), na Introdução à Semântica (1942), e em trabalhos posteriores — que iremos examinar daqui a pouco. A questão aqui é que apelar a uma linguagem ideal para a qual podemos explicitamente estipular todas as regras sintácticas e semânticas relevantes não afecta as perplexidades levantadas pela discussão de Ayer.

Suponha-se que estipulo regras para uma versão do cálculo proposicional, dando assim às frases significados e condições de verdade. Continuará a ser um facto contingente que são regidas pelas minhas estipulações, tendo assim os significados e as condições que têm, e que na minha ausência só podem ser conhecidas a posteriori. Até eu as conheço a posteriori — ao saber que fiz as estipulações. E que dizer de elocuções estipulativas, e.g., Estipulo que ‘R’ nomeia o Rudolfo? Se tenho autoridade para estipular, a minha afirmação não pode deixar de ser verdadeira — não por ser analítica, mas porque dizer sinceramente que se está a estipular tal-e-tal é, dentro de certos limites, estipular, e por isso tornar verdadeiro, tanto que se está a estipular tal-e-tal como que tal-e-tal. O meu conhecimento das propriedades semânticas resultantes é a posteriori, porque tem de ser justificado pelo meu conhecimento a posteriori do que fiz.

O resultado desta discussão é que grande parte do que empiristas lógicos como Carnap chamavam “a análise lógica dos conceitos e frases das ciências”, e que identificavam com a filosofia, pode ser considerado um caso especial de uma disciplina descritiva empírica a que actualmente chamamos semântica teórica, acrescida da tarefa criativa da inovação lógico-linguística.12 A tarefa dos filósofos como Carnap era em parte descrever as propriedades lógico-semânticas das expressões, fórmulas e frases de linguagens artificiais já usadas na lógica, na matemática e na ciência, e em parte acrescentar algo a essas linguagens que melhorasse a sua utilidade na formalização e sistematização de áreas discretas mas relacionadas da ciência. Vistas as coisas assim, é curioso como grande parte dos esforços de Carnap para fazer avançar as suas finalidades filosóficas — especialmente o seu influente trabalho na formalização das modalidades — foram agora, e desde há várias décadas, incorporados em teorias empíricas muitíssimo teóricas da semântica das linguagens naturais. Isto sugere que grande parte do que ele e outros empiristas lógicos chamavam filosofia era o estágio embrionário da jovem ciência empírica da semântica linguística.

No prefácio da versão alemã original de 1934 de A Sintaxe Lógica da Linguagem, escreve Carnap:

Aquela parte do trabalho dos filósofos que pode ser considerada de natureza científica — excluindo as questões empíricas que podem ser referidas como ciência empírica — consiste em análise lógica. O objectivo da sintaxe lógica é fornecer um sistema de conceitos, uma linguagem, com a ajuda do qual os resultados da análise lógica seja formulável com exactidão. A filosofia será substituída pela lógica da ciência — ou seja, pela análise lógica dos conceitos e frases das ciências, pois a lógica da ciência nada mais é senão a sintaxe lógica da linguagem da ciência.13

Estas palavras, escritas em Maio de 1934, são anteriores à (falhada) epifania “semântica” que marcou a resposta de Carnap à definição de verdade de Tarski de 1935. Nesta altura ele ainda considerava que os conceitos lógicos — que mais tarde tentaria definir usando a noção de verdade de Tarski — eram puramente sintácticos — i.e., que pertenciam à teoria da demonstração. O objectivo do livro era elucidar estes conceitos numa filosofia da lógica que era pluralista e convencionalista, incorporando um núcleo lógico muitíssimo restrito, ao mesmo tempo que deixava espaço para extensões diferentes, não-concorrentes, que resultavam da adopção de diferentes convenções linguísticas.

Ele resume a sua perspectiva na seguinte passagem:

[S]erá sustentada a perspectiva de que temos em todos os aspectos completa liberdade com respeito às formas de linguagem; que tanto as formas de construção de frases como as regras de transformação (estas últimas são habitualmente designadas como “postulados” e “regras de inferência”) podem ser escolhidas de maneira perfeitamente arbitrária […][E]sta escolha, seja ela qual for, irá determinar o significado a atribuir aos símbolos lógicos fundamentais. Com este método, além disso, o conflito entre pontos de vista divergentes quanto ao problema dos fundamentos da matemática desaparece. Pois a linguagem, na sua forma matemática, pode ser entendida segundo as preferências de qualquer um dos pontos de vista representados; de modo que não surge qualquer questão de justificação, só surge a questão das consequências sintácticas a que uma ou outra das escolhas conduz, incluindo a questão da não-contradição. A postura que sugerimos — iremos chamar-lhe Princípio da Tolerância — diz respeito não apenas à matemática, mas a todas as questões de lógica […] No domínio da sintaxe geral, por exemplo, é possível escolher uma certa forma para a linguagem da ciência como um todo, tal como para qualquer ramo da ciência, e formular com exactidão as diferenças características entre ela e as outras formas possíveis de linguagem.14

Neste ponto, não me interessa as análises especificamente sintácticas que Carnap propôs em 1934, mas a perspectiva de que a filosofia, apropriadamente concebida, consistia em análises lógicas (que podem ser semânticas) dos conceitos e frases da ciência.

O ponto capital, para os nossos propósitos, é que Carnap considerava que as afirmações filosóficas genuínas — que ele contrastava com os impostores pseudofilosóficos — eram afirmações explícitas acerca das propriedades lógicas das expressões linguísticas, ou eram traduzíveis, sem perda de conteúdo, nessas afirmações. As que não eram explicitamente acerca de expressões dizia ele que estavam formuladas no modo material de discurso. Apesar de não negar usos legítimos a tais afirmações, eram uma fonte de erros muito sérios se fossem tomadas como o que superficialmente pareciam ser — frases sobre objectos que não as expressões linguísticas. O erro era evitado traduzindo-as no modo formal de discurso, i.e., no modo explicitamente linguístico. Quando isto se podia fazer, o uso do modo material era inócuo. Quando não se podia, as afirmações eram rejeitadas por serem pseudo-afirmações.

Quase toda a quinta e última parte de A Sintaxe Lógica da Linguagem é dedicada a traduções concebidas para revelar o conteúdo explicitamente linguístico do estudo da lógica da ciência, que era o que para Carnap substituiria a filosofia. Todas as suas afirmações são, pelas razões mencionadas ao discutir Ayer, contingentes e só conhecíveis a posteriori. A virtude da posição de Carnap, em comparação com a de Ayer, é que Carnap considera que a sua actividade “toma o lugar do emaranhado insolúvel de problemas conhecido como filosofia”. Com efeito, é uma ciência, cujo objecto é a estrutura lógica de várias ciências, e da ciência como um todo.

Ver as coisas assim não obriga a considerar que as suas afirmações são necessárias nem conhecíveis a priori. Para Carnap, todas as verdades necessárias, a priori, o são porque são analíticas. A analiticidade, por sua vez, é sempre o resultado seja da estipulação explícita seja da convenção linguística implícita. Em termos aproximados, uma frase (de uma linguagem específica) é analítica para Carnap sse se segue das convenções ou estipulações que lhe dão significado. Seria de dizer que a afirmação que se faz com a frase pode ser necessária e conhecível a priori, ainda que a afirmação, acerca da frase, de que é analítica, e portanto necessária e a priori, é em si contingente e conhecível apenas a posteriori, ainda que o próprio Carnap não se exprima desta maneira.

1.2. O que é isso de uma frase ser verdadeira exclusivamente em virtude do significado?

Os empiristas diziam que as frases analíticas eram verdadeiras exclusivamente em virtude do significado. Tipicamente, isto envolvia duas teses. Primeiro, sustentava-se que uma frase analítica era a que se pode saber que é verdadeira simplesmente ao compreendê-la. Dado que toda a lógica e matemática era considerada analítica, não se pressupunha que toda a frase analítica é trivialmente reconhecível por qualquer pessoa que a compreenda, no sentido de ser alguém que fala competentemente e que compreende as palavras e expressões, e também o impacto semântico das suas construções sintácticas. Além disso, porque a analiticidade deveria explicar o a priori, não se poderia definir a analiticidade como a propriedade de ser uma frase que uma pessoa poderia, em princípio, vir a saber que é verdadeira deduzindo consequências a priori da informação fornecida pela sua compreensão da frase.

Apesar disso, a ideia geral era algo como isso. Segundo Carnap, compreender uma linguagem era conhecer as convenções que regiam as suas expressões. Estas convenções envolviam estipulações tácitas das quais se seguia, sem fazer apelo a informação empírica complementar, que certas frases identificáveis são verdadeiras, e certas regras de inferência para gerar umas frases de outras preservam a verdade. Nesta maneira de ver as coisas, uma frase analítica é aquela cuja verdade pode ser derivada das convenções que se aprende quando se aprende uma linguagem.15 Porque não se usa explicitamente a noção filosófica tradicional de a priori nesta caracterização de analiticidade, pensava-se que esta última poderia, sem circularidade, explicar a primeira. Esta ideia questionável será escrutinada na secção 3.

A segunda maior tese acerca das frases analíticas era que a sua verdade se deve inteiramente ao seu significado, no sentido em que o estado do mundo não dá afinal qualquer contribuição. Em contraste, o valor de verdade de qualquer frase sintética é sempre o produto do que quer dizer — a maneira como representa o mundo — mais a maneira como é o mundo. É verdadeira sse as duas coincidem. O desafio era encontrar uma maneira de compreender este contraste que vindicasse a ideia de que a analiticidade explica a necessidade. Pode-se lançar luz nesta ideia fazendo uma analogia devida a Gillian Russell.16 Quem sabe o que é multiplicar por zero, sabe, ao ser-lhe dado zero mais um número para multiplicar, que é irrelevante qual é o outro número. Não se trata de a multiplicação não exigir sempre dois argumentos; exige-os, de facto. Acontece apenas que quando um argumento é zero, o outro não desempenha qualquer papel no cálculo. Analogamente, poder-se-ia argumentar, o valor de verdade de uma frase é sempre uma função de dois argumentos, o seu significado e o estado do mundo. Acontece apenas que quando o primeiro argumento é o significado de uma frase analítica, o segundo argumento é irrelevante. Tal frase é verdadeira em todos os estados possíveis do mundo, e por isso é uma verdade necessária, mas a razão disto é que os estados do mundo não desempenham qualquer papel do cálculo. O significado da frase analítica é por si suficiente. Admitidamente, pode-se ainda perguntar se todas as verdades necessárias são analíticas, coisa que o empirismo lógico também exigia. Esta será uma questão importante para o volume 3. Para já, voltamo-nos para a razão pela qual a necessidade e a aprioridade eram importantes para os empiristas lógicos.

2. A importância doutrinal de explicar a necessidade e a aprioridade linguisticamente

Apesar de tradicionalmente muitos filósofos terem distinguido entre frases analíticas e sintéticas, nem todos consideravam que a distinção analítico/sintético coincidia com as distinções necessário/contingente e a priori/a posteriori. Uma verdade necessária é uma frase que é verdadeira, e não poderia ser outra coisa. Se uma frase é necessária, então para qualquer estado possível w em que esteja o universo, se o universo estiver (ou tivesse estado) no estado w, então a frase será (ou teria sido) verdadeira. Na peugada de Wittgenstein, os empiristas lógicos sustentavam que todas as verdades necessárias são analíticas, e que o significado era a fonte da necessidade. O fundamento tractariano desta ideia estava na ideia de Wittgenstein de que o fenómeno de uma frase dizer algo, fornecer informação, é o fenómeno de a sua verdade excluir certos estados possíveis em que o mundo poderia estar. Dado que as verdades necessárias não fazem isso, não dizem coisa alguma; e dado que não dizem coisa alguma sobre o modo como é o mundo, o modo como é o mundo não contribui para que a frase seja verdadeira. Logo, pensava-se, a sua verdade tem de ser devida exclusivamente ao seu significado.

Como se explicou nas discussões de Carnap (1930/31, 1932, 1934) e Hahn (1933) no capítulo 7, havia empiristas lógicos importantes que aceitavam este raciocínio tractariano. E invocavam também uma ideia relacionada. Sendo empiristas, acreditavam que todo o conhecimento sobre o mundo exige justificação empírica baseada na observação e na experiência sensorial. Porque as verdades a priori podem ser conhecidas sem essa justificação, segue-se que têm de não ser acerca do mundo. Assim, concluíam os empiristas lógicos, o mundo tem de não desempenhar qualquer papel na determinação da verdade destas frases. Ao invés, a sua verdade tem de se dever exclusivamente ao seu significado. Em suma, o raciocínio tractariano identificava o necessário com o analítico, ao passo que o raciocínio dos empiristas lógicos identificava o a priori com o analítico.17 Em teoria, estas poderiam ter dado origem a duas identificações diferentes, mas na prática não o fizeram. Não havia discordância entre Wittgenstein e os empiristas lógicos neste ponto porque ambos identificavam a necessidade com a aprioridade. Para estes filósofos, o necessário, o a priori e o analítico eram uma só coisa.

A isto acrescentaram os empiristas lógicos uma tese de prioridade explicativa. A razão da necessidade ou aprioridade de qualquer frase encontra-se na sua analiticidade. Da maneira como eles viam as coisas, não se explica o que é a necessidade, como podemos saber que uma verdade qualquer é necessária, ou como o nosso conhecimento de qualquer verdade necessária pode ser a priori, sem apelar à noção de verdade em virtude do significado. Considere-se o nosso conhecimento de que certas verdades são necessárias. Os empiristas lógicos pensavam que sem apelar à analiticidade não se poderia dar sentido à ideia de saber que algo é não apenas verdadeiro, mas que teria sido verdadeiro independentemente do estado possível em que o mundo estivesse. Certamente que não examinamos todos os estados possíveis do mundo, pensavam eles, para avaliar a frase relativamente a cada um deles, um por um. Se, por outro lado, a verdade de uma frase, for garantida exclusivamente pelo seu significado, então ao saber qual é o seu significado sabemos, ou estamos em posição de saber, que terá de ser verdadeira, seja qual for o estado em que o mundo possa estar. Logo, o conhecimento do significado explica o conhecimento da necessidade.

Os empiristas lógicos faziam afirmações semelhantes acerca do conhecimento a priori. Segundo eles, se p é necessária, então p é conhecível a priori, e portanto conhecível independentemente de qualquer possível confirmação ou infirmação pela experiência. Mas, perguntavam-se estes filósofos, como pode qualquer conhecimento ser independente da experiência? Ayer levanta esta questão no início do capítulo 4 de Linguagem, Verdade e Lógica:

Tendo admitido que somos empiristas, temos agora de lidar com a objecção que é costume levantar contra todas as formas de empirismo; nomeadamente, a objecção de que é impossível com base em princípios empiristas dar conta do nosso conhecimento das verdades necessárias. Pois, como Hume mostrou conclusivamente, nenhuma proposição geral, cuja validade seja sujeita ao teste da experiência real, pode alguma vez ser logicamente certa.18

Ao chamar logicamente certa a uma proposição/frase, Ayer está aqui a caracterizá-la como algo que, pela sua própria natureza, só pode ser verdadeiro e, por essa razão, pode-se saber que é verdadeiro sem fazer apelo a factos empíricos como justificação. Em suma, ele está dizendo que nenhuma proposição/frase geral com conteúdo empírico é necessária e conhecível a priori.

Continua ele:

Por mais que seja verificado na prática, persiste a possibilidade de ser refutado numa ocasião futura. O facto de uma lei ter sido substanciada em n-1 casos não dá qualquer garantia lógica de que será substanciada também no enésimo caso, independentemente da dimensão de n. E isto significa que nunca se poderá mostrar que uma proposição geral que se refira a uma questão de facto é necessária e universalmente verdadeira. Na melhor das hipóteses, pode ser uma hipótese provável.19

Ayer contrasta aqui o que é provável com o que é logicamente certo, que ele identifica com o que é necessário e conhecível a priori. Quando ele fala de uma generalização universal que “se refira a uma questão de facto”, quer dizer, penso, uma generalização cuja verdade dependa de alguma questão de facto contingente. O raciocínio é o seguinte: se uma generalização universal faz uma afirmação acerca de como é o mundo efectivamente, então a sua verdade depende da verdade contingente de todos os seus casos. Dado que só pela experiência, cujo curso futuro não podemos conhecer antecipadamente, se pode saber que cada um deles é verdadeiro, a generalização não pode ser conhecida com probabilidade 1, e por isso não pode ser necessária nem conhecível a priori.

Conclui ele:

Tudo isto, como veremos, aplica-se não apenas a proposições gerais, mas a todas as proposições que tenham conteúdo factual. Nenhuma delas pode jamais ser logicamente certa [i.e., necessária e conhecível a priori].20

O ponto de Ayer é que se p for necessária, então é conhecível a priori e portanto não tem conteúdo factual. A sugestão aqui é que se p não tem conteúdo factual, então o mundo não contribui para a sua verdade, caso em que a sua verdade tem de ficar a dever-se exclusivamente ao significado.

Isto torna-se mais claro algumas páginas depois:

Não é preciso dar mais exemplos. Sejam quais forem os casos que se considere, veremos sempre que as situações nas quais um princípio lógico ou matemático poderia parecer ter sido refutado são sempre explicadas de maneira a deixar o princípio intocado. E isto indica que Mill estava enganado ao supor que poderia emergir uma situação que derrubasse uma verdade matemática.21

Em suma, Mill estava enganado ao negar que as proposições da matemática fossem verdades necessárias, a priori.

Os princípios da lógica e da matemática são universalmente verdadeiros simplesmente porque nunca os deixamos ser outra coisa qualquer. E a razão disto é que não podemos abandoná-los sem nos contradizermos, sem pecar contra as regras que regem o uso da linguagem, e por isso sem tornar as nossas elocuções auto-estupidificantes. Por outras palavras, as verdades da lógica e da matemática são proposições analíticas, ou tautologias.22

Segundo Ayer, as verdades necessárias são verdadeiras independentemente do estado em que estiver o mundo porque são verdadeiras em virtude do significado; analogamente, são conhecíveis a priori, sem apelar aos indícios empíricos como justificação, porque este é conhecimento do significado. Não há mistério filosófico no facto de sermos capazes de saber o que decidimos que as nossas palavras querem dizer. E, pensava Ayer e outros empiristas lógicos, certamente que não há mistério na ideia de que a verdade de uma frase pode seguir-se inteiramente das nossas decisões quanto ao significado, e que podemos saber que se segue. Juntando estas duas ideias, eles pensavam que tinham encontrado uma explicação filosófica do nosso conhecimento a priori de verdades necessárias, que sem isso seria problemático.

Apesar de esta perspectiva ter sido, durante décadas, atraente para muitos filósofos, sofria de vários problemas que não eram imediatamente evidentes. Primeiro, limitava-se a dar como garantido algo que agora sabemos que exige defesa — nomeadamente, que todas as verdades necessárias são a priori e que só elas o são. Segundo, a tese do empirismo lógico de que a analiticidade era conceptualmente anterior às noções de necessidade e de aprioridade, e que poderia ser usada para fornecer explicações filosoficamente satisfatórias destas últimas, cavou a sua própria sepultura, e seria mais tarde usada contra ela. Caso se conseguisse mostrar que a concepção de analiticidade do empirismo lógico era problemática — como Quine defenderia convincentemente no artigo “Dois Dogmas do Empirismo” de 1951 — então tanto a necessidade como a aprioridade ficariam ameaçadas, e a estrutura do empirismo lógico ficaria comprometida. Terceiro, os empiristas lógicos subestimaram seriamente as dificuldades conceptuais das suas próprias explicações de todas as modalidades e, em particular, as dificuldades inerentes na tentativa de usar o conhecimento do significado para explicar o conhecimento a priori. Concentrar-me-ei aqui neste terceiro conjunto de problemas.

3. Será que a explicação das modalidades do empirismo lógico se baseia num erro?

3.1. Subestimando as diferenças entre frases e proposições

A analiticidade — a verdade em virtude do significado — é uma propriedade de frases. Se as frases exprimem proposições não-linguísticas, então essas proposições só podem ser analíticas no sentido derivado de serem expressas por frases que o são. Em contraste, quando falamos de verdades necessárias como afirmações ou proposições que são verdadeiras, e teriam sido verdadeiras independentemente do estado possível do mundo em que o universo se encontrasse, não podemos de maneira simples identificar estas afirmações ou proposições com as frases usadas para exprimi-las. Dado que o significado de uma frase é uma característica contingente dela, não há qualquer frase que teria sido verdadeira independentemente do estado do mundo em que o universo se encontrasse, porque se o universo estivesse em alguns desses estados, a frase teria um significado diferente do que efectivamente tem. Uma observação semelhante aplica-se às verdades a priori, concebidas como aquelas cujo conhecimento não exige justificação por meio de indícios empíricos de qualquer género. Dado que o conhecimento do que as frases significam nunca é a priori neste sentido, o conhecimento da sua verdade também nunca é a priori. Assim, o conhecimento a priori de que tal e tal nunca pode ser o conhecimento a priori de que uma frase qualquer é verdadeira.

Isto é prima facie um problema para o empirismo lógico. Se pode ou não ser ultrapassado depende de como se entende as afirmações que atribuem a necessidade e a aprioridade a “frases”. Carnap dá-nos alguma compreensão das suas perspectivas quanto a estas questões na secção V de A Sintaxe Lógica da Linguagem, quando distingue o modo material de falar do formal, recomendando este último para a análise lógica e filosófica. Dado que as afirmações é uma verdade necessária que… e é conhecível a priori que… envolvem o chamado “discurso indirecto”, recorremos à análise de Carnap desse tipo de discurso. Isso envolve a tradução do discurso indirecto, que é uma espécie do modo material, para o “discurso directo”, que é uma espécie do modo formal. Por exemplo, ele traduz 1a para 1c por intermédio de 1b (que está também no modo material).23

1a. O Carlos disse (escreveu, pensou) que o Pedro virá amanhã.
1b. O Carlos proferiu uma frase que significa que o Pedro virá amanhã.
1c. O Carlos proferiu a frase ‘O Pedro virá amanhã’ (ou uma frase que tem esta como consequência).

Acerca disto, diz Carnap:

O uso do modo indirecto de discurso é admitidamente curto e conveniente, mas encerra os mesmos perigos de outras frases no modo material. Por exemplo, a frase 1a, em contraste com a 1c, dá a impressão falsa de que diz respeito ao Pedro, quando na realidade diz respeito apenas ao Carlos e à palavra ‘Pedro’. Quando o modo directo de discurso é usado, não há este perigo.24

A afirmação destacada nesta passagem é notável. Segundo Carnap, 1a dá a falsa impressão de ser acerca do Carlos e do Pedro, quando de facto é acerca do Carlos e do nome ‘Pedro’. Porque Carnap considera que as coisas são assim, pensa que 1c capta o que 1a realmente quer dizer, ao mesmo tempo que evita a falsa sugestão a que 1c dá lugar. Nada poderia estar mais longe da verdade. Primeiro, considere-se uma possibilidade contrafactual na qual as idas e vindas do Pedro, e os pensamentos do Carlos acerca delas, são as mesmas do que as que ocorrem no estado actual do mundo, mas o Pedro — cuja chegada é relatada pelo nosso uso de 1a — chama-se ‘Guilherme’ e ou ninguém se chama ‘Pedro’ ou outra pessoa qualquer tem esse nome. Apesar de a afirmação feita pelo nosso uso actual de 1a ser verdadeira caso essa possibilidade contrafactual se realizasse, a afirmação feita pelo nosso uso actual de 1c seria falsa. Assim, o que é afirmado pelos nossos dois usos é diferente de um modo importante. Segundo, uma pessoa pode saber que a afirmação feita pelo nosso uso de 1a é verdadeira, sem saber que a afirmação feita pelo nosso uso de 1c é verdadeira, e vice-versa. Assim, o que Carnap ofereceu não pode ser uma análise de 1a.

Apesar de a tradução intermédia, 1b, não sofrer de todos os problemas da suposta análise 1c de 1a, partilha alguns deles. Suponha-se que na quarta-feira o Carlos proferiu assertivamente “Ele virá depois de amanhã”, ou “Ele virá na sexta-feira”, usando “ele” para se referir ao Pedro. Então, 1a irá exprimir uma verdade se for proferida na quinta-feira. Em contraste, 1b irá exprimir uma falsidade se for proferida na quinta-feira porque nem a frase “Ele virá depois de amanhã” nem a frase “Ele virá na sexta-feira” significa que o Pedro virá amanhã.25 O que precisamos é de algo como O Carlos usou uma frase para afirmar que o Pedro virá amanhã. Mas isto reconduz-nos ao discurso indirecto.

Considere-se de seguida uma extensão da “análise” de Carnap que traduz relatos como 2a em relatos como 2c:

2a. O Carlos sabe que se o Pedro virá amanhã, então o Pedro virá amanhã.
2b. O Carlos tem justificação para aceitar uma frase que signifique que se o Pedro virá amanhã, então o Pedro virá amanhã.
2c. O Carlos tem justificação para aceitar a frase “se o Pedro virá amanhã, então o Pedro virá amanhã” (ou uma frase que tenha esta como consequência).

Dado que esta “análise” partilha os problemas da anterior, não podemos aceitá-la. Contudo, quem a aceitasse consideraria naturalmente que o conhecimento do significado da frase ‘se o Pedro virá amanhã, então o Pedro virá amanhã’ — i.e., o conhecimento das convenções semânticas carnapianas que a regem — justificaria a sua aceitação. Daqui é um pequeno passo em direcção à teoria linguística do a priori. Só falta considerar que o conhecimento a priori é conhecimento justificado exclusivamente em virtude da compreensão das frases, e considerar que frases como 3c são “análises” de frases como 3a:

3a. O Carlos sabe a priori que se o Pedro virá amanhã, então o Pedro virá amanhã.
3b. O Carlos tem justificação para aceitar uma frase que signifique que se o Pedro virá amanhã, então o Pedro virá amanhã, simplesmente por compreender o seu significado.
3c. O Carlos tem justificação para aceitar a frase “se o Pedro virá amanhã, então o Pedro virá amanhã” simplesmente por compreender o seu significado (ou por compreender uma frase que tem esta como consequência).

Com isto vemos uma linha de pensamento que poderá ter feito a teoria linguística do a priori parecer plausível a Carnap e a outros empiristas lógicos. Contudo, vemos também que se isto, ou algo como isto, era a base da doutrina, então a teoria linguística do a priori repousa sobre dois erros — uma análise deficiente de relatos de discurso indirecto, e a substituição da concepção tradicional da aprioridade como aquele conhecimento que não exige justificação por meio de indícios empíricos por o que se tem justificação para aceitar simplesmente porque o compreendemos.

3.2. Uma rota alternativa para a teoria linguística do a priori?

Para fazer arrancar a teoria linguística do a priori, sem cometer os erros indicados, tem de se reconhecer que quando se diz que é necessário, e conhecível a priori, que todos os quadrados são rectângulos, o que se diz que é necessário e conhecível a priori não é a frase “Todos os quadrados são rectângulos”, nem qualquer outra. O desafio é explicar como, vistas as coisas desta maneira, se passa supostamente da afirmação de que S é analítica para a afirmação ⌈é necessário/conhecível a priori que S⌉. Nesta secção, apresento um argumento que, ainda que não seja bem-sucedido, não é evidentemente absurdo. Devido a isto, esse argumento, ou algo como ele, pode fornecer uma explicação parcial da razão pela qual a doutrina pareceu atraente durante tanto tempo. O que se aprende acerca das modalidades ao identificar as dificuldades do argumento será também importante.

Para começar, seja S uma verdade analítica que exprime uma proposição p.

i) Visto que S é analítica, um agente pode saber que S exprime uma verdade ao aprender o seu significado.
ii) O agente irá desse modo conhecer a afirmação metalinguística q — que S exprime uma verdade — com base nos indícios I fornecidos pela experiência do agente ao aprender o significado de S.
iii) Dado que o agente passou a compreender S, também sabe, com base em I, que S exprime p (e só p).
iv) Combinando ii e iii, o agente saberá desse modo, com base em I, que p é verdadeira. Dado que p se segue desta afirmação, o agente estará em posição de vir a conhecer p.
v) Contudo, a afirmação que I justifica — excluindo possibilidades nas quais é falsa — não é p, mas sim q.
vi) Dado que p pode ser conhecida sem indícios que justifiquem a exclusão de possibilidades nas quais é falsa, é necessário que essas possibilidades não existam.
vii) Assim, se S é analítica, p tem de ser necessária e (dado este raciocínio) susceptível de se saber que o é; p é também conhecível a priori, dado que o conhecimento de p não exige indícios que justifiquem p.

Ainda que uma pessoa possa ser enganada com este raciocínio, se for deixado implícito, os seus problemas — à parte i, que aceitamos aqui para efeitos de discussão — podem ser claramente identificados.26 A dificuldade mais óbvia diz respeito ao conhecimento de p alcançado no passo iv. Qualquer agente que venha a conhecer p por esta rota irá conhecer p a posteriori — ou seja, apelando aos indícios empíricos I usados nos passos ii e iii para justificar as conclusões do agente. É importante darmo-nos conta de que nesse caso o conhecimento que o agente realmente tem de p será a posteriori, quer p seja conhecível a priori quer não.

Pior: p só será conhecível a priori se houver uma rota diferente, não-empírica, para tal conhecimento. Isto compromete o objectivo da teoria linguística. Pois se há outra maneira de passar a conhecer p, independente do nosso conhecimento da linguagem ou de quaisquer outras verdades empíricas, então o facto de p ser expresso por uma frase analítica não desempenha qualquer papel na explicação da aprioridade de p. Tendo isto em mente, poder-se-ia conceder que o conhecimento de p que um agente tem poderia vir pela uma rota empírica esboçada nos passos i–iv. Nesse caso, o agente conheceria p a posteriori apesar de p poder ser também conhecida a priori. Ainda que esta imagem do conhecimento a priori de uma verdade por esta rota linguística a posteriori explique parcialmente o apelo da teoria linguística do a priori, não contribui de modo algum para vindicá-la.

Isto significa que mesmo que existam frases analíticas, no sentido em que os empiristas lógicos entendiam essa noção, não temos ainda maneira alguma de usar tais frases para explicar qualquer caso de conhecimento a priori — para não falar de todo. Ora, repare-se que o raciocínio descrito no argumento pelo qual um agente passa a conhecer tanto p como a sua necessidade exige que o agente use conhecimento lógico a priori independente das convenções linguísticas que regem a frase S acerca da qual o agente está a raciocinar. Assim, mesmo que não tivesse quaisquer outros problemas, o argumento pressuporia grande parte do que a teoria linguística se propõe explicar.27 Esta última observação foi o fulcro do artigo de 1936 de W. V. O. Quine, “Verdade por Convenção”, que se tornaria, mais de uma década depois da sua publicação, a crítica historicamente mais influente à teoria linguística do a priori. É o tema da próxima secção.

4. O derrube da teoria linguística do a priori

A teoria linguística do a priori repousava em dois fragmentos de conhecimento que os seus proponentes consideravam não-problemáticos — i) o conhecimento do que decidimos que as nossas palavras significam, e ii) o conhecimento de que a verdade de certas frases se segue das nossas decisões acerca do que as palavras nelas contidas significam. Contudo, há um problema aqui, que se encontra nas palavras segue-se de. É claro que não estipulamos os significados de todas as verdades necessárias/a priori/analíticas individualmente. Ao invés, é imperativo pensar que fazemos algumas estipulações, relativamente poucas, quanto ao significado, e depois retiramos as consequências dessas estipulações quanto à verdade de uma classe indefinida de frases. O que se pretende dizer aqui com consequências? Não são acertos sortudos nem inferências arbitrárias, sem conexão necessária com as suas premissas. Não, por consequências os empiristas lógicos queriam dizer consequências lógicas, conhecíveis a priori que são verdadeiras se as suas premissas o forem também. Mas então andámos em círculos. Segundo estes filósofos, todo o conhecimento a priori de verdades necessárias — incluindo o nosso conhecimento a priori das verdades necessárias da lógica — emerge do nosso conhecimento linguístico das convenções básicas, ou estipulações, que adoptámos para dar significados às nossas palavras. Mas para derivar este conhecimento a priori do nosso conhecimento linguístico, é preciso apelar a um conhecimento anterior da própria lógica. Ou este conhecimento lógico é a priori, ou não. Se for, então algum conhecimento a priori não é explicado linguisticamente; se não o for, então o nosso conhecimento da lógica não é a priori. Em qualquer caso, a teoria linguística do a priori é malsucedida.

Este, em suma, foi um dos argumentos centrais de Quine (1936). Apesar de não ter sido completamente valorizado quando foi publicado, este argumento acabou por se tornar um clássico, e é hoje largamente conhecido pela sua crítica poderosa ao programa de fundamentar o conhecimento a priori no conhecimento do significado. Dado que os problemas com esse programa são ainda mais graves do que por vezes se considera, poderá ser útil ilustrá-los com um exemplo simples.

4a. Para todo o x, se x for quadrado, então x é um rectângulo com quatro lados iguais.

Suponha-se que a palavra quadrado quer dizer o mesmo que a expressão rectângulo com quatro lados iguais. Então, a frase 4a é sinónima de 4b e exprime a mesma proposição.

4b. Para todo o x, se x é um rectângulo com quatro lados iguais, então x é um rectângulo com quatro lados iguais.

De seguida, distinguimos duas perguntas.

P1. Como sabemos que 4a é uma frase verdadeira em português?
P2. Como sabemos que para todo o x, se x é um quadrado, então x é um rectângulo com quatro lados iguais?

Estas perguntas são diferentes. O conhecimento em questão na pergunta P2 pode ser obtido por alguém que nada sabe da língua portuguesa, ao passo que o conhecimento em questão na pergunta P1 é conhecimento de um certo facto acerca do português. Além disso, o conhecimento de que 4a é uma frase verdadeira do português não é a priori, nem é conhecimento de uma verdade necessária. Ao invés, trata-se de conhecimento empírico comum de um facto contingente acerca da nossa linguagem — algo que se aprende quando uma pessoa se torna alguém que fala proficientemente. Em contraste, o nosso conhecimento de que se algo é um quadrado, então é um rectângulo com quatro lados iguais é conhecimento a priori de uma verdade genuinamente necessária.

Pergunte-se de seguida que papel desempenha o conhecimento do significado ao responder a P1 e P2, se é que desempenha algum papel. Considere-se primeiro P1. Se alguém sabe que quadrado significa o mesmo que rectângulo com quatro lados iguais, então podemos supor que ele ou ela sabe que 4a significa o mesmo que 4b, e portanto que 4a é verdadeira, se 4b o for. Mas como determina tal pessoa que 4b é verdadeira? Bem, poder-se-ia argumentar, 4b tem a forma se p, então p, e certamente que qualquer pessoa que conheça o significado de se, então sabe que qualquer frase desta forma é verdadeira. Mas o que é exactamente saber o significado de se, então, e como é este conhecimento usado para determinar que todas as frases da forma se p, então p são verdadeiras? Aqui, a tentativa de usar o conhecimento do significado para responder a P1 vai dar à questão de como o conhecimento dos significados dos operadores lógicos explica, se é que explica, o conhecimento de quais são as frases que são logicamente garantidas como verdadeiras.

Considere-se de seguida P2. Podemos considerar que os nossos pressupostos sobre o significado dão o resultado de que a proposição de que para todo o x, se x for um quadrado, então x é um rectângulo com quatro lados iguais é idêntica à proposição de que para todo o x, se x for um rectângulo com quatro lados iguais, então x é um rectângulo com quatro lados iguais. Dado que saber que tal-e-tal é apenas ter a relação de conhecimento com a proposição de que tal-e-tal, segue-se que o nosso conhecimento de que para todo o x, se x for um quadrado, então x é um rectângulo com quatro lados iguais é simplesmente o nosso conhecimento de que para todo o x, se x for um rectângulo com quatro lados iguais, então x é um rectângulo com quatro lados iguais. Mas então como sabemos isso? Bem, poder-se-ia defender, sabê-lo é apenas conhecer a proposição expressa por uma verdade lógica da forma se p, então p e, sem dúvida, qualquer pessoa que conheça o significado de se, então, além do significado da frase que “p” substitui, saberá que essa proposição é verdadeira. Podemos perguntar uma vez mais: o que é exactamente conhecer este significado, e como se usa este conhecimento para obter o resultado desejado? Aqui, a nossa tentativa de usar o conhecimento do significado para responder a P2 vai dar à questão de como o conhecimento dos significados dos operadores lógicos explica o nosso conhecimento das proposições expressas por frases logicamente verdadeiras, se é que o explica.

Perante estas questões, a jogada habitual do defensor da teoria linguística do a priori era afirmar i) que a lógica é verdadeira por convenção, e portanto analítica, e ii) que, portanto, o conhecimento da verdade lógica não é senão conhecimento do significado. (E o mesmo se dirá do conhecimento de que certas inferências preservam a verdade.) Mas estes pontos estão longe de ser evidentes, o que se vê se tivermos em consideração o seguinte cenário: suponha-se que eu introduzia uma linguagem lógica simples L fazendo a lista de alguns dos predicados e nomes usados para formar frases atómicas, além das constantes lógicas ‘&’, ‘∨’, ‘→’, ‘ e ‘∀’, e as variáveis ‘x’, ‘y’, etc. Imagine-se que o leitor já compreende os nomes e os predicados, mas que os símbolos lógicos são para si uma novidade. De seguida, eu atribuo significado aos símbolos lógicos fazendo uma estipulação complicada do seguinte género: os símbolos de L significam seja o que for que tiverem de significar para tornar verdadeiras todas as frases das formas seguintes:

Os pormenores da estipulação não são importantes. A ideia é fazer uma estipulação que só possa ser satisfeita se a ‘~’, ‘&’, ‘∀x’ e a todos os outros operadores lógicos forem atribuídas interpretações que assegurem que todas as frases de L que são canonicamente classificadas como logicamente verdadeiras, e só elas, sejam garantidamente verdadeiras em virtude dos significados dos operadores lógicos. Suponha-se, para efeitos de discussão, que isto é possível. Se algum grupo ou comunidade decidir adoptar tal estipulação como convenção linguística que reja o uso que fazem de L, então seria natural caracterizar as verdades lógicas de L como frases que são verdadeiras por convenção e, portanto, analíticas.

Em qualquer caso, assim se poderia pensar; e, até agora, nada se encontrou que objectasse a essa ideia. Mas isto não é o fim da questão. E quanto ao i) conhecimento de quais são as frases de L que são verdadeiras por convenção, e ao ii) conhecimento das proposições expressas por essas verdades? Quanto a i, considere-se a frase 4c de L, que é uma contraparte do português 4b:

4c. ∀x (x é um rectângulo com quatro lados iguais → x é um rectângulo com quatro lados iguais)

Para estabelecer que esta frase é verdadeira por convenção, poder-se-ia raciocinar como se segue:

P1. Todas as frases de L da forma ∀x (Ax → Ax) são estipuladas como verdadeiras, e por isso são verdadeiras por convenção.
P2. 4c é uma frase de L da forma ∀x (Ax → Ax).
C. Logo, a frase 4c é verdadeira por convenção.

Argumentos semelhantes poderiam ser avançados para as outras verdades lógicas de L.

Apesar de nada haver de errado com estes argumentos, cada um deles pressupõe um certo facto lógico. Cada argumento tem a forma seguinte:

P1. Todos os F são G (Todas as frases da forma tal-e-tal são verdadeiras).
P2. n é um F (n é uma frase de tal-e-tal forma).
C. Logo, n é G (A frase n é verdadeira).

Para reconhecer que as premissas de um argumento justificam a conclusão de que uma certa frase de L é verdadeira, essa pessoa tem de reconhecer que se todos os F são G, e n é um F, então n é um G.28 Este conhecimento não é explicado pelo conhecimento de quaisquer estipulações acerca de L; ao invés, é pressuposto quando se usa o conhecimento das estipulações para chegar ao conhecimento de quais são as frases de L que são verdadeiras. Consequentemente, apesar de 4c poder ser encarada como uma frase de L que é verdadeira por convenção, e apesar de se poder chegar ao conhecimento de que é verdadeira aprendendo as convenções linguísticas de L, só se consegue fazê-lo caso se tenha conhecimento prévio da verdade das proposições expressas pelas verdades lógicas da forma se todos os F são G e n é um F, então n é um G. Este é precisamente o tipo de conhecimento a priori genuíno de verdades necessárias para o qual os empiristas lógicos tinham prometido uma explicação. O que vimos é que ao apelar às convenções linguísticas de L, não conseguiram fornecê-la.

Poder-se-ia insistir no mesmo ponto dando atenção às frases do português que são verdades lógicas, e às proposições que expressam. A única diferença é que agora torna-se ainda mais difícil para os defensores da teoria linguística do a priori defender a sua posição. Ao introduzir constantes lógicas numa nova linguagem L por estipulação, nada me impediu de exprimir a estipulação usando expressões previamente compreendidas do português, incluindo termos lógicos como todo. Contudo, se tentarmos imaginar que todos os termos lógicos do português adquirem o seu significado por estipulação, ficamos sem saber como compreender como tais estipulações poderiam ser expressas. Assim, é mais difícil compreender em que sentido as verdades lógicas do português poderiam desde o início ser verdadeiras por convenção.

Talvez esta última dificuldade não seja insuperável. Talvez os locutores tenham algumas crenças e intenções independentes de qualquer capacidade para as exprimir na linguagem. Talvez algumas dessas crenças e intenções independentes da linguagem sejam acerca do uso de expressões, e dos significados que os locutores tencionam atribuir-lhes. Nesse caso, poder-se-ia defender que essas crenças e intenções têm o efeito de estipulações semânticas, ainda que não sejam publicamente expressas numa linguagem. Nesse caso, poder-se-ia então defender que as palavras lógicas, por exemplo, ganham o seu significado por meio de tais estipulações reais mas não-expressas, caso em que se poderia sustentar que as verdades lógicas do português e de outras linguagens naturais são verdadeiras por convenção num certo sentido alargado.

Mas mesmo que as coisas fossem assim, o conhecimento do locutor de que certas frases são verdadeiras (ou verdadeiras por estipulação) continuaria a pressupor conhecimento anterior, a priori, de factos lógicos — i.e., conhecimento a priori de certas proposições (necessariamente verdadeiras) expressas pelas frases logicamente verdadeiras. Dado que isto é precisamente o género de conhecimento que os proponentes da teoria linguística do a priori estavam tentando explicar, é difícil ver como poderiam ser bem-sucedidos. Pondo isto em termos de respostas às nossas perguntas ilustrativas P1 e P2, vemos que apesar de estes filósofos terem razão ao pensar que o conhecimento do significado pode desempenhar um papel quando se responde a P1, não foram bem-sucedidos quando tentaram mostrar que tal conhecimento é suficiente por si próprio (sem apelar a conhecimento prévio de factos lógicos) para responder a P1; nem conseguiram mostrar que esse conhecimento dá alguma contribuição para responder a P2.

Por todas estas razões, o programa para explicar o conhecimento a priori apelando à analiticidade e a convenções linguísticas não foi bem-sucedido. Apesar dos argumentos de Quine em “Verdade por Convenção”, isto não foi amplamente reconhecido até ele ter revisitado o tópico da analiticidade muitos anos depois em “Dois Dogmas do Empirismo”, publicado em 1951.29 Por essa altura, dificuldades insuperáveis com o critério empirista do significado tinham tornado óbvio que havia dificuldades intratáveis no centro da perspectiva filosófica dos empiristas lógicos.

Scott Soames
The Analytic Tradition in Philosophy, Volume 2: A New Vision (Princeton: Princeton University Press, 2018), pp. 288–310.

Referências

Notas

  1. Ayer (1936 [1946]), p. 57. ↩︎

  2. Ibid., p. 57. ↩︎

  3. Ibid., pp. 57–58. ↩︎

  4. Ibid., p. 58. ↩︎

  5. Veja-se Soames (2014), capítulos 11 e 12, para uma explicação e crítica desta doutrina. ↩︎

  6. Ayer (1936 [1946]), p. 58. ↩︎

  7. Ibid., pp. 61–62. ↩︎

  8. Ibid., pp. 69–70. ↩︎

  9. Ibid., p. 70. ↩︎

  10. Ibid., p. 70. ↩︎

  11. Ibid., p. 70. ↩︎

  12. Carnap (1934a), e (1937), p. 292. ↩︎

  13. Carnap (1934a), e (1937), p. xiii. ↩︎

  14. Ibid., p. xv, itálicos meus. ↩︎

  15. Veja-se Carnap (1942), secções 14–16. ↩︎

  16. Russell (2008). ↩︎

  17. Veja-se o capítulo 4 de Linguagem, Verdade e Lógica (Ayer 1936 [1946], que é apropriadamente intitulado “O A Priori”. ↩︎

  18. Ayer (1936 [1946], p. 72. ↩︎

  19. Ibid., p. 72, itálicos meus. ↩︎

  20. Ibid., p. 72, itálicos meus. ↩︎

  21. Ibid., p. 77. ↩︎

  22. Ibid., p. 77, itálicos meus. ↩︎

  23. Carnap (1934a) e (1937), p. 292. ↩︎

  24. Carnap (1937), p. 292, itálicos meus. ↩︎

  25. Apesar de os usos das frases com indexicais exprimirem diferentes proposições em diferentes contextos de elocução, os significados linguísticos das frases não mudam de um contexto para o outro. ↩︎

  26. Veja-se os capítulos 3 e 4 de Williamson (2008) para um catálogo de reticências bem vistas quanto a i. ↩︎

  27. Além disso, vi entra em conflito com o contingente a priori. ↩︎

  28. O ponto aqui não é, evidentemente, que para chegar à conclusão a pessoa precisa da afirmação de que se todos os F são G e n é um F, então n é um G, afirmação esta que seria uma premissa adicional. (Sabemos a partir de Lewis Carroll que as coisas não são assim.) O ponto é i) para que ela conheça a conclusão com base no conhecimento das premissas, tem de reconhecer que o argumento justifica a conclusão, e ii) que esse reconhecimento equivale a saber que se todos os F são G e se n é um F, então n é um G. ↩︎

  29. Quem era o alvo principal da crítica de Quine (1936)? Até recentemente, Carnap era a escolha consensual. Isto é contestado por Ebbs (2011), que sustenta que Carnap não era um dos alvos. Apesar de não pensar que ele tem razão, fui persuadido por estudos mais recentes de que o alvo imediato de Quine era uma perspectiva expressa pelo seu colega de Harvard C. I. Lewis em Mind and the World Order (1929). Dito isto, há ainda razão para pensar que Quine considerava correctamente que a sua crítica se aplicava também a Carnap. ↩︎