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27 de Julho de 2015   Filosofia da religião

Há boas razões para acreditar que Deus existe?

Howard Kahane
Tradução de Júlio Sameiro

É racional acreditar na existência do Deus comum? Poderá apresentar-se uma boa razão ou um argumento irresistível a favor da sua existência? Alguns teístas dizem que não e baseiam a sua crença na fé, ou seja, acreditam sem provas ou razões. Outros teístas, pelo contrário, pensam que se podem construir argumentos para provar que o Deus comum existe.

De facto, muitas espécies de razões foram apresentadas para acreditar em Deus (e as mesmas razões foram expostas para acreditar em deuses diferentes e incompatíveis). Algumas razões são facilmente classificadas de insatisfatórias. Por exemplo, o argumento de que Deus tem de existir porque em quase todas as sociedades as pessoas acreditam nele. A aceitação generalizada de uma crença não é, decerto, uma boa razão para a aceitar. Muitas crenças falsas são ou foram quase universais (por exemplo, a de que a Terra é plana). Mais ainda, apesar de a crença num deus ou noutro ser quase universal, não há um deus em que a maioria das pessoas acredite. Como poderia, por exemplo, o facto de algumas pessoas acreditarem num deus-crocodilo justificar a crença no Deus cristão? (Recorde-se que a grande maioria dos crentes não acredita no Deus cristão)

Falta de razões para acreditar no contrário

Alguns crentes, vendo que os agnósticos afirmam que não podemos provar que Deus não existe, seguem outra via. Argumentam que se não podemos provar que Deus não existe, então eles estão autorizados a acreditar que existe. Mas os ateus podem virar este argumento do avesso. Podem fazer notar que os agnósticos também afirmam que nós não podemos provar que Deus existe. Logo, se não podemos provar que Deus existe, estamos igualmente autorizados a acreditar que não existe. Um método de raciocínio que nos permite “provar” ambos os lados de uma disputa, não prova qualquer um deles. A ausência de prova do contrário não é uma boa razão para acreditar em alguma coisa.

Argumentos cosmológicos

Vários argumentos estreitamente relacionados para a existência de Deus baseiam-se na aparente necessidade de o universo como um todo ter uma causa. Parecem existir três possibilidades. Ou o universo começou a existir por si ou existiu desde sempre ou, então, foi trazido para a existência por alguma força ou ser extremamente poderoso. Geralmente, aqueles que acreditam em Deus acham incrível que o universo possa ter chegado à existência apenas por si e igualmente incrível que possa ter já existido durante uma quantidade infinita de tempo. Acreditam que um ser extremamente poderoso, Deus, o deve ter criado. Esta é uma das razões que as pessoas dão com mais frequência para acreditar em Deus.

Os argumentos que tentam provar que tem de haver um Deus porque tem de haver um criador do universo são chamados de provas cosmológicas da existência de Deus. Em geral são argumentos que tentam provar que tem de haver uma “primeira causa” de todo o universo — nomeadamente, Deus.

O Argumento da Primeira Causa

Os argumentos da primeira causa resultam das nossas observações quotidianas das causas que estão na origem das coisas ou acontecimentos da vida de todos os dias. Observamos, por exemplo, que pôr açúcar na chávena do café causa a doçura do seu gosto, que pôr água na planta causa o seu crescimento e que riscar um fósforo na presença de oxigénio o faz arder. No entanto, parece impossível explicar a existência de tudo em termos de causa e efeito, porque isso significaria que deveria haver uma série infinita (ou sem fim) de causas, o que parece impossível.

Eis uma maneira pela qual estas ideias têm sido usadas para argumentar a favor da existência de Deus:

  1. Na vida de todos os dias, descobrimos que tanto os objectos como os acontecimentos são causados por outros (tal como o crescimento das plantas é provocado pela absorção de nutrientes).
  2. Mas uma série infinita de causas desse tipo é impossível porque então não haveria uma primeira causa, e, portanto, não haveria uma segunda, terceira, etc.
  3. ∴ Logo, tem de haver uma primeira causa: Deus.1

Objecções ao argumento da Causa Primeira

Em termos aproximados, podemos dizer que um argumento só é conclusivo (deve persuadir-nos a aceitar a respectiva conclusão) se satisfizer duas condições:2

  1. As suas premissas são aceitáveis ou estão justificadas.
  2. As suas premissas (justificadas) fornecem provas ou razões suficientes para justificar a aceitação da conclusão (neste caso o argumento é considerado válido).

Muitas pessoas que rejeitam o argumento da primeira causa acreditam que argumentos deste tipo (com frequência chamados de metafísicos — ver Capítulo 6 para mais sobre a metafísica) sofrem todos de um de dois defeitos: ou as suas premissas são tão inaceitáveis ou questionáveis quanto as suas conclusões; ou as respectivas conclusões não se seguem validamente das premissas. Por exemplo, uma objecção levantada contra o argumento da primeira causa é o de que a segunda premissa não é aceitável (quase todas as pessoas aceitam a sua primeira premissa). Os matemáticos em particular têm argumentado a favor da possibilidade de séries infinitas de eventos ou causas em termos técnicos e alguns filósofos têm aceitado o seu raciocínio.3

Suponhamos, no entanto, que rejeitamos a ideia de que pode haver uma série infinita de causas, de tal modo que ambas as premissas do argumento da causa primeira se tornam aceitáveis. Apesar disso, o argumento não seria ainda válido e, portanto, a aceitação da sua conclusão também não se justificaria.

Em primeiro lugar, o argumento apenas provaria que cada série de causas tem uma causa primeira ou incausada, mas não prova que todas as causas sejam parte de uma série única de causas que tenha a única primeira causa, porque é possível que nem todas as causas sejam partes de uma série única de causas. Por outras palavras, o argumento provaria que há uma ou mais causas primeiras, mas não que exista apenas uma.

Em segundo lugar, apenas provaria, no melhor dos casos, que a primeira causa existe, não que essa primeira causa seja Deus. Em vez disso, a primeira causa poderia ter sido o Diabo (um candidato plausível, dada a natureza do universo). E mesmo que o argumento tivesse provado que a primeira causa tinha de ser um deus, não provaria que ele tivesse de ser o seu Deus (se for um crente) ou um deus que encaixasse na imagem comum que os cristãos, judeus ou muçulmanos têm de Deus. Poderia ser qualquer um dos milhares de deuses diferentes em que os seres humanos acreditam ou, talvez, um deus em que os seres humanos nunca tenham pensado. De facto, o argumento da primeira causa abre a possibilidade de que tenha existido um Deus que criou o universo (ou talvez muitos deuses), mas que agora Deus está morto.

Qual é a causa da existência de Deus?

Além das duas objecções que acabámos de levantar contra o argumento da primeira causa, há uma objecção geral a todas as espécies de provas cosmológicas da existência de Deus. Lembremos que a força do argumento cosmológico reside na ideia de que não é plausível pensar que o universo tenha começado a existir apenas por si mesmo. Por outras palavras, parece a muitos crentes que uma coisa tão grandiosa como o universo requer, como seu criador, um ser que seja pelo menos tão grandioso.

Mas esta linha de raciocínio põe-nos em apuros. Se um universo requer um deus para explicar a sua existência, o que explica a existência do próprio Deus? Da mesma maneira, ou Deus existiu desde sempre ou apenas apareceu ou então deve ter tido uma causa. No entanto, é tão implausível pensar que Deus sempre existiu ou que tenha simplesmente surgido, como pensar que também foi assim com o universo. O próprio raciocínio que nos leva a propor um deus como causa do universo deve levar-nos a propor um supradeus como causa de Deus. E, claro, o supradeus também precisa de uma causa, o suprasupradeus e assim infinitamente.

Portanto, sejam quais forem as voltas que dermos, o que obtemos no fim é igualmente implausível. É tão implausível um deus incausado como um universo incausado, e é tão incrível uma série infinita de causas como uma série infinita de deuses.

Em resumo, podemos questionar as provas cosmológicas da existência de Deus de, pelo menos, três maneiras importantes. Primeiro, podemos questionar a ideia de que uma série infinita de causas não seja possível. Segundo, podemos questionar a validade da conclusão de que há apenas uma primeira causa e de que a primeira causa seja Deus. Terceiro, podemos defender que qualquer deus proposto como primeira causa para explicar o universo precisa tanto de uma causa como o próprio universo e, assim, o argumento, se provar a existência de um deus, provará a existência de uma série infinita de deuses.

Os argumentos cosmológicos tentam explicar a existência do universo postulando um criador. Outros argumentos concluem por um deus, não para explicar o universo como um todo mas apenas para explicar alguns dos seus aspectos, tais como a existência do bem ou o facto de o universo ser ordenado em vez de ser caótico.

O argumento do Desígnio

O Argumento do Desígnio (também conhecido como Argumento Teleológico) parte do facto de que o universo comporta toda a espécie de padrões ou de regularidades, tão diferentes como os intrincados padrões dos flocos de neve, a lei da atracção universal e a maravilhosa complexidade do corpo humano. Algumas espécies de ordem (como, por exemplo, a ordem num mecanismo de um relógio de pulso ou na construção de uma represa por um castor) são explicadas pelo homem ou por outros animais. Mas muitas regularidades não podem ser explicadas dessa maneira; por exemplo, a ordem dos cristais ou a constância do ponto de fusão de cada uma das diferentes espécies de elementos. O argumento do desígnio postula um deus para explicar essas espécies de ordem que não são explicadas de outra maneira. Eis uma versão do argumento do desígnio:

  1. Há ordem no universo.
  2. Mas a ordem não pode existir sem desígnio. (Isto é, sem um projectista).
  3. ∴ Logo, tem de haver um projectista: Deus.

A força psicológica e apelativa do argumento é óbvia. A estonteante e maravilhosa complexidade de algo como o corpo humano parece exigir um projectista — um ser que calculou como funcionaria e depois o compôs. Nem a teoria da evolução satisfaz esta necessidade, dado que os detalhes de tais teorias dependem de leis da física e da química que, elas mesmas, exibem maravilhosas regularidades. No entanto, o argumento tem deficiências sérias ou mesmo fatais.

Objecções ao Argumento do Desígnio

A objecção mais óbvia é a de que, no melhor dos casos, o argumento do desígnio apenas prova que há um projectista e não um Deus comum, tal como o argumento da causa primeira apenas provaria que há uma primeira causa. O projectista, claro, não precisa de ser um Deus comum; poderia muito bem ser o diabo, muitos deuses, outro deus ou, talvez, um deus já morto. Mas o argumento do desígnio nem sequer prova tanto porque a sua segunda premissa (a de que a ordem não poderia existir sem um ordenador) é duvidosa, para não dizer pior. Porquê assumir que a ordem não pode existir sem um organizador?

Afirma-se muitas vezes que podemos justificar a existência de um projectista por um método chamado indução. (Mais será dito sobre a indução no capítulo 3.) Verifica-se que muitas coisas que manifestam ordem (relógios de pulso, por exemplo) foram deliberadamente compostas por projectistas humanos ou animais. Já vimos muitos relógios que sabemos que são projectados por humanos mas nunca vimos um que, sendo investigado, provasse não ter sido projectado desse modo. Portanto, se agora descobrirmos um relógio de pulso na areia de uma praia deserta, pressupomos (por indução) que também foi projectado por humanos.

Os flocos de neve, as leis da natureza e o corpo humano manifestam ordem (apesar de, claro, nunca termos visto um projectista, humano ou não, a projectá-los). Sabemos, claro, que os seres humanos (ou noutros animais) não podem tê-los ordenado, pelo que concluímos, por indução, algum organizador não-animal, nomeadamente Deus, deve tê-los feito assim.

Mas esta conclusão não está justificada. Quando concluímos por indução que o relógio de pulso encontrado na areia não se ajeitou sozinho ou que não apareceu completo por acidente, e que, portanto, teve de ter sido projectado por seres humanos, estamos seguros. O nosso argumento assemelha-se a isto:

  1. Já foram observados muitos relógios de pulso, e todos os que foram examinados foram projectados por humanos.
  2. ∴ Este relógio teve de ter sido projectado por seres humanos.

Podemos, inclusive, argumentar em termos mais gerais e, portanto, de uma maneira mais poderosa, assim:

  1. Muitos dispositivos mecânicos foram já observados, e de todos os que foram examinados se concluiu que foram projectados por humanos.
  2. ∴ Este dispositivo mecânico (que, por acaso, é um relógio de pulso) teve de ter sido projectado por seres humanos.

Veja-se agora quão mais geral um argumento teria de ser para nos levar até um projectista de flocos de neve, leis da natureza ou seres humanos:

  1. Muitas das coisas organizadas têm sido observadas e de todas as que foram examinadas se concluiu que foram projectadas por humanos.
  2. ∴ Esta coisa organizada (que, por acaso, é um floco de neve, uma lei da natureza ou um ser humano) teve de ter sido projectada por um projectista.

O argumento é claramente defeituoso porque a sua premissa é obviamente falsa. Há um grande número de coisas ordenadas para as quais não descobrimos um projectista ou um organizador — flocos de neve, arco-íris, cristais e seres humanos são algumas delas. (Se há um deus que projectou todas essas coisas, então, para observarmos o projectista de flocos de neve a trabalhar, teríamos de apanhar Deus no acto de os moldar a partir de H2O, ou, talvez, de o apanhar no acto de criar as leis da física de que resulta que H2O se compõe a si mesmo em flocos de neve).

O ponto é o de que as coisas que manifestam ordem parecem cair em duas classes distintas: aquelas que nós (ou outros animais) ordenaram; e aquelas que não ordenámos. Já verificámos e encontrámos muitos itens da primeira classe que são projectados por humanos. Mas nunca encontrámos um projectista para um só membro da segunda classe. Portanto, não estamos autorizados a concluir por indução que toda a ordem implica um organizador ou um projectista. Logo, o argumento pelo desígnio não pode ser apoiado pelo raciocínio indutivo. Se estamos prontos para o aceitar, tem de estar a fazê-lo sem razão, isto é, pela fé.

A aposta de Pascal

O grande matemático e filósofo francês, Blaise Pascal (1632–1662), argumentou a favor da existência de Deus de maneira algo diferente:

“Deus existe ou Deus não existe... Que apostarás tu? De acordo com a razão, não poderás fazer nem uma coisa nem outra; de acordo com a razão não poderás defender nenhuma das opções... mas tens de apostar. [E quanto à] tua felicidade? Pesemos ganhos e perdas apostando que Deus existe... Se ganhares (a aposta), ganhas tudo; se perderes, não perdes coisa alguma. Aposta então, sem hesitação, que Ele existe”.4

A base da aposta de Pascal parece ser esta: temos de apostar (acreditar) em que Deus existe ou em que Deus não existe. Se Deus não existe, aquilo em que apostarmos fará pouca diferença. Mas se existir, fazemos um grande negócio. Assim, a pessoa esperta ou sensata apostará (acreditará) que Deus existe.

Objecções à aposta de Pascal

Em primeiro lugar, Pascal está enganado na sua crença de que devemos apostar contra ou a favor da existência de Deus. Podemos optar por permanecer nas margens, como faz o agnóstico. Claro que nesse caso podemos perder o prémio, se houver um prémio, por termos apostado incorrectamente. Mas Pascal não pode provar que há tal prémio.

Em segundo lugar, a aposta não é tão simples como Pascal pensou porque há um número indefinido de possíveis criadores. O Deus cristão comum em quem Pascal apostou é apenas um deles. Assim, o número de possibilidades para apostar é muito maior do que duas e os jogadores racionais não têm a possibilidade de escolher mesmo que queiram escolher um Deus ou outro. Por outras palavras, se a aposta de Pascal faz sentido, será tão razoável apostar num deus-lua ou deus-sol como no Deus judeu, cristão ou muçulmano.

E, finalmente, não há prova ou razão para supor que ganhamos um prémio se apostarmos no Deus que de facto exista. Porque não podemos pressupor sem razões que Deus recompense os crentes ou que puna os descrentes. (De facto, em última análise o próprio Pascal apelou à revelação ou fé). Pelo contrário, as intuições de muitos de nós dizem precisamente o contrário talvez porque quando nos tentamos pôr no lugar de Deus, percebemos que estaríamos inclinados a considerar que a crença baseada na aposta de Pascal é hipócrita. Deus, se existir, pode impressionar-se bem mais com a honestidade daqueles que não conseguiram apostar (acreditar) na ausência de provas do que com aqueles que acreditam porque pensam que é prudente fazê-lo.

Howard Kahane
Thinking About Basic Beliefs (Wadsworth, Belmont, 1983), pp. 3-7 e 10–12.

Notas

  1. O símbolo ∴ é habitualmente usado para indicar que se segue a conclusão. As afirmações que precedem este signo são as premissas do argumento e a afirmação que se lhe segue à a conclusão.
  2. Uma terceira (e discutida) condição, não pertinente neste caso, é a de que devemos usar toda a informação relevante.
  3. Ver, por exemplo, Hans Reichenbach, The Rise of Scientific Philosophy (Berkeley, Calif.: University of California Press, 1951), pp. 207-8.
  4. Blaise Pascal, Pensées, Everyman’s Library (1958).
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ISSN 1749-8457