3 de Fevereiro de 2018 ⋅ Ética

Levar (a ética de) o humor a sério, mas não demasiado

David Benatar
Tradução de Hélio S. C. Carneiro

O humor merece consideração moral séria. No entanto, é muito frequentemente levado demasiado a sério. Neste artigo defende-se que, embora seja por vezes anti-ético, o humor é muito menos frequentemente errado do que muitas pessoas pensam. As críticas não-contextuais, que afirmam que certos tipos de humor são sempre errados, serão rejeitadas. As críticas contextuais, que identificam problemas com casos particulares de humor, em vez de categorias, são mais promissoras. Contudo, é comum exagerar o número de contextos em que o humor é errado. Serão destacados vários erros deste tipo e adverte-se contra eles.

Introdução

Embora o humor1 seja o exato oposto da seriedade, o que se considera violações da ética do humor são levadas muito a sério. Algumas pessoas chegam ao ponto de pensar que os humoristas que supostamente erraram deveriam ser mortos. Essa foi a reação de algumas pessoas às caricaturas do profeta Maomé feitas por cartunistas dinamarqueses, por exemplo (para uma discussão da ética das caricaturas de Maomé, ver Benatar 2006). Diversos regimes, incluindo o nazista e o soviético, puniram severamente o humor que lhes era direcionado (Peukert 1993, 198; Lewis 2006; Nesbitt 2000).

A reação sem graça ao humor não se restringe, contudo, a muçulmanos fundamentalistas e a regimes tirânicos. Até em democracias liberais há muitos cidadãos que se sentem ultrajados com o que consideram violações da ética do humor, ainda que as suas reações não sejam tão severas. Por exemplo, um filósofo da Universidade de Gales, Swansea, se demitiu da universidade em resposta a uma avalanche de críticas depois de ter contado “piadas de cunho sexual” em uma festa de Natal do departamento (Goldstein 2002). Um Conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos, James L. Jones, foi repreendido por ter feito uma piada, num aniversário de gala do Washington Institute for Near East Policy, sobre um militante talibã e dois homens de negócios judeus (Guttman 2010). Houve pedidos para a demissão de David Letterman depois de ele ter brincado sobre a filha de Sarah Palin, que advoga a abstinência pré-marital e que é ela própria mãe solteira (Cohen 2009). Um professor da Academia da Marinha Mercante dos Estados Unidos encarou a possibilidade de ser demitido devido a uma piada que se dizia respeito ao tiroteio no cinema do Colorado.2 No fim, acabou recebendo uma suspensão de 45 dias e foi-lhe exigido que se submetesse a cinco horas de “formação de sensibilidade” (Kaminer 2012). E um comediante na Nova Zelândia teve de se demitir dos seus trabalhos na rádio e na televisão depois de ter feito uma piada sobre os homossexuais e os judeus serem dispensáveis (Haaretz Service and DPA 2010).

Nem todo o humor é considerado moralmente problemático. Muito é considerado inocente e não-censurável. Tipicamente se pensa que as questões éticas surgem em certas categorias previsíveis de humor. Uma categoria desse tipo seria o humor relativo à raça, à etnia e ao gênero — incluindo piadas sobre “negros”, judeus, poloneses e mulheres. Outra categoria é o humor relativo a Deus, a figuras religiosas (como Maomé) e outras questões sagradas. Podemos nos referir a essa categoria como humor blasfemo. O humor escatológico é uma terceira categoria, em que se inclui piadas sobre órgãos genitais, sexo, micção, defecação, menstruação e outros eflúvios corporais. O humor sobre morte e sofrimento — que podemos denominar humor mórbido ou trágico — inclui piadas sobre bebês mortos, relativização do holocausto, fome e doenças. Outra categoria de humor que levanta preocupações éticas diz respeito aos atributos pessoais de terceiros — como orelhas ou narizes grandes, baixa ou alta estatura ou deficiências mentais ou físicas. Finalmente, há as chamadas pegadinhas (como a “câmera oculta”), onde se faz uma “encenação” para que sem o saberem as vítimas da brincadeira entretenham terceiros, e há também o fenômeno com este relacionado do prazer cômico que se tem a partir dos infortúnios (não-planejados) que acontecem às pessoas.

Embora acredite que o humor pode ser moralmente errado, e por vezes é-o, isso não é tão frequente quanto a sabedoria popular o sugere.3 E quando é errado, é frequente que não seja tão seriamente errado quanto muitas pessoas gostariam que acreditássemos que é. Ao argumentar a favor desta conclusão, avaliarei várias perspectivas que as pessoas parecem ter sobre a ética do humor.

O meu argumento irá mencionar várias piadas que algumas pessoas podem considerar ofensivas. Isto é inevitável para não comprometer a sua qualidade. Uma discussão apropriada da ética do humor não pode evitar todas as referências às próprias piadas que algumas pessoas consideram anti-éticas. Por outras palavras, não estarei contando, mas apenas mencionando as piadas para poder discuti-las.4 Os leitores que sejam propícios a se sentir ofendidos com a mera menção de uma piada estão avisados para não ler mais. Caveat lector!

O humor é sujeito a críticas éticas partindo de pelo menos duas bases. Primeiro, se pensa frequentemente que o humor surge de um defeito moral ou na pessoa que o comunica ou na pessoa que o aprecia. A incidência aqui é num agente, seja ele a pessoa que conta a piada ou a que a aprecia. A outra maneira principal de criticar o humor é se focando na piada e não nas pessoas que a contam ou se riem dela. Quem critica o humor dessa maneira fá-lo normalmente devido aos efeitos deletérios (erradamente infligidos) do humor em questão. Contudo, em alguns casos especiais, uma piada é considerada errada não devido aos seus efeitos, mas antes devido a alguma característica que lhe é inerente.5

É importante fazer notar que as falhas apresentadas não são mutuamente exclusivas. Por exemplo, uma piada pode refletir alguma falha moral em quem a conta, ao mesmo tempo que tem efeitos negativos. De fato, uma falha pode frequentemente causar ou explicar a outra. Assim, se um caso particular de alguém que conta uma piada expressa um vício de quem a conta, a piada pode, com base nisso, ter efeitos deletérios que não teria caso contrário. Por exemplo, uma piada contada por malícia pode causar um dano que a mesma piada não teria caso não fosse contada por malícia. Alternativamente, o fato de esperar que uma piada tenha efeitos danosos sobre quem não merece esses efeitos pode algumas vezes levar a pensar que contar a piada é uma expressão ou de indiferença ou de malícia da parte de quem a conta.

Outra maneira de classificar as críticas morais ao humor é distinguir entre críticas contextuais e críticas não-contextuais. As não-contextuais apontam problemas numa piada independentemente do seu contexto. A crítica dirige-se a um tipo de piada, considerada errada independentemente do contexto em que ocorre. As críticas contextuais, em contraste, são as que criticam não a piada em si, mas antes um caso contextualizado dela (ou um espécime6). Irei discutir tanto as avaliações não-contextuais como as contextuais do humor e mostrarei de que modo a distinção anterior entre diferentes bases para criticá-lo se encaixam nesta distinção.

As diversas relações estão graficamente representadas aqui:

Duas bases para avaliar a ética do humor
Agente
(Humorista ou apreciador)
Humor
Algumas categorias de humor expressam sempre um defeito no agente. Alguns casos de humor expressam um defeito no agente, mas outras não. O humor em si Efeitos
Não-contextual Contextual Não-contextual Contextual

Críticas não-contextuais

Criticar o humor devido a um defeito moral nas pessoas que o transmitem ou apreciam pode ser tanto contextual como não-contextual. Deveria ser óbvio que o humor é, pelo menos por vezes, o produto de um defeito de caráter. Às vezes, as piadas sobre grupos raciais ou étnicos ou sobre um ou outro sexo são contadas e apreciadas porque quem as conta ou a sua audiência tem preconceitos contra o grupo que é alvo das piadas. Os humores blasfemo, escatológico, trágico e pessoal, bem como as pegadinhas, às vezes ocorrem ou são apreciados devido a insensibilidade, malícia ou crueldade.

A questão crucial é saber quão frequentemente esses tipos de piada resultam de falhas de caráter. Algumas pessoas que escrevem sobre a ética do humor sustentaram a posição extrema de que, no caso de certos tipos de humor, a resposta é “sempre”. No que diz respeito a esses tipos de humor, a crítica desses autores é não-contextual. Não se trata de um desses tipos de piada ser aceitável em algumas circunstâncias e moralmente errado em outras. Ao invés, sempre se trata, segundo essa perspectiva, do produto de um ou outro vício.

Por exemplo, algumas pessoas defenderam que as piadas que se centram em estereótipos negativos de gênero, etnia ou raça sempre dizem algo de negativo acerca de quem as aprecia. A sugestão é que não se pode apreciar uma piada que se valha de um estereótipo sem sancioná-lo de facto (de Sousa 1987).7 Segundo esta perspectiva, não é possível adotar uma atitude preconceituosa hipoteticamente. Rir de uma piada sobre mulheres, judeus ou “negros” é mostrar que se é sexista, antissemita ou racista, respectivamente.

Os argumentos a favor desta conclusão pedem-nos para pôr a mão na consciência. Sugerem que se o fizermos descobriremos que “sabemos, intuitivamente, que partilhar [os pressupostos da piada] é o que nos faz achá-la engraçada”8 (de Sousa 1987, 240). Esta afirmação é problemática. Caso se suponha por momentos que a introspecção é uma metodologia razoável, descobriremos que muitos introspectores honestos simplesmente não consideram que partilham os pressupostos preconceituosos das piadas que apreciam. Descobrem, ao invés, que conseguem apreciar uma piada que usa um estereótipo de um grupo particular de pessoas sem efetivamente o sancionar. Considere-se, por exemplo, a seguinte piada:

Um judeu, um escocês e um inglês jantam juntos num restaurante. Após a refeição, o garçom se aproxima e pergunta a quem dar a conta. O escocês diz: “eu pago”. Manchete no jornal da manhã seguinte: “Ventríloquo judeu encontrado morto num beco”.

Os estereótipos de ingleses são inertes nesta piada, mas esta depende de estereótipos de judeus e escoceses. Segundo os estereótipos, ambos os grupos são pães-duros. Mas esse atributo é combinado com a esperteza do judeu e com uma propensão à violência do escocês. O judeu astuto, na tentativa de evitar pagar o jantar, tenta fazer o escocês pagar. O escocês, que igualmente não quer pagar, reage (desproporcionalmente) matando o judeu.

Pelo menos algumas pessoas vêem que conseguem apreciar uma piada deste tipo ainda que estejam tão confiantes quanto possível de que não sancionam os estereótipos subjacentes. Pode-se objetar dizendo que a piada seria menos engraçada se fosse um inglês que tivesse dito que pagaria e um ventríloquo americano que fosse encontrado morto num beco. Nessa versão, é possível ver o fito da piada, mas não se consideraria tão engraçada quanto a original, ainda que os estereótipos relevantes fossem estipulados antes de se contar a piada. A sugestão é que isso mostra que de fato é preciso sancionar os estereótipos subjacentes para achar a piada engraçada.

No entanto, essa objeção ignora o fato de que sancionar realmente os estereótipos não é a única alternativa à sua mera estipulação. Entre as duas alternativas há um meio-termo que é reconhecer os estereótipos, e isso pode muito bem ser suficiente para apreciar a piada (Benatar 1999). Isto não significa negar a possibilidade de haver quem acha a piada engaçada porque efetivamente sanciona os estereótipos subjacentes. Significa dizer apenas ao invés que sancionar os estereótipos não é necessário para que se possa apreciar o humor. A introspecção sugere que se pode apreciar esses tipos de piada, coisa que algumas pessoa fazem, sem sancionar os estereótipos, caso em que piadas que se centram em estereótipos de raça, etnia ou gênero nem sempre estão manchadas pelas falhas da pessoa que conta ou aprecia a piada.

Até aqui admiti que a introspecção é uma metodologia razoável para determinar se sancionar um estereótipo é necessário ou não para apreciar o humor que depende do estereótipo em questão. Contra este pressuposto pode-se sugerir muito bem que a introspecção não é confiável porque até os introspectores honestos podem não se dar conta dos seus vieses implícitos. Contudo, se o método introspectivo não é confiável, então quem alega que não se pode apreciar uma piada que depende de um estereótipo sem efetivamente o sancionar não pode apelar para a introspecção para defender a sua posição. E nem é suficiente que se aponte vários estudos que mostram que os vieses implícitos são ubíquos. Precisam mostrar que é a presença de um viés implícito que causa a apreciação do humor relevante. Pois se acaso se tiver um preconceito inconsciente que não tem papel algum na apreciação de um tipo particular de humor, a apreciação do humor não será uma expressão do preconceito. Em suma, quem afirma que apreciar o humor que se foca num estereótipo é sempre uma expressão de preconceito não pode simplesmente se limitar a fazer essa afirmação. Precisa de oferecer indícios.

Tal como não parece que as piadas que se baseiam em estereótipos dependem sempre da expressão de uma falha de quem as aprecia, as piadas sobre os feios ou os deficientes, ou sobre a violência, estupro e morte, também não parece que tenham sempre origem na insensibilidade ou crueldade da pessoa que as contam ou apreciam. Tais vícios podem explicar por que algumas pessoas gostam de piadas desses tipos, mas para outros a apreciação dessas piadas pode ser explicada de outras maneiras. Para algumas pessoas, a apreciação surge a partir de traços de caráter opostos. É justamente devido às suas sensibilidades ou ansiedades sobre o sofrimento e os infortúnios que procuram alívio ao encarar com leveza essas questões sérias. Pense, por exemplo, no idoso que diz “quando acordo pela manhã, a primeira coisa que faço é esticar os braços. Se não bater na madeira, levanto-me”. Uma piada destas não indica que o idoso considera a sua própria morte uma questão trivial. Ao invés, é a ansiedade em relação à sua morte (e enterro) que dá origem ao humor. Embora este seja um caso de humor autodirecionado, não há razão para pensar que algo similar não esteja ocorrendo às vezes quando as pessoas brincam sobre as tragédias que acometem terceiros. Tais tragédias podem nos causar ansiedade, e o humor é uma das maneiras de lidar com elas.

Assim se vê que brincar sobre algo, ao contrário do que se pensa, não é necessariamente trivializar a coisa. Quando se conta piadas sobre coisas sérias, não estamos necessariamente tratando essas questões como se não fossem sérias. Podemos rir do que é sério, e às vezes fazemo-lo precisamente porque reconhecemos que é sério.

No entanto, dizer algo brincando não é o mesmo que dizer algo seriamente. Com efeito, às vezes uma piada, ou uma sátira ou outro tipo de humor, é considerada engraçada precisamente porque jamais poderia ser dita seriamente (sem exceder os limites da civilidade).

Não é meramente a contemplação do transgressivo que explica por que algumas pessoas acham algumas piadas sobre assuntos sórdidos engraçadas. Piadas sobre estupro, por exemplo, podem incluir incongruências divertidas que são apreciadas até mesmo por quem não tem perspectivas moralmente erradas sobre o estupro.

Outra crítica moral não-contextual alega que alguns tipos de humor estão sempre manchados não devido a um defeito em quem o espalha ou aprecia, mas devido a um defeito no humor em si. Essa alegação é feita em relação a pouquíssimos tipos de humor. Talvez o exemplo mais claro seja o humor (alegadamente) blasfemo. Embora quem se preocupa com este tipo de humor possa considerar que quem blasfema é moralmente defeituoso, a sua base para objetar ao humor reside não no agente, mas antes na blasfêmia. O humor que “toma o nome do Senhor em vão” ou que retrata o sagrado de forma irreverente, ou, em alguns casos, que retrata Deus ou um profeta seja de que maneira for, é considerado errado.9

Os argumentos em defesa da ideia de que um tipo particular de humor é sempre errado por ser blasfemo são profundamente controversos. Isto porque dependem de premissas muitíssimo contestáveis. Pressupõem não apenas que Deus existe, mas também que a blasfêmia é moralmente errada (e não apenas proibida por razões não-morais) e que um exemplo particular de humor constitui blasfêmia. Os ateus negam obviamente o pressuposto básico da existência de Deus, e os outros pressupostos caem consequentemente como dominós. Contudo, mesmo os teístas, que concordam sobre a existência de Deus, podem discordar sobre os outros pressupostos, em especial sobre o último. Há um ampla variação nas perspectivas das pessoas religiosas sobre o que constitui blasfêmia e humor blasfemo. Algumas são muito mais permissivas que outras. Por essas razões, a crítica moral não-contextual do humor blasfemo é difícil de defender e não me prolongarei na sua discussão.

Críticas contextuais

Não deveria ser uma surpresa que as críticas não-contextuais do humor sejam difíceis de defender. Fazem afirmações mais abrangentes do que as críticas contextuais. Mais especificamente, dizem que todo o humor de um tipo particular é moralmente errado. É difícil acreditar nisso. Muito mais plausível é a perspectiva de que vários tipos de humor podem ser moralmente aceitáveis em alguns contextos, sendo errados em outros. Deste ponto de vista, não deveríamos avaliar tipos de piadas, mas antes casos particulares de uma piada para determinar se são moralmente permissíveis ou não.

A ideia de que o humor pode ser errado quando parte de um defeito na pessoa que conta ou aprecia uma piada é uma crítica contextual quando um caso particular de uma piada é defeituoso não porque se considera que todas as piadas desse tipo emergem de um defeito pessoal, mas antes porque se considera que aquele caso particular ocorre por conta disso. Em outras palavras, contar uma piada J pode ser errado para a pessoa P (porque J refletiria um defeito de P) ainda que não seja errado para a pessoa Q (porque não refletiria um defeito de Q).

Um defeito em quem conta a piada não é a única base para realizar uma crítica contextual do humor. A outra base surge quando se considera que um caso de humor inflige erradamente um dano. Porque uma certa piada pode ser prejudicial em algumas situações, mas não em outras, e porque, onde é prejudicial, o dano pode ser permissivamente infligido em algumas circunstâncias, mas não em outras, uma crítica contextual faz referência às circunstâncias particulares em que se faz uma piada.

É raro que o humor cause dano físico, pelo menos de maneira direta. Entre os vários tipos de humor, alguns tipos de pegadinhas são os que têm mais probabilidade de causar um dano desses (e são também os tipos de piada mais fáceis de condenar). Imagine, por exemplo, o ator que planeja fazer alguém escorregar ou cair para a diversão de terceiros. Ações destas podem ser fisicamente danosas. É indiscutivelmente um pouco mais comum que o humor cause dano físico indiretamente. Considere, por exemplo, um caso em que alguém responde violentamente a um caso de humor que a pessoa considera ofensivo. A reação violenta às caricaturas de Maomé no jornal dinamarquês Jyllands-Posten é um possível exemplo (Benatar 2008). Obviamente, não é incontroverso dizer que em tais casos o humor causou a violência. Isso porque o intolerante violento que reage tem uma escolha sobre como reagir ao humor. Nada o causa ou o força a reagir violentamente. De todo modo, o dano físico pode ser um efeito indireto do humor.

Os efeitos prejudiciais mais comuns do humor não são físicos. Quando o humor prejudica, os danos são tipicamente psicológicos, incluindo a ofensa, o constrangimento, o choque, o nojo e o sentimento de ter sido humilhado ou insultado. Às vezes se pensa também que o humor inculca, espalha ou reforça atitudes negativas direcionadas àqueles indivíduos ou grupos que são o alvo do humor.10 Tais atitudes podem em si ser consideradas prejudiciais. A limite, pode-se considerar que correm o risco de prejudicar quem é objecto da piada.

Erros comuns na ética do humor

Ao avaliar os efeitos do humor, o pensamento comum utilizado acerca da ética do humor é propenso a fazer uma série de erros.

Os benefícios são ignorados

Primeiro, a ênfase tende a ser (quase) exclusivamente os efeitos negativos. Dos efeitos positivos que são ignorados, o mais óbvio é o prazer que o humor provoca. Onde os críticos do humor consideram o prazer, faz parte frequentemente da própria crítica. A sugestão é que há algo de perverso em sentir prazer com o humor que também tem efeitos negativos. Obviamente, uma crítica deste tipo é por vezes adequada. Às vezes é perverso rir às custas dos outros. Contudo, não é sempre errado. É possível ver por quê se considerarmos alguns dos outros benefícios do humor.

Por exemplo, o humor é um instrumento poderoso que pode ser usado contra quem abusa do poder. (Há muitas pessoas, é claro, que não ignoram este benefício. Mas muitas ignoram-no. Aqui se incluem não apenas quem abusa do poder, mas também os seus vários apoiantes). Os tiranos não têm do que reclamar moralmente quando terceiros, especialmente aqueles que oprimem, se riem deles. É por conta do poder subversivo do humor que muitos déspotas procuraram proibir o humor que zombasse deles ou dos seus associados. Por exemplo, no Zimbábue, ridicularizar o presidente, Robert Mugabe, é um crime penal.

Eis um exemplo de uma piada anti-Mugabe:

Um homem se encontra em um engarrafamento quando alguém bate na janela do carro. O motorista abaixa o vidro e pergunta o que ele quer. O outro diz “o presidente Mugabe foi sequestrado e o resgate custa $50 milhões. Se o resgate não for pago, os sequestradores ameaçam deitar petróleo no presidente e puxar-lhe fogo. Estamos fazendo uma coleta. Você deseja contribuir? O homem no carro pergunta: “em média, o que as pessoas estão doando?”. O outro responde: “dez litros de petróleo, mais ou menos”. (The Herald 2006, 6)

Às vezes, o oprimido passa a brincar sobre os riscos de fazer piadas. Aqui está um exemplo do terceiro Reich:

O que é o fratricídio?

É quando Hermann Goering mata um porco.

O que é o suicídio?

É quando alguém conta esta piada em público. (Lipman 1991, 52)

Outros regimes repressivos têm sido um pouco menos sensíveis à sátira. Nesses casos, o humor pode ter a função de fazer críticas (às vezes de maneira mordaz) de uma forma mais aceitável para quem está sendo satirizado. Acontece muito que uma palavra verdadeira e crítica dita em tom de piada é mais prontamente tolerada do que uma palavra verdadeira e crítica dita de maneira séria. O comediante sul-africano, Pieter Dirk Uys, ridicularizou o Apartheid e os políticos da época (tal como o continua a fazer com os políticos da época pós-Apartheid) com relativa impunidade.11

Esse fenômeno não ocorre apenas a nível político. Mesmo em relacionamentos interpessoais, as críticas feitas como piada são frequentemente mais propensas a gerar concordância do que as feitas com seriedade. E é porque todos temos os nossos defeitos de caráter que os outros podem às vezes brincar connosco. Assim, não são apenas os tiranos que carecem de reclamação justificada por serem o alvo da piada.

O humor também tem outros benefícios. Pode esvaziar pretensiosismos e relaxar os ânimos. Pode ajudar as pessoas a lidar com as suas ansiedades — sobre doenças, deficiências e morte, por exemplo. Acontece muito que as pessoas brinquem sobre essas coisas não por não as levarem a sério, mas, ao invés, justamente porque as levam muito a sério. As tragédias criam humor negro com frequência. Pense, por exemplo, nas imensa quantidade de piadas geradas em resposta à fome na Etiópia, aos desastres dos transportes espaciais, à morte de Diana Spencer, e ao julgamento de O. J. Simpson pelo assassinato de Nicole Brown Simpson e Ron Goldman. O humor também floresce em situações de adversidade, habilitando as pessoas a lutarem contra os maus efeitos de serem vitimizadas, oprimidas ou perseguidas. Os cidadãos soviéticos faziam piadas sobre a URSS, zombando da repressão, das ineficiências, da tristeza e da escassez. Os judeus faziam piadas sobre o antissemitismo, e os “negros” fazem piadas sobre o racismo. A dinâmica varia. Às vezes, um grupo que é estereotipado se vale de piadas que incorporam o estereótipo numa tentativa de neutralizar a sua força. Mais raramente, o estereótipo se torna o alvo da piada. Considere a seguinte piada, que tem duas variações. A versão judia é como segue:

Dois judeus estão andando pela rua e vêem uma placa em uma igreja com os seguintes dizeres: “Torne-se cristão e ganhe $100”. Não sabem o que pensar, mas decidem que um se converterá e dividirá o dinheiro com o outro. O futuro convertido entra na igreja. Depois de algum tempo reaparece. O seu amigo diz-lhe:

“Onde estão os meus $50?”

O novo cristão responde: “Vocês só pensam nisso?”

A versão “negra” é como se segue:

Dois “negros” estão andando pela rua e vêem uma placa em um prédio com os seguintes dizeres: “Torne-se branco e ganhe $100”. Não sabem o que pensar, mas decidem que um se tornará “branco” e dividirá o dinheiro com o outro. O futuro “branco” entra no prédio. Depois de algum tempo reaparece. O seu amigo diz-lhe:

“Onde estão os meus $50?”

O novo “branco” responde: “Vai trabalhar!”

Estas versões da piada dependem de um reconhecimento de estereótipos de judeus e “negros”, mas o alvo da piada não é o judeu nem o “negro”. Em vez disso, o alvo é quem tem estereótipos sobre eles.

A piada (nas suas duas formas) é instrutiva em vários aspectos. Primeiro, dá mais força ao que defendi: não é necessário sancionar o estereótipo para que se possa achar graça a uma piada que o usa. Segundo, o fato de uma piada incorporar um estereótipo não significa que o reforce ou espalhe. Terceiro, apesar de o alvo da piada ser, respectivamente, quem mantém estereótipos sobre judeus e “negros”, isso não significa que os cristãos e os “brancos” estão sendo estereotipados como “estereotipadores”. Não é necessário pensar que todos (ou nem mesmo quase todos) os cristãos ou “brancos” têm essas atitudes para que seja possível achar a piada engraçada. É necessário apenas estar ciente de que há (ou de que houve) muitos cristãos e “brancos” que tinham essas perspectivas.

As considerações contextuais são excessivamente simplificadas

Muitas pessoas reconhecem que o contexto é crucial para determinar quando uma piada expressa um defeito em quem a conta, mas uma perspectiva comum sobre a ética do humor tende a simplificar demasiado as considerações contextuais. Por exemplo, pensa-se frequentemente que as piadas sobre “negros”, judeus, mulheres, poloneses ou deficientes, por exemplo, têm alguma mancha moral a menos que sejam contadas por membros do grupo que é alvo da piada. Há até quem vá ao ponto de dizer que, a menos que alguém seja membro do grupo sobre o qual se está fazendo piada, contar a piada é errado. Esta perspectiva acerta ao afirmar que a identidade de quem conta a piada é relevante para fazer uma avaliação moral de quando uma dada piada é contada. Dependendo de quem esteja contando a piada, pode ser ou não a expressão de um defeito em quem a conta. No entanto, a perspectiva está errada quando afirma que só quem faz parte de um grupo pode fazer piadas sobre esse grupo. O que esta perspectiva parece pressupor é que todos os membros de um grupo, e só eles, podem contar uma piada sem que (a) a piada seja uma expressão de uma atitude defeituosa ou sem que (b) a piada seja vista como a expressão de tal atitude.

No entanto, nenhum desses pressupostos pode ser sustentado. Primeiro, é possível que os membros de um grupo tenham atitudes inadequadas com respeito ao grupo. Não é incomum que as pessoas interiorizem preconceitos ou outras atitudes negativas direcionadas ao grupo de que fazem parte. Quando esses membros contam piadas sobre o seu grupo, podem muito bem estar exibindo as mesmas atitudes de pessoas preconceituosas que não pertencem ao grupo. Se uma piada for moralmente problemática porque expressa algum defeito em quem a conta, então contar uma piada sobre “negros”, por exemplo, é errado se a pessoa “negra” que a conta tiver esse defeito.

Segundo, por conta desse fenômeno, não podemos pressupor que quem pertence a um grupo não será visto (pelo menos por quem tem uma perspectiva mais subtil sobre a psicologia humana) como alguém que dá voz a atitudes problemáticas.

Terceiro, há situações em que é de confiar que quem conta a piada não partilha as atitudes negativas ainda que não seja membro do grupo sobre o qual a piada versa. Às vezes, conhecemos uma pessoa suficientemente bem — ou sabemos que aqueles a quem contamos a piada nos conhecem suficientemente bem — para que contá-la não seja visto como uma expressão de uma atitude má.

Portanto, embora a identidade da pessoa que oferece algum tipo de humor seja claramente uma consideração contextual relevante, não deve ser reduzida ao princípio simples de que só os membros de um grupo podem fazer piadas sobre esse grupo.

Outra consideração contextual é a identidade dos destinatários do humor, nomeadamente, a audiência. Essa consideração também é demasiadamente simplificada — e de um modo que se conecta com a identidade do humorista. Assim, muitas vezes se pensa que se um membro de um grupo conta uma piada aos seus companheiros de grupo, o humor é inocente. Mas se a mesma piada for contada a quem é exterior ao grupo que é o seu alvo, então contar a piada é moralmente suspeito, quer quem a conta seja um membro do grupo quer não. A ideia, ao que parece, é que contar uma piada sobre “negros”, por exemplo, não tem muita probabilidade de inculcar ou reforçar atitudes anti-“negros” em “negros”, ou que há algo menos problemático quando uma pessoa deficiente ri da deficiência do que quando uma pessoa sem deficiências ri da mesma piada.

Embora haja alguma verdade nessa perspectiva, também é insuficientemente subtil. É provavelmente verdadeiro que os membros de um grupo, embora não sejam imunes, são frequentemente menos propensos a adotar atitudes negativas contra o seu grupo. Além disso, parece verdadeiro que o humor autodepreciativo é menos preocupante do que o humor que deprecia terceiros. Ainda assim, porque as pessoas podem apreciar piadas sobre os outros sem terem ou virem a ter atitudes negativas contra essas pessoas, não se pode pressupor que é sempre impermissível contar uma piada sobre um grupo a quem não faz parte dele.

Uma terceira consideração contextual é a identidade do grupo sobre o qual se faz a piada (em vez de a quem ela é contada) . O pensamento convencional aqui é que não há problema em contar piadas que criticam homens, mas que há uma presunção contra contar piadas que criticam mulheres. Similarmente, apesar de ser aceitável que os “brancos” sejam alvo da piada, contar piadas sobre “negros” presume-se que é errado. O raciocínio, ao que parece, é que os grupos subordinados são mais vulneráveis que os dominantes, e que rir do “pobrezinho” é moralmente problemático, mas rir do grupo dominante não o é.

Novamente, há um elemento de verdade nessa perspectiva. Contar piadas sobre alguns grupos é mais provável que resulte em dano do que contar piadas sobre outros grupos. Mas isso não significa que contar piadas sobre grupos historicamente desfavorecidos prejudica sempre (erradamente), ou que contar piadas sobre grupos historicamente favorecidos nunca prejudica (erradamente). Por exemplo, as piadas sobre “brancos” podem ser mais perigosas no Zimbábue do que na Suécia, e as piadas sobre enfermeiros masculinos podem ser muito mais prejudiciais do que as piadas sobre mulheres médicas.

Se atribui um peso excessivo à ofensa

Possivelmente, o erro mais comum ao pensar sobre a ética do humor é tratar a ofensa ou como uma consideração moral decisiva ou, no mínimo, muito forte. Frequentemente se pensa que, porque um certo humor ofende alguém, ele é, portanto, errado, ou pelo menos de presumir que o é. Variações desta perspectiva afirmam que a ofensa tem de atingir um dado nível de intensidade, ou de ser suficientemente generalizada, ou de resultar de uma violação de sensibilidades particulares — normalmente religiosas — para que seja considerada errada.

Quando esta perspectiva é formulada diretamente, como acabei de fazê-lo, parece insustentável. Pode-se perguntar, então, se alguém realmente comete o erro de pensar que é verdadeira. É porque o argumento raramente é formulado explicitamente que é difícil provar, pelo menos sem examinar as pessoas, se estão realmente a defendê-la. Contudo, parece razoável atribuir a perspectiva a quem, ao criticar um caso de humor, se refere ao seu caráter ofensivo e nada mais.12 Há vários exemplos.13

O que tende a acontecer é que as pessoas expressam o seu ultraje com um tipo de humor (ou notam que os outros estão ultrajados com ele) e disso inferem que o humor tem de estar errado. Alternativamente, faz-se notar quantas pessoas estão ultrajadas ou o quão intensamente é o sentimento de ultraje, e se pressupõe que tem de haver uma boa razão pela qual tantas pessoas estão chateadas ou por que estão tão chateadas. No entanto, na ausência de justificação para o ultraje, é o próprio ultraje que está fazendo o trabalho de (supostamente) justificar a afirmação de que o humor está errado. Por outras palavras, uma coisa é dizer que o humor está errado por tais e tais razões, e que as pessoas estão ultrajadas porque esse é o tipo de erro que provoca um sentimento justificado de ofensa. Outra coisa é dizer que o humor está errado porque as pessoas estão ultrajadas com ele.

Todas as versões da perspectiva de que o humor está errado porque causa ofensa são problemáticas. Se a perspectiva fosse correta, garantiria um veto moral aos hipersensíveis (Benatar 2009). Quem fica facilmente ofendido ou ultrajado seria capaz de tornar imorais qualquer caso de humor. Isto, por sua vez, implicaria que não há diferença entre ultraje justificado e injustificado — ou pelo menos que a distinção é irrelevante na nossa avaliação da ética do humor. A perspectiva pressuporia que as pessoas têm sempre o direito moral de não serem ofendidas. Também ignoraria o fato de o humor que ofende algumas pessoas poder trazer benefícios mais importantes para outras. Finalmente, os argumentos que se valem da ofensa podem ser facas de dois gumes que produzem juízos que, se não são contraditórios, estão certamente em tensão entre si. Assim, A pode ficar ofendido com a piada de B, mas B pode ficar ofendido pela ofensa de A — nomeadamente, pela sua falta de humor. Se a ofensa é uma condição suficiente para tornar imoral a conduta que gera a ofensa, então, embora a piada de B seja imoral, também é imoral a própria reação de A ao que torna a piada imoral.

Embora a ofensa não seja uma consideração moral pesada contra contar uma piada, isso não significa que seja irrelevante. O fato de o humor poder causar ofensa a terceiros é muitas vezes algo que devemos ter em conta. Esta consideração será muitas superada por outras considerações, mas nem sempre. O cenário mais claro é quando a ofensa é gratuita — quando o humor ofensivo não produz benefício algum que o redima. Seria errado, por exemplo, contar piadas grosseiras a puritanos se tudo o que se consegue é a vergonha dos puritanos.

Ajuizando as piadas

Como podemos ajuizar (prospectivamente) quando podemos contar uma piada ou não? Como podemos ajuizar (retrospectivamente) se o humor que foi disseminado deveria ter sido evitado?

Deveria ser óbvio que nenhuma fórmula se pode oferecer. Se, como sugeri, as críticas não-contextuais do humor são inadequadas, não podemos nem mesmo dizer que alguns tipos de piada jamais deveriam ser contadas. Em vez disso, qualquer juízo terá que ter em conta as especificidades de uma dada piada num dado contexto. Partindo da discussão anterior, pode-se oferecer algumas diretrizes.

Devemos obviamente perguntar se, num contexto específico, o humor expressa ou não algum defeito em quem conta a piada ou em quem a aprecia. Também precisamos considerar os efeitos de contar uma piada. Isto envolve considerar os prejuízos esperados de contá-la, mas exige também que se considere os benefícios previstos. Os prejuízos e benefícios serão influenciados por fatos sobre o humorista, sobre a audiência e sobre o alvo da piada, mas não da maneira grosseira que normalmente se pressupõe. No entanto, estes não são os únicos determinantes da qualidade e quantidade de prejuízos e benefícios. O local e o tempo, por exemplo, também podem ser relevantes. Às vezes uma piada acontece “demasiadamente cedo” após uma tragédia. E algumas piadas podem ser aceitáveis caos sejam contadas num lugar, mas não noutro. Considere-se aqui a diferença entre contar uma piada profana e profundamente nojenta num bar e contar a mesma piada numa igreja ou num cemitério.

Precisamos pesar os prejuízos e os benefícios. Isso não significa que a nossa determinação tem de ser utilitarista, ou, caso o seja, que tem de ser um cálculo utilitarista simplista. Por exemplo, se uma piada ofende, devemos nos perguntar se a ofensa é merecida ou não, e se é justificada ou não. Se não é merecida ou é injustificada, a balança pesa mais contra ela.

Considerar e pesar todos esses fatores nos habilitará a fazer juízos sobre o humor com mais subtileza do que o que é comum. É possível pensar de modo inteligente e cuidadoso sobre a ética do humor. Isso não significa que em alguns casos não haverá espaço para uma discordância razoável. Por exemplo, às vezes não estará claro quais serão as consequências de uma piada, quão importante é que seja contada, ou quão justificável é a ofensa dela resultante. Nesses casos de incerteza, a ética do humor não é diferente da ética de outras práticas.

Conclusão

O humor versa frequentemente sobre assuntos sérios, e é claro que a ética do humor não é uma piada. Merece consideração séria. É possível, no entanto, levar o humor demasiado a sério. Em conclusão, considere um exemplo profundamente irônico.

Nando’s, a rede de restaurantes sul-africana, é bem conhecida pelas suas propagandas espirituosas e irreverentes. Em uma dessas propagandas, o cão-guia de uma idosa cega leva-a a bater num poste, que rouba então a sua refeição de frango do Nando’s depois de cair na calçada. A propaganda enfrentou ultraje por parte de manifestantes que afirmaram que apoucou os cegos. Outros manifestantes pensaram que a propaganda “foi mais ofensiva à reputação dos cães-guia” (Feris 2000). A Advertising Standards Association of South Africa estabeleceu que a propaganda era ofensiva para os cegos (mas não para os cães-guia) e que deveria ser retirada do ar (Sapa 2000).

A ironia aqui é que os frangos consumidos nas lojas do Nando’s são, durante toda a vida, obrigados a sofrer de todas as maneiras terríveis que são comuns na criação e abate de frangos. Mas quem objetou à propaganda ignorou completamente esse problema moral muitíssimo sério e considerou que as questões morais mais importantes seriam a reputação dos cães-guia e as sensibilidades dos cegos.14 Esta distorção mostra como as perspectivas populares são pouco confiáveis com respeito à ética do humor.

Num famoso exemplo de “anti-humor”, nos é perguntado: “Por que a galinha atravessou a rua?”. Isto parece a antecâmara de uma piada, mas quando se responde — “Porque queria ir para o outro lado” — percebe-se que não se trata realmente de uma piada.15 Questionar as propagandas do Nando’s pode parecer um caso de ética do humor, mas quando as respostas distorcem seriamente o peso relativo de diferentes considerações morais, pode muito bem acontecer que esses questionamentos sejam de fato um caso de “antiética do humor”. Levar o humor a sério obriga a não o levar mais a sério do que é apropriado.

David Benatar
Retirado de Journal of Practical Ethics, Vol. 2, n.º 1 (2014). Revisão da tradução de Desidério Murcho.

Agradecimentos

Agradeço os comentários proveitosos dos árbitros anónimos.

Notas

  1. O humor inclui não apenas piadas, mas também comédia, cartuns, sátira, tiradas, trocadilhos, imitações cômicas e assim por diante. Às vezes me referirei a “piadas” ou a alguma das outras formas de humor sem estar sempre restringindo os meus comentários àquela forma particular de humor. Não me proponho oferecer uma definição de humor. Defender uma definição em restrição de definições rivais seria um trabalho grandioso que está muito além do escopo deste artigo. Mesmo a estipulação de uma definição não seria recomendável e faria pouca diferença para o que tenho a dizer. A palavra “humor” pode ser usada em diferentes sentidos. Uma definição que abranja todos os sentidos razoáveis teria de ser tão geral a ponto de abranger todos eles, ou de ser uma disjunção de todos os sentidos (razoáveis). Dito isto, deverá ficar claro a partir do contexto do que direi que, quando uso palavras como “humor” ou “piada”, estou excluindo casos bizarros em que as pessoas vêem humor em algo que não satisfaz as condições estéticas (mínimas) para contar como humor. Um caso bizarro desse tipo seria alguém abrir um manual de matemática, ver uma equação e desatar a rir, quando não há considerações contextuais que explicariam por que a equação satisfaz as condições estéticas relevantes. Embora possamos dizer que essa pessoa “viu humor na equação”, quando utilizo a palavra “humor” (e “piada”) neste artigo, não estou utilizando o termo de modo tão amplo a ponto de incluir a equação que essa pessoa estranha acha engaçada. Não estou negando que a palavra pode ser usada dessa maneira. Acontece apenas que não estou aqui usando a palavra dessa maneira. Não estipularei quais são as condições estéticas para que algo conte como humor. Isso também me levaria além do escopo do presente artigo e ligaria desnecessariamente a minha análise a uma perspectiva particular. A minha análise da ética do humor é compatível com uma ampla diversidade de perspectivas sobre quais são as condições relevantes. ↩︎
  2. Enquanto mostrava um filme durante uma aula, onze dias após o tiroteio, ele disse: “se alguém com um cabelo cor-de-laranja aparecer no canto da sala, fujam para a saída” (Barrett 2012). ↩︎
  3. Quando digo “sabedoria popular”, não me refiro, como os exemplos seguintes deverão deixar claro, às perspectivas de filósofos ou de outros teóricos sobre a ética do humor, mas às perspectivas da população em geral. Alguns filósofos também têm perspectivas (que considero) excessivamente restritivas sobre a ética do humor, e deverei me referir a elas também, mas o meu interesse não está limitado ao que os filósofos dizem sobre a ética do humor. Procuro avaliar perspectivas muito mais amplamente aceitas. Obviamente, o que constitui “sabedoria popular” varia, tanto geográfica como temporalmente. Estou me referindo a perspectivas que são amplamente aceitas contemporaneamente algures no mundo. ↩︎
  4. Os filósofos fazem uma distinção entre o “uso” de um termo e a sua “menção”. Se você me chama de idiota, está usando a palavra “idiota”. Se, em contraste, você diz “Bob o chamou de idiota”, está mencionando a palavra “idiota”. Estou mencionando, e não usando (ou contando), piadas. ↩︎
  5. Esta última não é a distinção entre avaliações utilitaristas e deontológicas do humor. Isto porque uma avaliação deontológica pode abranger esses dois tipos de erro. Contudo, porque se pode determinar de maneira deontológica se os efeitos deletérios são erradamente infligidos, condenar o humor com base em seus efeitos não é sempre uma questão consequencialista. ↩︎
  6. O tipo-espécime é uma distinção filosófica técnica. Quem não a conhece pode ignorar a referência ao espécime sem prejuízo para a compreensão do texto. ↩︎
  7. Merrie Bergman (1986) aceita a perspectiva de Ronald de Sousa, e também Claudia Mills (1987) parece aceitá-la. ↩︎
  8. O caso particular que ele usa como exemplo ilustrativo é uma piada de estupro muito fraca. Alhures (Benatar 1999), ofereci uma resposta detalhada às suas reflexões acerca da piada e não a repetirei aqui. ↩︎
  9. Há vários exemplos de pessoas que consideram que o humor é errado por ser (supostamente) blasfemo. A publicação das caricaturas de Maomé pelo Jyllands-Posten é um caso famoso. Milhões de pessoas em todo o mundo consideraram que as caricaturas eram erradas por essa razão. E essas pessoas nem eram todas muçulmanas. A jornalista Charlene Smith afirmou que “nunca, nunca devemos blasfemar sobre o deus ou a deusa de uma pessoa” (Smith 2006). Noutro caso menos conhecido, alguns cristãos na África do Sul objetaram ao que consideraram um caso de humor blasfemo numa revista de estudantes da Universidade de Cape Town (Naidoo 2009). Essas reclamações levaram a revista a ser retirada das prateleiras de uma grande rede de lojas e a um pedido de desculpas por parte da Universidade de Cape Town. ↩︎
  10. Por exemplo, o presidente sul-africano Jacob Zuma acredita que foi denegrido pelo cartunista Jonathan Shapiro (também conhecido como Zapiro), e costuma-se dizer que as piadas sobre grupos raciais ou étnicos exacerbam os estereótipos sobre esses grupos. ↩︎
  11. Se a memória não me falha, um membro do gabinete, Piet Koornhof, chegou até a participar (consciente e livremente) de um dos filmes do sr. Uys. ↩︎
  12. Quando acrescentam algo mas apenas sobre a intensidade da ofensa ou sobre as sensibilidades religiosas terem sido ofendidas, parecem estar advogando uma das variantes do argumento da ofensa a que me referi no parágrafo anterior. ↩︎
  13. Aqui vão apenas alguns: Afzal Ahmad, presidente da Associação Islâmica Americana, disse, em uma carta para The New York Times, que considerou as caricaturas do Jyllands-Posten “tanto prejudiciais quanto ofensivas”. A única outra coisa que disse em crítica às caricaturas foi: “Na minha maneira de ver as coisas, a liberdade de expressão na arena pública é acompanhada de uma grande responsabilidade de não difamar os sistemas de crenças religiosas profundamente mantidos pelas pessoas.” (The New York Times 2006) Isto sugere que está defendendo a versão do argumento da ofensa que objeta à ofensa das crenças religiosas das pessoas. Criticando as mesmas caricaturas, Kofi Anan, então Secretário Geral das Nações Unidas, disse: “partilho do pesar dos amigos muçulmanos que sentem que as caricaturas ofendem a sua religião” (Brinkley e Fisher 2006). Se o senhor Anan disse algo mais, não foi citado pelo The New York Times, sugerindo que ou ele ou o jornal tratou o ponto sobre a ofensa como o coração da crítica. Em uma performance em Johanesburgo, o comediante John Cleese contou uma piada sobre um grupo de turistas que chegou muito atrasado ao campo de concentração de Dachau. O ponto da piada foi que alguém no grupo, ao saber que a entrada lhes foi negada, sugere: “diga-lhe que somos todos judeus”. Alguns membros judeus da audiência do senhor Cleese objetaram. Um disse que aquilo “é verdadeiramente ofensivo e que (Cleese) deveria saber como nos sentimos” (South African Jewish Report 2013). Esta foi a única crítica atribuída ao queixoso. Novamente, ou o queixoso nada mais disse ou o repórter pensou que isso captava a essência da reclamação. ↩︎
  14. Por não poderem ver a propaganda, as pessoas cegas que objetaram foram ofendidas pelo puro conhecimento da sua existência. ↩︎
  15. Esta “anti-piada” estimulou várias piadas de verdade que são variações humorísticas da original. ↩︎

Referências