Ao ver-se diante de Aquiles, Heitor bem sabia qual seria o seu fim, mas entregou-se a ele e viveu-o em sua plenitude. Após alguma hesitação, lutou em defesa da honra, da pátria e da família. E agora a sua glória repousa na virtude da resistência à desonra. Não foi o sentimento de repulsa que o moveu, pois não recusou o seu destino. Na guerra dos contrários que é o mundo heraclitiano, Aquiles ficou com a vida e Heitor com a morte.
Antes de Sócrates, Platão e Aristóteles estabelecerem algumas das bases do pensamento ocidental, outros pensadores também contribuíram decisivamente para a construção daquilo que constitui a nossa forma de ver e interpretar o mundo. E um desses pensadores é o filósofo Heráclito de Éfeso, popularmente conhecido pela frase “nenhum homem se banha duas vezes no mesmo rio.”
Não nos interessa aqui fazer uma análise aprofundada e pormenorizada da cosmologia heraclitiana, mas sim recordar uma das teses principais da sua filosofia: a discórdia entre contrários como a origem e o fim de tudo aquilo que existe.
Assim, não é possível falar da noite sem o seu contrário, que é o dia. Da mesma forma, não se pode falar da escuridão sem se falar da luz. O amor coexiste com o ódio; a guerra com a paz; a saúde com a doença e o nascimento com a morte. A realidade é o contínuo movimento de oposição entre o ser e o não-ser. Portanto, no mundo heraclitiano, a negatividade não pode ser ignorada, dado que é parte constitutiva da realidade, que está em constante devir.
Se para Heráclito a realidade é inseparável da negatividade, o que acontece quando uma sociedade passa a recusá-la? Byung-Chul Han, em A Sociedade do Cansaço, defende a ideia de que, atualmente, “vivemos numa época pobre em negatividade”. Ou seja, na contemporaneidade, predomina um modo de ver e viver o mundo que privilegia a positividade.
Pensemos, a título de exemplo, em alguém plenamente inserido na Sociedade do Desempenho, cujas características essenciais são a autoexploração e o empreendedorismo de si. Nesse contexto, é preciso amplo cuidado com a linguagem, pois algumas palavras e conceitos devem ser evitados em prol de um bom estatuto social. Fracassar, errar, desistir, temer, perder e duvidar são alguns dos vocábulos que, paulatinamente, têm sido usados com menor frequência na linguagem, seja ela pública ou privada. Tudo o que exprima e simbolize uma certa negatividade em relação aos ideais da Sociedade do Desempenho deve ser evitado. Os sujeitos que se realizam nesse modelo social não conhecem o negativo. O máximo que sentem por ele é repulsa.
Han, num discurso de denúncia, afirma que vivemos em tempos de “violência da positividade”, um tipo de violência que não priva, mas que satura. Uma forma de violência que leva os indivíduos à exaustão e a “um curto-circuito do Eu”.
Byung-Chul Han acerta ao constatar que nenhum ser humano resiste, fisicamente e psicologicamente, a uma forma de vida que não contempla o negativo. Não é possível a existência humana que não conviva com a dor, o sofrimento, as derrotas, os erros. Perder, entristecer, temer, odiar, se frustrar são coisas tão banais à vida humana como as ações de respirar, dormir, comer, ler ou cantar.
O filósofo sul-coreano tem muitos méritos em conseguir perceber e sistematizar uma fraqueza humana dominante em nossa época. Entretanto, será que essa fraqueza é exclusividade do nosso tempo? Será que Han desvelou alguma “novidade” em relação à condição humana? Não parece.
O escritor russo Nicolai Gogol, no século XIX, escreveu um conto chamado O Nariz, no qual, num tom cômico-satírico, apresenta um assessor de colegiatura — que prefere ser tratado como Major Kovalióv, um cargo de maior relevância — que, certo dia, amanhece com um “vazio” no rosto. O seu nariz, de forma fantástica, aparece pela primeira vez, após o seu sumiço, no pão com cebolas do barbeiro Ivan Iákovlievitch, que é duramente atacado pela esposa, Prascóvia óssipovna, por supostamente tê-lo cortado de algum cliente.
Mas não, o barbeiro não foi o responsável pelo sumiço do “focinho” do Major Kovalióv. O nariz, aparentemente por conta própria, decidiu ganhar vida autônoma e andar pela cidade vestindo roupas elegantes e fazendo coisas humanas, como ir à igreja e fazer reuniões com chefes de estado.
Todavia, o interesse aqui repousa não nas ações do nariz após ganhar vida própria, mas sim na reação de Kovalióv à perda do órgão.
Tão logo o major deu pela perda do nariz, o seu mundo desabou. Como alcançar agora seus objetivos pessoais? E o seu casamento com alguma jovem bela e rica, como fica? Será possível agora tornar-se governador? Que tipo de vida levará agora o assessor de colegiatura com um “buraco” na cara? São questões que se impõem ao homem. Ninguém parece estar pronto ou à espera de perder o “nariz”, e com Kovalióv não é diferente.
Contudo, na medida em que conhecemos melhor o personagem de Gogol, ficamos com a ideia de que o Major Kovalióv encarna o tipo de sujeito que não sabe e que não considera perder, seja qual for a perda. A exemplo dos sujeitos do nosso tempo, vive num excesso de positividade que elimina os contrários. Portanto, só existe o ganhar. O ser feliz. A realização dos seus objetivos. E é por essa razão que a perda do nariz causa tanta repulsa em Kovalióv.
Assim, aquilo que Byung-Chul Han diagnostica em relação aos sujeitos na contemporaneidade é ao que parece a atualização e descrição de algo que — como mostra o conto de Gogol — é inerente à condição humana, independentemente do tempo e do espaço.
Ao compararmos Heitor, o herói homérico, com o “herói” de Gogol, logo percebemos uma profunda diferença entre ambos: um resistiu ao seu destino, enquanto o outro o recusou. Um viveu corajosamente a ameaça da negação, o outro viu o seu mundo ruir diante dela.