19 de Março de 2002   Estética

Desespero humano

Maria João Cantinho
Kafka: Viagem às profundezas de uma alma
de Pietro Citati
Tradução de Ernesto Sampaio
Cotovia, Lisboa 2001, 352 pp.

“Mas um dos homens pôs-lhe as mãos no pescoço, enquanto o outro lhe espetava profundamente a faca no coração e aí a rodava duas vezes. Moribundo, K. viu ainda os dois homens muito perto do seu rosto, com as faces quase coladas, a observarem o desfecho.
— Como um cão! — disse. Era como se a vergonha devesse sobreviver-lhe."
Kafka, O Processo.

Como prometido, encontra-se agora disponível a biografia de Kafka da autoria de Citati. O título “Viagem às Profundezas de uma Alma” indicia-nos o tom forte que o autor imprime à sua obra, devendo ser considerada muito mais que uma biografia. É também um ensaio notável, que se lê com voracidade, como de resto quase todas os seus livros. O kafkianismo a que fomos habituados, nos vários registos conhecidos, desde uma perspectiva boémia de Kafka até ao seu lado atormentado e de extrema fragilidade, deixa-nos sempre hesitantes sobre o juízo da personalidade deste génio da literatura moderna.

O retrato que Citati nos dá de Kafka é o de um homem profundamente atormentado e inquieto, inteiramente submetido à literatura, vivendo única e simplesmente em função dela e tudo recusando em seu nome. A monotonia da sua vida e a rigidez dos seus hábitos subordinavam-se às leis da escrita, proporcionando-lhe o espaço e a solidão necessários à criação. A relação com Felice Bauer, os seus noivados fracassados e as suas relações com mulheres em geral, como Milena, Dora e Grete, eram dominadas pela submissão à escrita. Em nome dela renunciou ao casamento que lhe retiraria a solidão de que precisava, autocondenando-se a um círculo cujo centro era, precisamente, o da criação.

A tuberculose, a intensa fragilidade, os horários a que se submetia para conseguir escrever, para além do emprego que sempre manteve, excepto na fase final da sua vida, tudo isso é abordado de forma intensa e, às vezes, pungente, nesta obra de Citati. Fica-nos o retrato de um homem infeliz e só, cuja ideia de felicidade consistia justamente num casamento, mas à qual renunciou em definitivo.

Fazendo desfilar diante do nosso olhar os factos que marcaram decisivamente a sua vida e se imprimiram na sua obra, Citati prima pelo entrosamento dos aspectos biográficos com o ensaio e estudo da sua literatura. Assim, a relação de Kafka com a família e, em especial, com o pai, com o niilismo e o lado alegórico, profundamente cravado no cerne das suas imagens, o desespero humano constantemente renovado e despedaçado que constituem os seus romances, tudo isso é analisado com mestria e descrito num tom romanceado, imprimindo o dinamismo que caracteriza as biografias de Citati.

O que suscita, sobretudo, o nosso interesse é o modo como o autor soube captar admiravelmente o aspecto alegórico da obra kafkiana, esforçando-se por encontrar a razão de ser e a origem dessas imagens que tanto nos perturbaram (e ainda perturbam) na sua literatura. Desde a redacção dos primeiros escritos, menos alegóricos, até às estranhas arquitecturas que nos fascinaram em O Processo e O Castelo, Citati persegue a origem dessas imagens como um caçador que segue a sua presa, seguindo-lhe as pisadas que se perdem e se fecham numa escrita enigmática e poderosíssima.

Logo no capítulo I, o modo como o autor define a presença de Franz Kafka para os seus amigos, parece aproximar-se bastante daquela que imaginamos:

Todas as pessoas que conheceram Franz Kafka na juventude ou na maturidade, ficaram com a impressão de estar rodeado por uma “parede de vidro”. Estava ali, atrás do vidro transparentíssimo, caminhava graciosamente, gesticulava, falava, sorria como um anjo meticuloso e ágil.

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Um olhar de anjo, derradeiro, sobre os tempos que se adivinhavam já absurdos, dominados pela presença do Mal absoluto (pouco depois do desaparecimento de Kafka terá início a perseguição aos judeus na Alemanha e em toda a Europa, de que as suas próprias irmãs foram vítimas). A lucidez atroz desse olhar é já a de um visionário, alguém que sabe e reconhece na vivência humana a fragmentação e a perda do sentido da experiência, através das figuras alegóricas da lei e da palavra.

A orientação teológica que se acentuará nos últimos escritos, em que a figura de Deus aparece frequentemente, o problema da culpa, que tão intimamente Kafka partilhou com Pascal, a procura de restituição de um sentido para a existência humana que nunca se vislumbra (os heróis kafkianos são pungentes precisamente por isso, encontram-se constantemente a questionar o que jamais entenderão, problemas para os quais não é possível qualquer saída), apresentando-se a existência de uma forma cada vez mais desesperada e destituída de sentido, comandada por estranhos desígnios. Os romances e contos de Kafka, como Citati o demonstra, são alegorias fortíssimas que expõem, em toda a sua intensidade, a dilaceração gerada pelos eternos paradoxos humanos. Uma dilaceração ostentada, visível até às suas entranhas, e que é da ordem do que já não é possível pensar-se ou representar-se.

Seria desejável, ainda, que Citati soubesse articular melhor o homem e a sua época, tendo de facto mostrado o quanto de visionário existe na sua obra, o único aspecto que não é abordado e que parece tão crucial para compreender a obra de Kafka em toda a sua real extensão.

Um ensaio admirável e indispensável, sem dúvida, mesmo para os mais cépticos.

Maria João Cantinho