O Espanto: 10.º ano
O Espanto: 10.º ano
25 de Janeiro de 2021   Filosofia da linguagem

Significado

Tim Crane
Tradução de Desidério Murcho

A filosofia do século XX, tanto na tradição “analítica” como na “continental”, preocupou-se com questões acerca do significado linguístico, e acerca da maneira como a linguagem se relaciona com a realidade. Na tradição analítica, isto foi em larga medida uma consequência das revoluções ocorridas na lógica, e a que Frege e Russell deram o pontapé de saída. Na verdade, Michael Dummett defendeu que a característica distintiva da filosofia analítica é o pressuposto de que “a filosofia da linguagem é o fundamento da restante área”. Ainda que não se aceite esta tese, é inegável que o fenómeno do significado levanta alguns dos mais intratáveis problemas da filosofia.

O Espanto: 10.º ano

O significado de uma palavra olha simultaneamente, digamos, para “fora”, para o mundo, e para “dentro”, para as outras palavras. O significado da palavra “tigre”, por exemplo, relaciona-se a um tempo com aquelas coisas no mundo a que se aplica — tigres — e a outras palavras com as quais se combina para formar frases que podem ser usadas para fazer asserções, perguntas, avisos, etc.: “Os tigres são animais”, “O que é um tigre?”, “Cuidado! Um tigre!” Ainda que outras coisas estejam envolvidas no significado, é claro que estes dois papéis são claramente essenciais: pois quem conhece o significado da palavra “tigre” tem de ter algum entendimento do modo como se aplica a coisas no mundo, e tem também de ser capaz de usar a palavra num número indeterminado de frases. Uma teoria do significado — “uma teoria semântica” — está obrigada, consequentemente, a explicar como as palavras podem executar esta dupla função.

Na teoria semântica seminal de Gottlob Frege, estes dois papéis são explicados em conjunto. Frege associou a cada parte dotada de significado de uma linguagem algo a que chamou o seu “Bedeutung”, que normalmente se traduz como “referência”. A referência de uma expressão é, intuitivamente, o que esta “representa”: a referência de “George Orwell”, por exemplo, é um homem particular. A perspicácia de Frege foi ver que as referências das partes de uma frase contribuem de maneira sistemática para a verdade ou falsidade das frases em que essas partes ocorrem. Assim, a verdade ou falsidade da frase “George Orwell escreveu 1984” é determinada pelas referências das palavras individuais e pela maneira como se combinam. O significado geral da frase — para Frege, a sua verdade ou falsidade — é determinada pelo que as partes da frase “representam” no mundo, e pelas relações entre essas partes.

Segue-se desta tese que se substituirmos uma palavra numa frase F por uma palavra com a mesma referência, a verdade ou falsidade de F não irá mudar. Mas isto dá origem a um problema bem conhecido. Suponha-se que Alf acredita que George Orwell escreveu 1984, mas não sabe que Orwell é Blair. Então, apesar de a frase “Alf acredita que George Orwell escreveu 1984” ser verdadeira, a frase “Alf acredita que Eric Blair escreveu 1984” será falsa. De modo que se o significado é o que determina a verdade ou falsidade de uma frase, tem de haver algo mais com respeito ao significado de uma frase, além da referência das suas partes.

Frege deu conta disto introduzindo outra noção na teoria do significado, a que chamou “Sinn”, e que se traduz habitualmente por “sentido”. O sentido de uma expressão é, intuitivamente, não o que é por ela referido, mas a maneira como isso é referido. Cada sentido determina uma referência, mas a uma mesma referência poderão corresponder vários sentidos. Crucial na perspetiva de Frege é a ideia de que os sentidos são objetos abstratos, e não ideias na mente das pessoas.

A ideia básica de Frege é muito atraente. Contudo, emerge uma questão natural a que a própria obra de Frege (deliberadamente) não responde: dado que as palavras realmente referem coisas, como explicamos esta relação de referência? O que faz, de todo em todo, uma palavra qualquer referir um dado objeto? Uma resposta natural, apesar de vaga, é em termos das capacidades psicológicas de quem usa uma linguagem: as palavras querem dizer o que dizem devido ao que as pessoas que usam uma dada linguagem fazem com elas. Um exemplo desta abordagem é o positivismo lógico, que sustentava que o significado de uma frase é dado pela explicação do que seria preciso fazer para verificar a frase. Neste caso, o significado é explicado em termos da capacidade psicológica, entre outras, para dizer se uma frase é verdadeira ou não.

Ao desaparecimento da explicação do significado oferecida pelo positivismo lógico seguiu-se um surto de ceticismo sobre a noção de significado, expresso de maneira mais influente na obra de W. V. Quine. Este filósofo ia na peugada dos positivistas, conectando o significado à experiência, mas defendia que esta não diz respeito a frases individuais, mas antes a teorias completas. Dado que ele pensava que o significado tinha de estar empiricamente disponível, Quine formula a questão do seguinte modo: que provas determinam que alguém quer dizer algo ao fazer certos sons? Quine pensava que as únicas provas aceitáveis seriam comportamentais e, consequentemente, fugia de qualquer apelo à introspeção ou aos sentidos de Frege (estes últimos são “criaturas das trevas”, cujos critérios de identidade são completamente obscuros). Porém, nenhuma quantidade de provas comportamentais pode determinar que as palavras de uma pessoa querem dizer uma coisa e não outra — é sempre possível construir “traduções” alternativas e incompatíveis das provas. Quine parte daqui para a sua famosa tese de que a tradução é indeterminada, e a referência inescrutável: estritamente falando, não há factos acerca do que as palavras e frases querem dizer. A tese aqui não é epistémica: a referência é inescrutável porque “nada há para escrutar”. (Encontra-se também um ceticismo muito diferente com respeito a explicações filosóficas do significado nos escritos tardios de Wittgenstein.)

Uma tentativa significativa de explicar o significado, com um olho no ceticismo de Quine, foi proposto por Donald Davidson nas décadas de sessenta e setenta do século XX. Partilhando as simpatias de Quine com a extensionalidade, Davidson procurou uma explicação do significado em termos de verdade, que durante algum tempo pareceu logicamente mais tratável do que o significado. Em particular, o lógico polaco Alfred Tarski definira a verdade para as frases de certas linguagens formais em termos da relação de satisfação que se verifica entre as partes das frases e sequências de objetos. A verdade de uma frase é determinada sistematicamente pela satisfação das suas partes; desse modo, Tarski pôde mostrar como derivar formalmente, partindo dos axiomas e regras da teoria, frases (as chamadas “frases V”) que formulam o que se poderia intuitivamente considerar que são as condições sob as quais qualquer frase da linguagem é verdadeira. (Um exemplo favorito é a seguinte frase V aparentemente banal: ““A neve é branca” é verdadeira se e só se a neve é branca”.)

Como vimos, a ideia de que as partes de uma frase contribuem de maneira sistemática para o significado da frase completa era central na obra de Frege. Mas Davidson explica o significado sem usar a ideia problemática de sentido. Em vez disso, propõe que se use uma teoria da verdade ao estilo de Tarski para “servir” como teoria do significado. Em resumo, a ideia é a seguinte: uma teoria do significado para uma linguagem deve pelo menos acarretar, para qualquer frase da linguagem, uma frase que “dê o seu significado”. O género mais óbvio de caso seria o “homofónico”: dar o significado de uma frase seria apenas dar a própria frase. Por exemplo, reconhecemos imediatamente que a frase ““A neve é branca” significa que a neve é branca” dá o significado de “A neve é branca”. Isto parece trivial, é claro, mas isso é só porque já sabemos o que “A neve é branca” quer dizer. (A frase ““La neve è bianca” significa que a neve é branca” já não parece tão trivial.) A teoria tem também de mostrar como as partes individuais dão um contributo sistemático para as frases em que ocorrem. De modo que sabemos agora quais são as consequências que uma teoria do significado tem de ter — mas como conseguimos construir uma teoria que tenha efetivamente essas consequências? A perspicácia de Davidson foi ver que se substituirmos “significa que” na frase anterior com “é verdadeira se e só se”, obteremos as frases V que Tarski mostrou como provar. E Tarski fê-lo mostrando como a verdade das frases era sistematicamente determinada pelas propriedades semânticas das suas partes. Ao usar a teoria da verdade de Tarski como teoria do significado, Davidson preencheu a ideia esquemática de que dar o significado de uma frase é dar as condições sob as quais ela é verdadeira.

Porém, como consegue a teoria de Davidson dar conta dos fenómenos que Frege explicava usando a noção de sentido? As condições de verdade, só por si, não conseguem fazê-lo — dado que “Orwell escreveu 1984” e “Blair escreveu 1984” têm as mesmas condições de verdade. Davidson responde que uma coisa é construir uma teoria formal que mostra como as propriedades semânticas de frases completas se formam sistematicamente a partir das propriedades semânticas das suas partes; outra coisa é estabelecer como tal teoria se aplica a oradores individuais. Esta última tarefa consiste em fornecer uma teoria da verdade tarskiana que seja interpretativa. Ao aplicar uma teoria da verdade a um orador, temos de aplicar as restrições de uma teoria da interpretação radical, nomeadamente o “princípio da caridade”: pressupor que, em traços gerais, os oradores estão a falar a verdade. A interpretação procede depois como se segue: colija-se as frases que um orador “considera verdadeiras” e conceba-se uma teoria da verdade que as tenha como consequências formais. Para respeitar a intensionalidade do significado, precisamos de uma teoria que prove frases como ““Orwell escreveu 1984” é verdadeira se e só se Blair escreveu 1984”. Mas a teoria que prova as frases V interpretativas será puramente extensional.

Para Davidson, a crença e o significado são interdependentes — uma das lições que ele retira é que nada pode genuinamente ter crenças a menos que tenha também uma linguagem pública. Muitos filósofos recuaram aqui, tanto por pensarem que é inegável que algumas criaturas não-linguísticas — como cães e símios — têm crenças, como por terem a esperança de que o significado possa ainda ser explicado em termos dos conteúdos de estados mentais ou, em última análise, a eles reduzidos. Uma proposta influente é a de H. P. Grice, que sugeriu que os significados das frases podem ser reduzidos à intenção do orador de induzir uma crença no interlocutor por meio do reconhecimento, por parte deste, dessa sua intenção.

Apesar de o programa de Grice não ser já tão popular como no passado, a ideia geral de reduzir o significado aos estados psicológicos dos oradores é agora largamente aceite (pace Davidson, Wittgenstein e os seus seguidores). Isto é ilustrado pelo facto de que, no momento em que escrevo, a filosofia da linguagem cedeu em certa medida o centro do palco à filosofia da mente — e o problema do significado tornou-se o problema da intencionalidade.

Tim Crane
The Oxford Companion to Philosophy, org. Ted Honderich (Oxford: Oxford University Press, 2.ª ed., 2005), pp. 575–576.

Bibliografia