4 de Abril de 2018 | Ética

Será o egoísmo empiricamente testável?

Elliott Sober
Tradução e adaptação de Vítor João Oliveira

Uma objecção filosófica tradicional apresentada ao egoísmo é que não é uma hipótese empiricamente testável. Como o exemplo do soldado na trincheira sugere, parece que o egoísmo pode incluir e explicar qualquer tipo de comportamento das pessoas, sejam elas boas ou más umas para as outras. A afirmação de que o egoísmo é flexível é então ligada a um critério popperiano quanto ao que se exige para que uma afirmação ser científica, concluindo-se que o egoísmo não é de modo algum uma teoria científica. Apesar das aparências, é uma teoria empiricamente vácua.

Este argumento falha em dois sentidos. O primeiro diz respeito à confiança optimista de que nenhuma observação empírica poderá alguma vez refutar o egoísmo. O facto de a teoria poder incluir o exemplo do soldado na trincheira bem como outros comportamentos que têm sido considerados pelos filósofos, dificilmente basta para justificar esta afirmação global. Na verdade, o trabalho experimental desenvolvido pela psicologia social sobre o altruísmo e o egoísmo mostra que as provas empíricas relevantes ultrapassam a existência de instâncias de comportamento de ajuda. Por outro lado, a sugestão de Duhem de que as teorias científicas só são testáveis em conjunção com pressupostos de fundo deve levar-nos a recuar na acusação de intestabilidade. Se duas teorias fazem as mesmas previsões relativamente a um quadro de referência de fundo, podem fazer previsões diferentes relativamente a outro. Como sabemos que nunca se desenvolverão novas teorias de fundo que permitam que o egoísmo seja testado? A acusação de intestabilidade pressupõe que temos um conhecimento omnisciente do futuro da ciência.

O segundo defeito deste argumento é ignorar que a acusação de intestabilidade é uma faca de dois gumes. O argumento é apresentado como razão para rejeitar o egoísmo. O que havemos então de aceitar como explicação efectiva da motivação? Presumivelmente, o pluralismo da motivação é a alternativa viável. Contudo, não é possível que seja este o resultado do argumento. Se o egoísmo não é testável, também o pluralismo da motivação o é. Por mais flexível que o egoísmo seja quanto à sua capacidade para acomodar observações, o pluralismo é ainda mais flexível. Afinal o pluralismo usa todas as variáveis que o egoísmo invoca, e mais algumas. As duas teorias relacionam-se entre si a mesma maneira que “y = f (x)” e “y = g (x,w)” se relacionam.

A razão pela qual o egoísmo parece não ser testável é porque é um ismo. Não fornece explicações específicas para o comportamento, apenas indica o tipo de explicação que todos os comportamentos terão. É isto que permite que se continue a aceitar o egoísmo mesmo quando as explicações egoístas específicas se revelam inadequadas. Por que razão terá o Jorge doado todo o seu dinheiro a uma instituição de caridade? Um defensor do egoísmo pode sugerir que o Jorge agiu dessa forma porque queria impressionar os outros e, dessa forma, aumentar os seus contactos comerciais. Contudo, suponha-se que ficamos a saber que a doação do Jorge tinha sido anónima. Isso refuta a explicação egoísta atrás descrita, mas não é difícil inventar outra. O Jorge fez essa doação porque isso o fez sentir-se bem e porque sabia que, se não o fizesse, sentiria remorsos. O padrão é típico — o hedonismo é a posição em que os egoístas tradicionais se refugiam. Se os benefícios externos não forem suficientes para a explicação, então invocam-se benefícios internos, isto é, psicológicos.

Que o egoísmo é uma teoria sobre um tipo de explicação, e que, por isso, difere das explicações específicas do tipo requerido, é um padrão que surge em muitos debates sobre os ismos. Considere-se o adaptacionismo na biologia evolucionista. Os adaptacionistas sublinham a importância da selecção natural ao explicar os traços observados nos organismos. Porque este ismo, por si, não fornece uma explicação específica para qualquer traço, um biólogo pode continuar a ser adaptacionista mesmo quando uma explicação específica desse tipo se revela inadequada. Por que apareceram asas nos insectos? A hipótese explicativa de que resultam de uma adaptação necessária para voar é questionada pelo facto de os “rebentos” de asas não permitirem sequer levantar voo; ainda que 5% de um olho permita que este continue a funcionar como sensor de luz, 5% de asa não serve sequer para levantar um insecto do chão. Contudo, em algumas espécies de insectos que não voam encontramos “rebentos” de asas que funcionam como reguladores térmicos. Isto sugere uma hipótese alternativa — que as asas dos insectos começaram por evoluir por promoverem a regulação térmica e depois continuaram a evoluir porque facilitavam o voo. Mas se esta hipótese for novamente posta em causa, o adaptacionista pode desenvolver uma terceira hipótese. Não é bom rejeitar o adaptacionismo devido a este tipo de flexibilidade; o ismo alternativo, o pluralismo evolutivo, defende que a selecção natural é apenas uma de entre diversas causas importantes da evolução. Se o adaptacionismo é flexível, o pluralismo é-o ainda mais.

Elliott Sober
Retirado do artigo “Psychological Egoism”, in The Blackwell Guide to Ethical Theory, org. Hugh LaFollette (Oxford: Blackwell, 2000, pp. 133-134.)