O conceito de sublime ocupa um lugar central na estética filosófica. Tradicionalmente, o sublime refere-se a experiências que parecem ultrapassar as capacidades normais de compreensão ou representação. Paisagens grandiosas, fenómenos naturais extremos ou certas obras de arte são frequentemente descritos como sublimes.
Contudo, a própria natureza dessa experiência levanta uma questão filosófica importante: Poderá o sublime ser adequadamente representado ou compreendido? Neste ensaio defenderei que não. Defender que o sublime é inatingível não significa negar que possamos ter experiências sublimes. Significa antes afirmar que essas experiências nos confrontam com limites que não conseguimos ultrapassar nem determinar completamente.
A tese que proponho não é que o sublime corresponda simplesmente à impossibilidade de representar exaustivamente uma realidade. Nenhuma representação humana é exaustiva. O sublime surge antes quando os limites da representação se tornam eles próprios objecto da experiência. É nesse confronto com os limites do pensamento e da imaginação que reside a sua singularidade. Para compreender este argumento, é necessário começar por distingui-lo das análises mais influentes do conceito.
Uma das primeiras análises sistemáticas do sublime foi apresentada por Edmund Burke. Para Burke (1757), o sublime está associado a experiências de grandeza, poder ou vastidão que despertam emoções intensas, frequentemente acompanhadas por admiração ou temor.
Fenómenos naturais como montanhas, tempestades ou oceanos constituem exemplos paradigmáticos deste tipo de experiência.
A análise de Burke tem o mérito de identificar com precisão certas qualidades dos objectos que tendem a provocar o sublime. Contudo, ao centrar-se nas características empíricas e nos efeitos fisiológicos que essas qualidades produzem no observador, Burke não explica aquilo que é filosoficamente mais relevante: o facto de a experiência do sublime não ser apenas uma reacção intensa a um estímulo poderoso, mas uma forma de confronto reflexivo com os limites da própria mente. A grandeza de uma montanha pode provocar admiração ou temor, mas não explica por que certas experiências nos tornam conscientes de que o mundo excede as nossas categorias de compreensão. Para explicar isso, é necessário ir além de Burke.
Immanuel Kant (1790) desenvolveu uma interpretação diferente e, a este respeito, mais iluminadora. Segundo Kant, o sublime surge quando algo na natureza parece exceder as capacidades da nossa imaginação. A mente procura representar o fenómeno, mas descobre a insuficiência dos seus próprios recursos. Neste momento emerge uma tensão entre a limitação da imaginação e a capacidade da razão de pensar ideias como o infinito ou a totalidade.
Para Kant, a experiência do sublime revela algo acerca da própria estrutura da mente humana. A falha da imaginação não é meramente negativa. Pelo contrário, mostra que somos capazes de conceber ideias que excedem aquilo que conseguimos representar sensivelmente. Kant distingue ainda dois tipos de sublime: o sublime matemático, relacionado com grandezas que parecem exceder a capacidade da imaginação para representar a sua magnitude, e o sublime dinâmico, referente à experiência de forças naturais poderosas. Em ambos os casos, o sublime emerge de um confronto entre as capacidades humanas de representação e algo que parece excedê-las.
É precisamente esta dimensão de confronto reflexivo que a análise de Burke deixa por explicar e que a interpretação kantiana ilumina. É também a partir dela que o argumento central deste ensaio se desenvolve.
Se aceitarmos a interpretação kantiana, torna-se plausível considerar o sublime como uma experiência-limite. Contudo, é importante compreender em que sentido preciso se trata de um limite.
Seria um erro afirmar que o sublime consiste simplesmente na impossibilidade de representar completamente um objecto ou fenómeno. Afinal, nenhuma representação humana é completamente adequada ao seu objecto. Quando observamos uma árvore, não apreendemos todos os seus aspectos, propriedades ou relações.
Ainda assim, não consideramos essa experiência sublime. O que distingue o sublime não é a existência de um limite da representação, mas a manifestação desse limite na própria experiência.
Considere-se o que acontece quando contemplamos a imensidão de um oceano à noite. Não se trata apenas de não conseguirmos ver toda a água; isso é trivialmente verdadeiro. O que ocorre é algo de outra natureza: a mente tenta abarcar o que tem diante de si, organizar o que percebe em categorias coerentes de magnitude, distância, profundidade, e descobre que esses esforços se dissolvem antes de se completarem. Não há um ponto em que a representação falha e sabemos exactamente o que nos falta. Há antes uma pressão persistente de algo que excede continuamente o enquadramento que lhe tentamos impor. O limite não é um muro que encontramos e mapeamos; é uma dissolução que sentimos sem conseguir delimitar.
É nesse sentido que a experiência do sublime não consiste no conhecimento de que a nossa representação é incompleta. Consiste antes na experiência de um limite da representação que se manifesta sem que possamos determinar aquilo que está para além dele.
Não sabemos o que seria uma representação perfeita do oceano que contemplamos. Sabemos apenas, de forma imediata e perturbadora, que o que estamos a fazer é insuficiente.
Poder-se-ia argumentar que certas obras de arte conseguem efectivamente produzir o sublime e que, nesse sentido, o sublime pode ser alcançado, ou pelo menos tecnicamente produzido. Pense-se na Nona Sinfonia de Beethoven, obra que parece dar corpo com regularidade ao que descrevemos como grandeza ou transcendência. Se um compositor consegue produzir sistematicamente essa experiência nos ouvintes, isso não sugere que o sublime é, afinal, algo que pode ser engendrado por meios determinados? E se pode ser engendrado, em que sentido é inatingível?
A objecção é séria e merece uma resposta directa. O que ela mostra é que certas obras podem criar as condições para a experiência do sublime. Mas criar as condições para uma experiência não equivale a conter essa experiência. Uma partitura de Beethoven é um conjunto de instruções para a organização de sons no tempo. O que essas instruções produzem, quando bem executadas, não é o sublime em si, mas uma situação em que o ouvinte é colocado perante algo que excede o que a própria música contém. O que nos perturba não é apenas o que ouvimos, é o que a música aponta para além de si mesma e que não conseguimos determinar.
A obra não contém plenamente o sublime. Apenas cria as condições para que a experiência dos limites da representação possa ocorrer. A nossa experiência do sublime não está na partitura nem na sala de concertos: está no fracasso da nossa tentativa de abarcar completamente o que nos é dado. Assim, mesmo quando a arte parece aproximar-nos do sublime, a nossa experiência continua a depender de algo que permanece além de qualquer representação determinada. O facto de esse algo poder ser sistematicamente evocado não o torna atingível; apenas confirma que o limite é real e recorrente.
A análise até aqui desenvolvida tem implicações que ultrapassam a estética. Quando os limites da representação se tornam manifestos, somos também confrontados com a nossa própria finitude.
Descobrimos que o mundo não se deixa reduzir inteiramente às nossas categorias de compreensão. Arthur Schopenhauer (1819) identificou algo próximo disto ao observar que certas experiências estéticas colocam o indivíduo perante forças ou grandezas que excedem a sua própria existência individual, produzindo um efeito de distanciamento das preocupações e dos desejos quotidianos. Na contemplação do sublime, o sujeito não se esquece de si próprio apenas por deleite; confronta-se com algo que o excede constitutivamente.
Os instrumentos com que procuramos compreender o mundo tem limites que não conseguimos determinar a partir de dentro. Não sabemos onde acabam as nossas categorias. Sabemos apenas, que certas experiências, acabam. É isso que torna o confronto com o sublime perturbador de uma forma diferente do confronto com um perigo físico.
Por essa razão, a experiência do sublime pode ser acompanhada por um sentimento de inquietação ou mesmo de angústia, não porque estejamos necessariamente perante um perigo, mas porque nos tornamos conscientes dos limites constitutivos da condição humana.
O sublime recorda-nos que habitamos um mundo que nunca se torna completamente transparente ao pensamento. A sua “inatingibilidade” não constitui um defeito da experiência. Constitui precisamente a sua essência.
O sublime pode ser entendido como uma experiência que revela os limites das nossas capacidades de representação e compreensão.
Esses limites não devem ser entendidos como uma simples insuficiência cognitiva, uma vez que toda a experiência humana é, em algum grau, limitada. O que caracteriza o sublime é o facto de esses limites se tornarem eles próprios objecto da experiência. No sublime não descobrimos aquilo que está para além da representação; descobrimos apenas que existe um além que escapa às nossas tentativas de determinação.
Por essa razão, o sublime é essencialmente inatingível. Não porque exista uma realidade plenamente conhecida que não conseguimos alcançar, mas porque a própria experiência do sublime consiste no confronto com um limite que não podemos ultrapassar nem determinar completamente.
Resta uma questão que a argumentação deste ensaio abre sem fechar: o que significa viver com esta inatingibilidade? Se o sublime nos recorda periodicamente que habitamos um mundo que nunca se torna completamente transparente ao pensamento, que postura é possível perante essa condição? Talvez a resposta não seja a resignação nem a indiferença, mas uma forma de atenção; a disponibilidade para deixar que o mundo nos exceda sem que isso nos paralise. O sublime seria então, não apenas uma experiência estética, mas uma escola da finitude: um confronto recorrente que nos ensina, precisamente por não se resolver, o que significa existir nos limites do que podemos compreender.