15 de Outubro de 2026   Filosofia

A minha filosofia

Woody Allen
Tradução de Desidério Murcho

A minha filosofia nasceu nas seguintes circunstâncias: A minha mulher convidou-me para provar o primeiro soufflé que tinha feito na vida e, sem querer, deixou-me cair uma colherada em cima do pé, fracturando-me vários ossinhos. Chamaram-se médicos, tiraram-se e examinaram-se radiografias, e mandaram-me ficar de cama durante um mês. Durante a convalescença, dediquei-me à leitura de alguns dos mais temíveis pensadores da civilização ocidental — uma pilha de livros que tinha posto de lado precisamente para uma eventualidade destas. Desprezando a ordem cronológica, comecei por Kierkegaard e Sartre, passando depois rapidamente a Espinosa, Hume, Kafka e Camus. Ao contrário do que receava, não me aborreci. Fiquei antes fascinado com o desembaraço com que estes grandes espíritos enfrentavam, sem pestanejar, a moralidade, a arte, a ética, a vida e a morte. Lembro-me da minha reacção a uma observação de Kierkegaard, de uma luminosidade que lhe era característica: “Uma relação que se relaciona consigo própria (isto é, um eu) tem de ter sido constituída por si mesma ou por outro”. Este conceito trouxe-me lágrimas aos olhos. Meu Deus, pensei, quem me dera ter tamanha inteligência! (Eu sou daqueles que tem dificuldade em escrever duas frases com sentido sobre “O Meu Dia no Jardim Zoológico”.) É verdade que não percebi pevas daquela passagem, mas que importava isso, desde que Kierkegaard se estivesse a divertir? Subitamente convencido de que a metafísica era a minha verdadeira vocação, peguei na caneta e comecei imediatamente a tomar nota das minhas primeiras reflexões. O trabalho avançou a bom ritmo e, em apenas duas tardes — com algumas interrupções para passar pelas brasas e para jogar à cabra-cega —, concluí a obra filosófica que espero só vir a ser descoberta depois da minha morte, ou no ano 3000 (o que acontecer primeiro), e que, modestamente, acredito que me garantirá um lugar de honra entre os mais importantes pensadores da história. Eis uma pequena amostra do vasto tesouro intelectual que deixo à posteridade — ou, pelo menos, até chegar a senhora da limpeza.

I. Crítica da Angústia Pura

Ao formular qualquer filosofia, a primeira questão a considerar tem de ser sempre: o que podemos saber? Ou seja, de que podemos ter a certeza de saber, ou ter a certeza de que sabemos que sabíamos, admitindo que seja sequer possível sabê-lo? Ou será que simplesmente nos esquecemos e temos vergonha de o admitir? Descartes aludiu a este problema quando escreveu: “A minha mente nunca poderá conhecer o meu corpo, embora já se dê bastante bem com as minhas pernas”. A propósito, por “cognoscível” não entendo aquilo que pode ser conhecido por meio da percepção sensorial, nem aquilo que a mente pode apreender, mas antes aquilo de que se pode dizer que é Conhecido, ou que tem Conhecididade ou Cognoscibilidade — ou, pelo menos, que se pode mencionar a um amigo.

Será que podemos realmente “conhecer” o Universo? Meu Deus, já é suficientemente difícil orientarmo-nos em Chinatown. A questão, porém, é esta: haverá alguma coisa lá fora? E porquê? E têm mesmo de fazer tanto barulho? Finalmente, não pode haver qualquer dúvida de que a única característica da “realidade” é a sua falta de essência. Não quero com isto dizer que não tenha essência, mas apenas que lhe falta. (A realidade de que falo é a mesma que Hobbes descreveu, só que um pouco menor.) Por conseguinte, seria melhor substituir a máxima cartesiana “Penso, logo existo” por “Olha, lá vai a Edna com um saxofone!”. Assim, para conhecer uma substância ou uma ideia, temos de duvidar dela e, por meio dessa dúvida, chegar a apreender as qualidades que tem no seu estado finito e que estão verdadeiramente “na própria coisa”, ou são “da própria coisa”, ou de alguma coisa, ou de coisa nenhuma. Se isto ficou claro, podemos deixar a epistemologia de lado para já.

II. Dialéctica Escatológica como Forma de Lidar com a Herpes

Podemos dizer que o universo é constituído por uma substância a que chamaremos “átomos”, ou então “mónadas”. Demócrito chamou-lhe átomos. Leibniz chamou-lhe mónadas. Felizmente, os dois nunca se encontraram, caso contrário teriam tido uma discussão extremamente enfadonha. Estas “partículas” foram postas em movimento por alguma causa ou princípio subjacente, ou talvez tenha simplesmente caído alguma coisa algures. A questão é que agora já é demasiado tarde para fazer seja o que for a esse respeito, a não ser, talvez, comer muito peixe cru. Isto, evidentemente, não explica por que razão a alma é imortal. Também nada nos diz acerca da vida depois da morte, nem acerca da impressão que o meu tio Sender tem de estar a ser perseguido por albaneses. A relação causal entre o primeiro princípio (isto é, Deus ou uma forte ventania) e qualquer conceito teleológico de ser (Ser) é, segundo Pascal, “tão ridícula que nem sequer tem graça”. Schopenhauer chamou a isto “vontade”, mas o médico diagnosticou-lhe febre dos fenos. Nos últimos anos da vida, tornou-se amargurado por causa disso, ou, mais provavelmente, porque suspeitava cada vez mais que não era Mozart.

III. O Cosmos com Cinco Dólares por Dia

O que é, então, “belo”? A fusão da harmonia com o justo, ou a fusão da harmonia com qualquer coisa que soa mais ou menos como “o justo”? Talvez a harmonia devesse antes ter-se fundido com “o busto”, e seja daí que vêm todos os nossos problemas. A verdade, sem dúvida, é beleza — ou “o necessário”. Ou seja, aquilo que é bom, ou que tem as qualidades do “bem”, dá origem à “verdade”. Se assim não for, podem ter a certeza de que a coisa não é bela, embora possa ser impermeável. Começo a achar que eu tinha razão desde o início e que se deve fundir tudo com o busto. Enfim.

Duas Parábolas

Um homem aproxima-se de um palácio. A única entrada é vigiada por uns hunos ferozes que só deixam passar homens chamados Júlio. O homem tenta subornar os guardas, oferecendo-lhes um ano de fornecimento de pedaços de frango da melhor qualidade. Os guardas não desprezam a oferta nem a aceitam. Limitam-se a agarrar-lhe no nariz e a torcê-lo até ficar com o aspecto de uma bucha de expansão. O homem diz que é absolutamente indispensável entrar no palácio, pois traz uma muda de roupa interior para o imperador. Como os guardas continuam a recusar-lhe a entrada, começa a dançar o charleston. Os guardas parecem apreciar a dança, mas depressa ficam taciturnos ao pensarem na maneira como o Governo federal trata os Navajos. Sem fôlego, o homem cai por terra. Morre sem nunca ter visto o imperador e deixando uma dívida de sessenta dólares à Steinway, pelo aluguer de um piano que tinha contratado em Agosto.

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Entregam-me uma mensagem para levar a um general. Cavalgo sem parar, mas o quartel-general parece ficar cada vez mais longe. Por fim, uma enorme pantera negra salta-me em cima e devora-me a mente e o coração. Isto estraga-me completamente a noite. Por mais que me esforce, não consigo alcançar o general, que vejo ao longe a correr de calções e a sussurrar a palavra “noz-moscada” aos inimigos.

Aforismos

É impossível ter uma experiência objectiva da própria morte e continuar a cantar sem desafinar.

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O universo não passa de uma ideia passageira na mente de Deus — uma perspectiva bastante inquietante, sobretudo para quem acabou de pagar o sinal da casa.

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O nada eterno não tem mal nenhum, desde que se vá vestido para a ocasião.

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Quem me dera que Dioniso ainda fosse vivo! Onde iria ele comer?

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Não só Deus não existe, como tentem lá arranjar um canalizador ao fim-de-semana.

Woody Allen
Getting Even (Nova Iorque: Warner Books, 1972), pp. 27–31.
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